Mãe, veterana, dona do próprio tempo: na volta de Serena a Wimbledon, o troféu é o que menos importa

Por Lia Rizzo 27 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Mãe, veterana, dona do próprio tempo: na volta de Serena a Wimbledon, o troféu é o que menos importa

Na próxima terça-feira (30), Serena Williams volta a Wimbledon, torneio que venceu sete vezes.

Convidada pela organização para a chave de simples (a modalidade individual, não as duplas), ela retorna depois de uma última partida simples no US Open de 2022, quatro anos atrás, e de quase uma década sem um título de Grand Slam.

Do outro lado da rede estará a australiana Maya Joint, 53ª do mundo. A adversária tem 20 anos. Quando Serena ergueu seu primeiro troféu em Wimbledon, em 2003, Joint ainda não tinha nascido.

No papel, é apenas mais um jogo de primeira rodada. Na prática, é um dos maiores acontecimentos do campeonato.

Desde o anúncio de sua participação, há cerca de uma semana, a pergunta principal que paira não é se ela pode vencer, e sim por que voltou.

Dona de 23 títulos de simples em Grand Slams e da maior fortuna já acumulada por uma atleta mulher, Williams não tem exatamente o que buscar no quadro de honra nem no extrato bancário. Porém, o que a motiva está em outro lugar.

A despedida que ela mesma desmentiu

Em 2022, num ensaio para a Vogue, Williams contou que se afastaria das quadras para cuidar da família. Escolheu as palavras com cuidado. Não falou em parar, e sim em "evoluir para longe do tênis".

Meses depois, após completar 41 anos e jogar três partidas no US Open que todos tomaram por adeus, ela reafirmou o afastamento temporário. Garantiu que não estava aposentada, avisou que as chances de um regresso eram altas e lembrou, em tom de provocação, que seguiria treinando na quadra de casa.

A promessa de voltar levou quase quatro anos para se cumprir. A reaparição se anunciou aos poucos, com a tenista de volta primeiro às duplas no circuito WTA (Women's Tennis Association), neste mês de junho, em competições em Londres e Berlim - o que foi interpretado como uma forma de recuperar ritmo de jogo antes do compromisso maior.

Vale lembrar que, antes disso, uma tentativa de recomeço aconteceu em 2018. Após a chegada da primeira filha, Williams voltou às quadras e alcançou quatro finais de Grand Slam, duas em Wimbledon e duas no US Open, perdendo todas.

Agora em Wimbledon, ela disputará também as duplas ao lado de Venus, a irmã mais velha, de 46 anos.

"Volte, mamãe"

Ao longo da preparação para Wimbledon, a americana apareceu sempre acompanhada das filhas, Olympia, de oito anos, e Adira, de dois. Uma rotina que não surpreende quem acompanha sua trajetória, pois a vida em quadra jamais caminhou separada da maternidade.

Grávida de Olympia, Williams venceu o Aberto da Austrália de 2017, seu último título de Grand Slam, e teve a caçula em 2023, pouco depois de anunciar a saída do circuito.

Foi a filha mais velha, segundo a própria tenista, quem sugeriu que ela voltasse a formar dupla com Venus. E são as meninas que explicam o humor leve com que a atleta trata a volta.

Mais de uma vez, Williams brincou que as férias escolares eram a ocasião perfeita para o retorno e, nas redes sociais, contou que vinha de uma acirrada rodada de "duck duck goose" (brincadeira de roda que joga com as filhas) logo depois de o convite para o individual ser confirmado.

O corpo, antes alvo, agora aliado

No tênis, e em especial no circuito feminino, a aposentadoria costuma chegar cedo. Entre as cem melhores, a média histórica fica em torno dos 26 anos, puxada para baixo pelo auge precoce das carreiras e pelas pausas para a maternidade.

Aos 44, Serena Williams compete quase duas décadas além desse ponto, ainda que não esteja sozinha entre os atletas que esticam a carreira. Na Copa do Mundo, Cristiano Ronaldo, de 41 anos, é o jogador de linha mais velho do Mundial, e Lionel Messi, de 39, acaba de bater o recorde de gols da Copa.

Mais do que o talento, que nunca esteve em dúvida, o que os une é o momento em que competem. Uma geração atrás, uma jogadora na idade da tenista americana dificilmente ainda estaria em quadra. Nos últimos anos, porém, a ciência deixou de ser coadjuvante e passou a trabalhar a favor do corpo do atleta.

O que mudou, dizem os preparadores, não foi a biologia humana, e sim a precisão com que ela passou a ser acompanhada: do sono ao esforço de cada treino, tudo é medido para adiar a fadiga e poupar as articulações. Recorrer a esse arsenal, contudo, teve algum custo de imagem para Williams.

No processo de recuperar a forma após a segunda gravidez, ela chegou a usar e a promover um medicamento da classe GLP-1, criado para o diabetes e hoje popular como emagrecedor por reduzir o apetite.  Estrelou até um anúncio no Super Bowl e disse ter perdido cerca de 14 quilos.

As críticas que se seguiram reativaram uma cobrança antiga. O corpo de Serena sempre foi objeto de escrutínio público, peso que recai mais sobre mulheres, e ainda mais sobre uma atleta negra em um esporte historicamente branco.

Ao longo da carreira, ouviu que "parecia um homem", enfrentou insinuações de doping e viu as vitórias creditadas à força, desmerecendo seu talento. Em 2001, ela e Venus foram hostilizadas pela plateia em Indian Wells e chegaram a boicotar o torneio por 14 anos.

O histórico de lesões também pesa na conta. Ao longo da carreira, conviveu com problemas no joelho, no tendão de aquiles e no tornozelo, e abandonou o US Open de 2021 por uma contusão na coxa. Não por acaso, resumiu a preparação atual como "andar de bicicleta, ladeira acima".

Sobra o que nenhum aparelho mede e três décadas de quadra ajudaram a construir. Para especialistas em psicologia esportiva, a experiência se traduz em melhor leitura de jogo e mais controle emocional sob pressão, vantagem que costuma faltar a quem ainda está começando.

E no caso de Williams, resulta também em alguém mais à vontade e confiante com a própria imagem do que a jovem que, cedo, precisou aprender a ignorar os ruídos que insistiam em diminuí-la por seu corpo e sua cor.

Da estreia tranquila às campeãs

O sorteio que definiu sua largada em Wimbledon, dizem, foi generoso. A estreia contra Maya Joint tende a ser tranquila. Mas a partir daí não há trégua.

As próximas adversárias já na segunda rodada podem ser a jovem Alexandra Eala, de 20 anos, maior tenista da história das Filipinas e a primeira do país no top 30. E, mais adiante, a atual campeã, Iga Swiatek, número 3 do mundo.

A essa altura, porém, quem está do outro lado da rede importa menos do que o gesto de cruzar de novo a entrada da quadra.

Aos 44 anos e com 23 Grand Slams na bagagem, Serena Williams não volta atrás de mais um troféu. Volta por escolha, pela liberdade de seguir em quadra enquanto quiser, e de decidir sozinha quando e como será a hora de parar.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: