Lula deixa Índia com promessa de investimentos bilionários e reforço na relação
NOVA DÉLI* - Após quatro dias na Índia, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deixa o país neste domingo, 22, com um pacote de promessas de investimentos bilionários e com a aposta de que a aproximação com o primeiro-ministro Narendra Modi ampliará o comércio de bens, serviços e investimentos entre os países.
A comitiva, que reuniu 11 ministros e mais de 300 empresários brasileiros, resultou na assinatura de 11 acordos governamentais e 10 instrumentos entre empresas em diversas áreas como minerais críticos, saúde e tecnologia.
Ao final da missão, Lula definiu a visita como “o marco de uma nova relação entre Brasil e Índia”, e vinculou o movimento à estratégia de reposicionar o Brasil no tabuleiro global.
A presidente da Índia, Draupadi Murmu, o presidente Lula e o primeiro-ministro, Narendra Modi
Novo fluxo comercial
O eixo econômico foi apresentado como o principal saldo concreto da viagem.
Em 2025, o comércio bilateral Brasil-Índia foi de US$ 15 bilhões, montante que ambos os governos reconheceram ser pouco e apontaram disposição para ampliar as exportações e importações. Em diversas ocasiões, Lula apontou que a meta de US$ 20 bilhões em comércio até 2030 deve chegar a US$ 30 bilhões.
O presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, apontou que o fórum do qual participaram mais de 800 empresários brasileiros e indianos foi o mais denso e com maior resultado dentre os 20 que a organização realizou desde 2023.
Lula se reuniu com 11 empresários, entre eles alguns gigantes da economia indiana no sábado, 21, como Jeet Adani, diretor do conglomerado do grupo Adani, Natarajan Chandrasekaran, presidente do conselho do Tata Group, Vinod Sahay, CEO do grupo Mahindra, e Satish Pai, do grupo Aditya Birla, além de representantes de empresas como Biocon, Sun Pharma, Tafe, Fomento, Inox e TCS.
Segundo membros do governo brasileiro, somadas, as companhias presentes à reunião têm valor de mercado superior a US$ 1 trilhão. Lula apontou que buscou dar aos executivos segurança de que "investir no Brasil é vantajoso”.
Entre os anúncios e compromissos citados durante a visita de Lula estão investimentos industriais no Brasil por conglomerados indianos, memorando da Embraer com a Adani para expansão produtiva, um projeto da Vale para um centro de mistura de minério de ferro.
O presidente da ApexBrasil, Jorge Viana, afirmou que a missão à Índia foi a mais robusta já organizada pela agência em termos de densidade empresarial e potencial de resultados.
Muitas das empresas com quem Lula se reuniu já têm operações no Brasil, e anunciaram ao presidente novos ciclos de investimento ou expansão de projetos existentes.
Entre os principais exemplos citados por Viana está um investimento de US$ 2,5 bilhões nos próximos três anos em um projeto de mineração no Rio Grande do Norte, associado à infraestrutura portuária.
Ele também mencionou que o grupo Tata, após adquirir globalmente a Iveco, deve ampliar investimentos na operação brasileira, além de um anúncio de R$ 5 bilhões do grupo Aditya Birla em Pindamonhangaba (SP), que já opera um dos maiores complexos de laminação e reciclagem de alumínio do mundo na região.
Questionado pela EXAME sobre a reunião, Lula afirmou se surpreender com o otimismo dos empresários indianos com o Brasil.
"Gostaria que muitos empresários brasileiros vissem o discurso dos empresários indianos sobre o Brasil, que possivelmente eles mudassem o comportamento deles também no Brasil. Posso lhe dizer que os empresários indianos são muito otimistas com relação aos seus investimentos no Brasil", disse o presidente do Brasil.
Sul global
A dimensão geopolítica esteve no centro dos discursos tanto de Lula quanto de Modi. Mauro Vieira, das Relações Exteriores, destacou a “ampla coincidência de posições” entre Brasil e Índia “em defesa do multilateralismo e da reforma da governança global”.
Lula foi mais explícito ao defender a articulação entre emergentes. “Se você permitir que o país pequeno negocie com um país maior, o acordo sempre será prejudicial ao país menor”, afirmou.
Questionado pela EXAME sobre o conteúdo da conversa privada com o primeiro-ministro Narendra Modi, Lula afirmou que evitou temas polêmicos e priorizou o que chamou de “confluência”.
"Eu não vim aqui para discutir a divergência, eu vim aqui para discutir a confluência entre Brasil e Índia", disse. "Não entrei nem em detalhe com ele sobre o acordo dele com os Estados Unidos. É um problema dele. É um problema dele assim como o acordo que nós fizemos é um problema meu."
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Ele classificou o diálogo como “extraordinário” e disse ter “muita afinidade” com Modi. A visita, apontou, permitiu criar laços de confiança entre ambas as nações. "Quando você tem confiança, facilita que as coisas aconteçam. Facilita a vida empresarial. Facilita os os acordos que nós fizemos. Facilita a gente discutir parcerias", disse.
O objetivo central, segundo o presidente, é transformar as duas economias em “países altamente desenvolvidos”, com cooperação em minerais críticos, tecnologia, saúde e inteligência artificial.
Entre empresários indianos e brasileiros ouvidos reservadamente pela EXAME, pairou um ar de desconfiança de que as economias, ambas protecionistas, não sejam complementares.
Mas houve um reconhecimento de que as maiores autoridades de ambas as nações se esforçaram significativamente para romper a inércia nas relações comerciais e geopolíticas.
O ministro de comércio da Índia, por exemplo, citou explicitamente a ampliação do acordo de preferência do país com o Mercosul como um movimento importante dentro da estratégia de acordos de livre comércio que o país asiático vem promovendo com diversos blocos, como União Europeia, e países como Canadá.
Crítica a big techs e encontros bilaterais
Antes de iniciar a visita de Estado oficialmente, Lula participou da Cúpula de Impacto da IA, também na capital indiana. Ao discursar, criticou as big techs e defendeu maior equilíbrio na governança de inteligência artificial.
Além disso, o presidente brasileiro teve diversos encontros com autoridades de governos e empresas. O presidente da França, Emmanuel Macron, por exemplo, pediu uma reunião para convidá-lo para ir ao G20, que acontecerá em junho do país europeu.
No encontro, eles também discutiram acordos de defesa e comércio, como a produção de helicópteros franceses no Brasil e o Programa Nacional de Submarinos (Prosubs), no qual Brasil e França colaboram desde 2008. Não falaram, porém, do acordo entre União Europeia e Mercosul, do qual a França é um dos maiores detratores, segundo EXAME apurou.
Lula também se reuniu com o primeiro-ministro da Croácia, Andrej Plenkovic, e o presidente do Sri Lanka, Anura Kumara Dissanayake.
No mesmo dia em que criticou o modelo de negócios das chamadas big techs, Lula se reuniu com o CEO do Google, Sundar Pichai. Na conversa, segundo postagem do presidente brasileiro, eles discutiram investimentos da companhia no Brasil e o projeto de regulação das redes sociais.
* O jornalista viajou a convite da ApexBrasil
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