Lula usa viagem à Europa para se posicionar como líder capaz de peitar Trump

Por Rafael Balago 23 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Lula usa viagem à Europa para se posicionar como líder capaz de peitar Trump

Hanover* - O presidente Lula passou cinco dias na Europa e visitou três países. Em todos, fez críticas diretas ao líder americano Donald Trump, em um movimento que parece buscar ganhos de imagem ao brasileiro, tanto dentro quanto fora do país.

Na Espanha, Lula participou de um fórum com outros presidentes de esquerda e criticou Trump por causar aumento de preços. "O Trump invade o Irã e aumenta o feijão no Brasil. Aumenta o milho no México. Aumenta a gasolina no outro país. Ou seja, é o pobre que vai pagar a irresponsabilidade de guerras que ninguém quer", afirmou, em discurso, no sábado, 18.

No dia seguinte, na Alemanha, mais críticas. “O Brasil é um dos países menos afetados pela maluquice da guerra feita com o Irã”, disse Lula, na cerimônia de abertura da feira Hannover Messe.

Em outro momento, sem citar Trump, Lula voltou a criticá-lo. "Nós não podemos permitir que o mundo circule ao comportamento de um presidente que acha que por e-mail ou por tweet, ele pode taxar produtos, pode punir países e pode fazer guerra", disse Lula, em outro momento do discurso.

Na segunda-feira, 20, o presidente também criticou o americano, por não convidar o líder da África do Sul, Cyril Ramaphosa, para o encontro do G20.

"Precisamos nos unir. Se Trump expulsa a África do Sul hoje, amanhã pode ser o Brasil, a Alemanha", afirmou, ao lado do chanceler alemão Friedrich Merz.

Crise por Ramagem

Ainda na Alemanha, estouraria outra crise: a expulsão dos EUA de um delegado da Polícia Federal brasileira que teria informado ao ICE, a polícia de imigração americana, que o ex-deputado Alexandre Ramagem estava no país em condição irregular. Ramagem foi condenado no Brasil por tentativa de golpe de Estado, e solto pelo governo Trump, que o considera um perseguido político.

"Não sei o que aconteceu. Fui informado hoje de manhã. Acho que se houve um abuso americano com relação ao nosso policial, nós vamos fazer a reciprocidade com o dele no Brasil", disse Lula, em conversa com jornalistas ao sair do hotel em Hanover, na terça-feira, 20, pela manhã.

"Não podemos aceitar essa ingerência e esse abuso de autoridade que algumas pessoas americanas querem ter com relação ao Brasil", prosseguiu.

Horas depois, já em Lisboa, mais uma citação. "O que a gente vê todo santo dia são declarações, que eu não sei se brincadeira ou não, o presidente Trump dizendo que já acabou com oito guerras e que ainda não ganhou o Prêmio Nobel da Paz. Então é importante que a gente dê logo o Prêmio Nobel para o presidente Trump para não ter mais guerra. Aí o mundo vai viver em paz", afirmou.

Cálculo eleitoral e tarifas

As críticas de Lula vêm em um momento em que o Brasil corre risco de ser alvo de novas tarifas por parte dos EUA. A investigação aberta por meio da Seção 301 está em fase final, e há a expectativa de que novas medidas possam ser anunciadas em abril ou maio.

Analistas apontam que o petista pode usar o confronto com Trump como vantagem eleitoral. Em 2025, em meio à crise do tarifaço, ele viu sua popularidade subir ao se colocar como um defensor do país frente a uma ameaça externa.

"Tal qual Lula usou o discurso da defesa da democracia em 2022, acredito que ele vá mobilizar parte do discurso da soberania nacional nessa eleição de 2026", diz Leandro Consentino, professor de ciência política no Insper.

Consentino avalia que o presidente também tentará colar em Flávio Bolsonaro (PL), seu principal rival na campanha até agora, a imagem de submissão aos EUA. Seu irmão, Eduardo Bolsonaro, se mudou para os Estados Unidos e articula de lá medidas contra o Brasil, para tentar beneficiar seu pai, o ex-presidente Jair Bolsonaro, preso por tentativa de golpe de Estado.

Ao mesmo tempo, Lula busca renovar sua imagem no cenário internacional ao confrontar Trump. O presidente americano fez inúmeras críticas à Europa desde o ano passado e tem se afastado dos líderes europeus. Na semana em que Lula chegou à Alemanha, o site Der Spiegel, um dos maiores do país, o retratou como a pessoa "que enfrentou o presidente dos EUA". Parece ser exatamente a imagem que o líder brasileiro quer passar.

*O repórter viajou a convite da Câmara Brasil-Alemanha de São Paulo.

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