Mãe transforma dificuldade de vacinar a filha em rede que fatura R$ 110 milhões

Por Bianca Camatta 10 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Mãe transforma dificuldade de vacinar a filha em rede que fatura R$ 110 milhões

Quando a filha de Rosane Orth Argenta completava seus primeiros anos de vida, a família começou uma busca por vacinas complementares às oferecidas pela rede pública. A oferta de locais que vendiam essas doses, no entanto, era escassa, pelo menos na cidade da família: Lucas do Rio Verde, no Mato Grosso.

Para resolver o seu problema e o de outras mães, Rosane criou, em 2012, ao lado do marido, Fábio Argenta, uma clínica que oferece vacinas complementares para todas as idades, como dengue, gripe e pneumonia.

“Quando fomos estudar os números de cobertura vacinal no Brasil, vimos que podíamos fazer uma diferença estatisticamente significativa na saúde da população”, afirma Rosane. “Traçamos o objetivo de imunizar 1% da população brasileira.”

Cinco anos depois, a ideia virou franquia e hoje a Saúde Livre Vacinas soma 205 unidades, entre em funcionamento e em implementação.

A rede faturou R$ 110 milhões em 2025, com a meta de chegar a R$ 172 milhões neste ano, com expansão em cidades do interior e foco no atendimento domiciliar.

Quem é a empreendedora

Rosane é dentista de formação e trabalhou como professora universitária antes de se mudar para o Mato Grosso, em 2003, com o marido, o cardiologista Fábio Argenta. O casal abriu uma clínica médica em Lucas do Rio Verde.

Quando a primeira filha nasceu, em 2008, havia apenas uma pediatra na cidade oferecendo vacinas complementares ao SUS. Quatro anos depois, quando o segundo filho nasceu, o serviço já não existia mais.

Rosane precisou viajar para outra cidade para vacinar o bebê. A experiência virou o ponto de partida do negócio.

Rosane Orth Argenta e os filhos, Pietro e Ana Laura (Divulgação)

“Eu falei para o meu marido: será que não dá para montar uma sala de vacinação aqui dentro da clínica?”, lembra.

Como a Saúde Livre Vacinas foi criada

A primeira unidade começou dentro da clínica do casal, com foco em testar a demanda. Segundo Rosane, o crescimento inicial foi orgânico, impulsionado pelo boca a boca e pelos próprios pacientes da clínica.

“A cidade tinha cerca de 50 mil habitantes. A divulgação era por rádio, Facebook e, principalmente, indicação”, afirma.

O avanço da empresa aconteceu em sequência, com convites vindos de clínicas pediátricas de cidades vizinhas.

Depois de três anos, a empresa somava cinco unidades. Rosane e o marido buscaram desenvolver uma gestão mais profissional para sustentar o crescimento do negócio. O casal passou a participar de cursos na área até conhecer especialistas em franchising, que identificaram potencial para transformar a operação em uma rede de franquias.

“Um consultor olhou para as cinco clínicas padronizadas e falou: ‘vocês já têm um modelo de franquia’”, diz a empreendedora.

A ideia foi oficializada em 2017, com a abertura da primeira unidade franqueada.

A expansão trouxe desafios. Em 2018, a empresa precisou mudar de nome porque não conseguia registrar a marca anterior.

A operação refez fachadas, materiais de divulgação, redes sociais e campanhas de marketing para apresentar a nova marca ao público. Uma das ações incluiu uma parceria com a atriz Letícia Spiller durante a divulgação do filme “Eu Sou Brasileiro”, apoiado pela empresa naquele período.

“Foi um transtorno mudar fachada, papelaria e explicar a mudança para os clientes, mas depois que a marca ficou registrada parecia que o negócio destravou”, afirma Rosane. “A empresa ganhou mais segurança para crescer.”

Em 2018, a rede somava 15 unidades e foi o momento de revisitar os modelos de negócio.

Até então, a Saúde Livre operava com clínicas de rua e salas de vacinação instaladas dentro de outras clínicas médicas. Naquele período, a empresa também passou a testar unidades em shopping centers, apostando na conveniência e no fluxo de clientes.

O modelo funcionou nos primeiros anos, mas perdeu força após a pandemia, quando o atendimento domiciliar ganhou espaço. Hoje, a rede mantém os formatos de rua e clínicas parceiras como prioridade, enquanto o modelo de shopping deixou de ser foco da expansão.

Além de mudar o comportamento dos clientes, a pandemia também foi um momento de expansão para a rede, que chegou a 25 unidades em 2020.

“A pandemia colocou luz sobre o mercado de vacinação e muita gente passou a olhar para o setor como se fosse um negócio simples ou extremamente lucrativo. Mas não é assim, é uma empresa como qualquer outra, com desafios operacionais e de gestão”, diz.

Plano de expansão

Hoje, são 205 unidades, com meta de chegar a 250 até o final de 2026, entre unidades ativas e em implementação.

Para abrir uma unidade da Saúde Livre Vacinas, os investimentos começam em R$ 213 mil, com prazo de retorno de 18 a 24 meses.

O foco da expansão está direcionado para cidades do interior, onde a empresa ainda vê baixa oferta de clínicas especializadas em vacinação. A rede também pretende ampliar a presença por meio de empreendedores que já atuam no setor e buscam entrar em uma operação maior, da mesma forma que o casal começou o negócio.

Outro eixo da estratégia é a aposta no atendimento domiciliar, que ganhou força durante a pandemia e permanece relevante entre os clientes da rede. Segundo a empresa, o modelo ajudou a reduzir a dependência de unidades instaladas em shopping centers, formato que deixou de ser prioridade.

“Muitos clientes vão até a clínica para contratar o plano vacinal e depois pedem que as próximas aplicações sejam feitas em casa”, afirma Rosane.

Uma empresa que virou negócio de família

Rosane conta que, no início da trajetória como empreendedora e mãe, havia um peso constante de culpa pela rotina dividida entre a gestão da empresa e a presença em casa.

“Quando os meus filhos nasceram, eu me cobrava muito e achava que era uma mãe ausente por estar trabalhando. Depois vi que eles queriam me imitar, tinham orgulho do que eu fazia e que aquilo também fazia parte da formação deles”, afirma Rosane.

Com o tempo, esse espelhamento virou decisão de negócio. Foram os filhos que ajudaram a escolher o mascote da marca – o cachorro.

Hoje, a filha mais velha, Ana, também trabalha diretamente em uma das clínicas. Segundo a mãe, a ideia surgiu da própria filha, com o objetivo de entender na prática o negócio da família – desde o atendimento ao cliente até a gestão de equipe e situações de conflito.

“Ela me surpreendeu no envolvimento, no querer realmente participar do negócio e trouxe ideias. Aquela coisa: você está todo dia no negócio e tem coisas que estão na sua frente e você não enxerga”, afirma Rosane.

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