Mais de 36 milhões de brasileiros correm riscos de saúde por cozinhar com lenha
Doenças cardíacas, câncer de pulmão, acidente vascular cerebral e pneumonia são alguns dos riscos a que estão sujeitos os 36 milhões de brasileiros nos 11,8 milhões de domicílios que ainda cozinham com lenha, de acordo com estudo recente da Empresa de Pesquisa Energética (EPE).
Segundo a Agência Internacional de Energia (AIE), 2 bilhões de pessoas no mundo estão sem acesso ao cozimento limpo, o que contribui para 3,7 milhões de mortes prematuras causadas pela poluição do ar nas residências. Por meio do Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) 7, os países-membros das Nações Unidas se comprometem a assegurar acesso universal, confiável, moderno e a preços acessíveis a serviços de energia até 2030, e o cozimento limpo é uma condição central desse ODS.
Mescla-se à questão da saúde a preocupação com o gênero e a infância, visto que muitas famílias alocam a responsabilidade de cozinhar às mulheres, enquanto as crianças estão presentes durante a realização desta atividade doméstica. Assim, ambos são mais expostos aos poluentes gerados.
Embora o Brasil tenha avançado na adoção de fontes mais limpas de cocção, como o gás de cozinha (GLP) e a eletricidade, a lenha ainda vigora em áreas rurais e de baixa renda, além, do carvão mineral e do querosene. O gráfico a seguir revela a “desigualdade energética”, mostrando que as classes de menor renda adotam proporcionalmente mais lenha e carvão vegetal.
Figura 1 - Consumo Total de Energia por Fontes e Classes de Renda no Brasil em 2019 (em 103 tep). Fonte: EPE
Segundo a EPE, a cocção representa 52% da demanda de energia do setor residencial brasileiro, sendo metade desse valor atendido com lenha. Por essa razão, em 2023, a AIE apontou um elevado consumo de energia per capita do setor residencial para cozimento no Brasil. Mesmo quando existe o acesso a fontes mais modernas, muitas vezes as famílias preferem tecnologias mais baratas (porém ineficientes e danosas à saúde), estimuladas por aspectos culturais e a busca por um alívio no orçamento.
O estudo da EPE também detalha as políticas existentes para frear a adoção dos combustíveis poluentes. São exemplos o Programa Auxílio Gás dos Brasileiros (“Auxílio gás”), surgido como uma transferência de renda durante a pandemia de Covid-19, e o recente Programa Gás do Povo, que substituirá o primeiro, ampliando o seu alcance e alterando a modalidade de oferta para um “vale-gás”, isto é, a gratuidade do acesso.
Inciativas para a expansão do cozimento com eletricidade, porém, não estão na pauta do governo federal, o que reduz o alcance da redução das emissões associadas. A PSR sustenta que substituir o Vale-Gás por subsídio à eletrificação (fornecendo equipamentos como air fryer e forno micro-ondas) pode ser uma estratégia mais econômica (redução de até R$ 2,4 bilhões por ano) e mais sustentável (até 90% de redução de emissões de CO2).
Modernizar o cozimento é um passo fundamental para combater a pobreza energética em seu caráter multidimensional. Apesar dos recentes avanços, ainda há espaço para o Brasil tratar deste problema energético e de suas várias implicações.
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