Marrocos, rival do Brasil na Copa, tem usina solar gigante no deserto; conheça
Neste sábado, 13 de junho, o Marrocos entra em campo às 19h para enfrentar o Brasil na Copa do Mundo de 2026. O país, que nunca ganhou um campeonato mundial, enfrenta o pentacampeão e líder em vitórias.
No entanto, esse não é nem de perto o maior desafio da nação africana: o trabalho em energia passa por transformar um dos megaprojetos solares mais ambiciosos do mundo em benefício real para a população que vive ao redor dele.
A cerca de 200 quilômetros ao sudeste de Marrakesh, na borda do Saara, fica Ouarzazate — conhecida como a porta do deserto e cenário de produções como Gladiador e Game of Thrones.
Nos arredores da cidade, num planalto cercado pelas Montanhas do Atlas, está instalado o complexo Noor, uma das maiores usinas de energia solar do mundo, com capacidade de 580 MW e área de quase 500 hectares.
A usina não funciona com os painéis fotovoltaicos convencionais. O complexo usa energia solar concentrada: cerca de 2 milhões de espelhos refletem a luz do sol para um receptor no topo de uma torre de 247 metros, aquecendo sal fundido a 600°C para gerar vapor e movimentar turbinas. O sistema de armazenamento térmico permite continuar produzindo eletricidade horas depois do pôr do sol. No total, o complexo — construído entre 2016 e 2018 a um custo de cerca de US$ 9 bilhões — tem capacidade para abastecer 1 milhão de residências.
Vitrine e contradição
O Noor virou símbolo da aposta marroquina em renováveis e da capacidade técnica do país de executar projetos de grande escala com apoio de bancos de desenvolvimento e financiamento climático internacional. O Marrocos tem metas ambiciosas: suprir 52% da eletricidade com fontes renováveis até 2030 e chegar a 70% até 2050. O país também se comprometeu a eliminar totalmente a geração a carvão até 2040.
Mas os números atuais mostram a distância entre a ambição e a realidade. Apesar de ter capacidade instalada renovável suficiente para gerar 46% da eletricidade, em 2023 o Marrocos alcançou pouco mais da metade disso na prática. Os combustíveis fósseis ainda respondem por cerca de 80% da geração elétrica, e o país importa aproximadamente 90% do carvão, petróleo e gás que consome. A eletricidade gerada por fósseis responde, sozinha, por cerca de 48% das emissões de gases de efeito estufa relacionadas à energia do país, segundo Intissar Fakir, analista do programa Norte da África e Sahel do Instituto do Oriente Médio, em Washington.
O gargalo não é só de geração. A infraestrutura de rede elétrica ainda limita a integração das renováveis ao consumo diário. Sem investimentos em transmissão e armazenamento, a capacidade instalada não se converte em eletricidade disponível para as casas e empresas.
O custo para quem mora ao redor
Em Ouarzazate, a eletricidade continua cara. A maioria das famílias usa gás butano, não energia solar. Os marroquinos gastam em média cerca de US$ 110 por mês com eletricidade, numa renda média mensal de US$ 550 — uma proporção elevada, especialmente num país quente onde ar-condicionado e ventiladores são necessidade básica. No verão, as temperaturas em Ouarzazate frequentemente passam de 40°C, e o número de dias e noites quentes praticamente dobrou na região desde os anos 1970.
O complexo Noor também gerou críticas locais. Uma grande área de terras de pastagem foi apropriada de agricultores com pouca consulta prévia. Moradores relatam que os espelhos e a luz concentrada elevaram as temperaturas nas aldeias vizinhas. E a usina consome água suficiente para encher 1.200 piscinas olímpicas — só para limpar os espelhos e remover a areia e a poeira que prejudicam a reflexão da luz. Num país árido, esse dado pesa.
Pesquisadores e organizações da sociedade civil questionam se o foco em megaprojetos é o caminho mais eficiente, em vez de sistemas descentralizados e de menor escala, como painéis fotovoltaicos em telhados de residências, empresas e fazendas.
O Marrocos avançou mais em renováveis do que a maioria dos países do Norte da África. Tem sol abundante, ventos costeiros e uma estratégia declarada de se tornar exportador de energia limpa para a Europa. Mas transformar potencial geográfico e projetos emblemáticos em transição real — acessível, integrada à rede e com benefícios para a população local — ainda é o jogo mais difícil que o país enfrenta.
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