Mãe, veterana, dona do próprio tempo: na volta de Serena a Wimbledon, o troféu é o que menos importa
Na próxima terça-feira (30), Serena Williams volta a Wimbledon, torneio que venceu sete vezes.
Convidada pela organização para a chave de simples (a modalidade individual, não as duplas), ela retorna depois de uma última partida simples no US Open de 2022, quatro anos atrás, e de quase uma década sem um título de Grand Slam.
Do outro lado da rede estará a australiana Maya Joint, 53ª do mundo. A adversária tem 20 anos. Quando Serena ergueu seu primeiro troféu em Wimbledon, em 2003, Joint ainda não tinha nascido.
No papel, é apenas mais um jogo de primeira rodada. Na prática, é um dos maiores acontecimentos do campeonato.
Desde o anúncio de sua participação, há cerca de uma semana, a pergunta principal que paira não é se ela pode vencer, e sim por que voltou.
Dona de 23 títulos de simples em Grand Slams e da maior fortuna já acumulada por uma atleta mulher, Williams não tem exatamente o que buscar no quadro de honra nem no extrato bancário. Porém, o que a motiva está em outro lugar.
A despedida que ela mesma desmentiu
Em 2022, num ensaio para a Vogue, Williams contou que se afastaria das quadras para cuidar da família. Escolheu as palavras com cuidado. Não falou em parar, e sim em "evoluir para longe do tênis".
Meses depois, após completar 41 anos e jogar três partidas no US Open que todos tomaram por adeus, ela reafirmou o afastamento temporário. Garantiu que não estava aposentada, avisou que as chances de um regresso eram altas e lembrou, em tom de provocação, que seguiria treinando na quadra de casa.
A promessa de voltar levou quase quatro anos para se cumprir. A reaparição se anunciou aos poucos, com a tenista de volta primeiro às duplas no circuito WTA (Women's Tennis Association), neste mês de junho, em competições em Londres e Berlim - o que foi interpretado como uma forma de recuperar ritmo de jogo antes do compromisso maior.
Vale lembrar que, antes disso, uma tentativa de recomeço aconteceu em 2018. Após a chegada da primeira filha, Williams voltou às quadras e alcançou quatro finais de Grand Slam, duas em Wimbledon e duas no US Open, perdendo todas.
Agora em Wimbledon, ela disputará também as duplas ao lado de Venus, a irmã mais velha, de 46 anos.
"Volte, mamãe"
Ao longo da preparação para Wimbledon, a americana apareceu sempre acompanhada das filhas, Olympia, de oito anos, e Adira, de dois. Uma rotina que não surpreende quem acompanha sua trajetória, pois a vida em quadra jamais caminhou separada da maternidade.
Grávida de Olympia, Williams venceu o Aberto da Austrália de 2017, seu último título de Grand Slam, e teve a caçula em 2023, pouco depois de anunciar a saída do circuito.
Foi a filha mais velha, segundo a própria tenista, quem sugeriu que ela voltasse a formar dupla com Venus. E são as meninas que explicam o humor leve com que a atleta trata a volta.
Mais de uma vez, Williams brincou que as férias escolares eram a ocasião perfeita para o retorno e, nas redes sociais, contou que vinha de uma acirrada rodada de "duck duck goose" (brincadeira de roda que joga com as filhas) logo depois de o convite para o individual ser confirmado.
O corpo, antes alvo, agora aliado
No tênis, e em especial no circuito feminino, a aposentadoria costuma chegar cedo. Entre as cem melhores, a média histórica fica em torno dos 26 anos, puxada para baixo pelo auge precoce das carreiras e pelas pausas para a maternidade.
Aos 44, Serena Williams compete quase duas décadas além desse ponto, ainda que não esteja sozinha entre os atletas que esticam a carreira. Na Copa do Mundo, Cristiano Ronaldo, de 41 anos, é o jogador de linha mais velho do Mundial, e Lionel Messi, de 39, acaba de bater o recorde de gols da Copa.
Mais do que o talento, que nunca esteve em dúvida, o que os une é o momento em que competem. Uma geração atrás, uma jogadora na idade da tenista americana dificilmente ainda estaria em quadra. Nos últimos anos, porém, a ciência deixou de ser coadjuvante e passou a trabalhar a favor do corpo do atleta.
O que mudou, dizem os preparadores, não foi a biologia humana, e sim a precisão com que ela passou a ser acompanhada: do sono ao esforço de cada treino, tudo é medido para adiar a fadiga e poupar as articulações. Recorrer a esse arsenal, contudo, teve algum custo de imagem para Williams.
No processo de recuperar a forma após a segunda gravidez, ela chegou a usar e a promover um medicamento da classe GLP-1, criado para o diabetes e hoje popular como emagrecedor por reduzir o apetite. Estrelou até um anúncio no Super Bowl e disse ter perdido cerca de 14 quilos.
As críticas que se seguiram reativaram uma cobrança antiga. O corpo de Serena sempre foi objeto de escrutínio público, peso que recai mais sobre mulheres, e ainda mais sobre uma atleta negra em um esporte historicamente branco.
Ao longo da carreira, ouviu que "parecia um homem", enfrentou insinuações de doping e viu as vitórias creditadas à força, desmerecendo seu talento. Em 2001, ela e Venus foram hostilizadas pela plateia em Indian Wells e chegaram a boicotar o torneio por 14 anos.
O histórico de lesões também pesa na conta. Ao longo da carreira, conviveu com problemas no joelho, no tendão de aquiles e no tornozelo, e abandonou o US Open de 2021 por uma contusão na coxa. Não por acaso, resumiu a preparação atual como "andar de bicicleta, ladeira acima".
Sobra o que nenhum aparelho mede e três décadas de quadra ajudaram a construir. Para especialistas em psicologia esportiva, a experiência se traduz em melhor leitura de jogo e mais controle emocional sob pressão, vantagem que costuma faltar a quem ainda está começando.
E no caso de Williams, resulta também em alguém mais à vontade e confiante com a própria imagem do que a jovem que, cedo, precisou aprender a ignorar os ruídos que insistiam em diminuí-la por seu corpo e sua cor.
Da estreia tranquila às campeãs
O sorteio que definiu sua largada em Wimbledon, dizem, foi generoso. A estreia contra Maya Joint tende a ser tranquila. Mas a partir daí não há trégua.
As próximas adversárias já na segunda rodada podem ser a jovem Alexandra Eala, de 20 anos, maior tenista da história das Filipinas e a primeira do país no top 30. E, mais adiante, a atual campeã, Iga Swiatek, número 3 do mundo.
A essa altura, porém, quem está do outro lado da rede importa menos do que o gesto de cruzar de novo a entrada da quadra.
Aos 44 anos e com 23 Grand Slams na bagagem, Serena Williams não volta atrás de mais um troféu. Volta por escolha, pela liberdade de seguir em quadra enquanto quiser, e de decidir sozinha quando e como será a hora de parar.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: