Lululemon investe em startup que transforma roupas descartadas em matéria-prima

Por Marina Semensato 28 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Lululemon investe em startup que transforma roupas descartadas em matéria-prima

A Lululemon entrou como investidora em uma startup que tenta resolver um dos principais gargalos da indústria têxtil: o reaproveitamento de resíduos. A empresa apostou US$ 12 milhões na Epoch Biodesign, que criou um processo que consegue transformar tecidos descartados em matéria-prima. As informações foram divugadas pelo TechCrunch.

Em vez de depender do petróleo, base tradicional da produção de fibras sintéticas, a Epoch usa resíduos têxteis como ponto de partida. Ou seja: ela pega roupas descartadas e as converte novamente nos blocos químicos que dão origem a essas fibras.

"Para nós, um fardo de tecido equivale a um barril de petróleo", disse o fundador e CEO Jacob Nathan ao TechCrunch. A proposta chega em um momento sensível para a indústria, devido às tensões no Oriente Médio e o risco de restrições no Estreito de Ormuz, que já reverberam em previsões de aumento nos custos de insumos ligados ao petróleo — base das fibras sintéticas que formam as roupas esportivas.

Como funciona?

O processo criado pela Epoch se baseia em enzimas, proteínas que aceleram reações químicas. Em vez de usar microrganismos inteiros, a empresa trabalha apenas com essas enzimas isoladas, o que torna o processo mais fácil de controlar.

Essas enzimas quebram plásticos pré e pós-consumo em monômeros, as unidades básicas usadas para fabricar novos materiais. Segundo a empresa, é possível recuperar mais de 90% desses componentes, com o restante concentrado principalmente em corantes, que são tratados separadamente.

O foco inicial está no náilon 6,6, um dos materiais sintéticos mais utilizados no mundo. Ele aparece no vestuário mas também em itens industriais, como airbags e cordas. Apesar de antigo, o material ainda não tem um potencial substituto em muitas aplicações.

Por que isso importa agora?

O timing da tecnologia ajuda a explicar o interesse de empresas como a Lululemon. Nas últimas semanas, os preços de insumos ligados ao náilon dispararam em até 150% no mercado à vista, segundo Nathan.

Parte dessa pressão vem do fechamento do Estreito de Ormuz, rota estratégica que concentra cerca de 20% do petróleo global, com a guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã. Esse tipo de instabilidade tende a encarecer toda a cadeia de derivados, e entre eles estão as fibras sintéticas usadas nas roupas, especialmente as esportivas.

Ao usar resíduos como matéria-prima, a Epoch tenta reduzir essa dependência e dar um respiro à indústria. "Quando separamos a produção de materiais da volatilidade do carbono fóssil, conseguimos muito mais consistência", afirmou Nathan.

Além do preço

De certa forma, o tema já era relevante antes mesmo do início da guerra. Há tempos a indústria tem procurado alternativas mais sustentáveis que as fibras sintéticas, desafio que a Epoch tenta enfrentar em duas pontas: tanto na extração da matéria-prima quanto no destino das roupas descartadas.

Segundo a matéria do TechCrunch, o investimento inicial da Lululemon será direcionado a uma unidade piloto, perto do Imperial College London. A expectativa é avançar para uma unidade comercial até 2028, com capacidade de produzir cerca de 20 mil toneladas de monômeros por ano.

Se conseguir escalar, a tecnologia pode ir além do náilon e da indústria da moda, já que a própria empresa afirma que o processo pode ser adaptado para outros tipos de plástico. "O nylon 6,6 atingirá a maturidade antes dos outros, mas temos algumas novidades interessantes em desenvolvimento", concluiu Nathan.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: