Mercado Livre entra em farmácias com impacto limitado, dizem bancos

Por Clara Assunção 1 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Mercado Livre entra em farmácias com impacto limitado, dizem bancos

A entrada do Mercado Livre no varejo farmacêutico brasileiro é vista por grandes bancos com cautela no curto prazo, mas com potencial estratégico mais relevante no médio e longo prazo. É o que apontam Santander e Itaú BBA em relatórios divulgados nesta quarta-feira, 1°.

Os dois convergem na avaliação de que o impacto inicial tende a ser limitado, tanto para a própria companhia, quanto para as redes de farmácias, dado o caráter ainda incipiente da operação.

Esse entendimento vem após o lançamento, nesta terça-feira, 31, de um projeto-piloto de venda de medicamentos em São Paulo. A iniciativa marca a entrada formal da empresa no setor farmacêutico no Brasil, após a aquisição da Farmácia Cuidamos, e começa de forma restrita.

Nesse primeiro momento, o braço farmacêutico do gigante marketplace atende apenas alguns bairros da capital, como Vila Mariana, Paraíso e Itaim, com foco em medicamentos sem prescrição, como analgésicos, antitérmicos e vitaminas.

Os pedidos são feitos dentro da própria plataforma, com promessa de entrega em até três horas, embora, segundo o Santander, uma checagem inicial tenha identificado prazos de entrega mais longos. "Nossa análise rápida da plataforma mostrou apenas entrega no dia seguinte", afirmou o banco.

A operação começa no modelo de estoque próprio, o 1P, mas a ambição da empresa é evoluir para um marketplace, conectando farmácias de diferentes portes aos consumidores, sujeito à aprovação regulatória.

Para os analistas Lucas Esteves, Eric Huang e Vitor Fuziharo, do Santander, o momento ainda não configura uma ruptura relevante no setor. "Vemos risco limitado no curto prazo para os varejistas de medicamentos sob nossa cobertura, especialmente considerando que o programa ainda está em fase inicial", afirma o banco.

Ainda assim, o banco aponta um potencial de transformação mais à frente, principalmente se houver avanço regulatório.

"Caso as vendas de medicamentos 3P, [em que vendedores independentes utilizam a plataforma] em marketplaces sejam aprovadas, a Meli poderia se tornar um canal adicional para os varejistas de medicamentos venderem seus produtos", dizem no relatório.

Do lado da empresa, o impacto do Mercado Livre no setor de farmácia também tende a ser gradual. "Não prevemos implicações significativas no curto prazo, seja no crescimento da receita ou na lucratividade". Mas os analistas destacam que, no longo prazo, a iniciativa pode abrir "uma nova via de crescimento do GMV", em referência ao volume bruto de mercadoria.

Fidelização dos clientes no radar

O Itaú BBA segue linha semelhante ao tratar o lançamento como um movimento mais estratégico do que financeiro neste estágio inicial.

Para o banco, o principal valor da entrada no setor farmacêutico não está no volume de vendas em si, mas no comportamento do consumidor. "A recorrência é o objetivo, não apenas a magnitude do GMV", afirma a equipe de consumo do banco liderada por Rodrigo Gastim.

A análise destaca que produtos de saúde, especialmente os de venda livre, têm alta frequência de compra, o que pode aumentar o engajamento dos usuários na plataforma. "O verdadeiro valor está na fidelização à plataforma e nas vendas cruzadas, não na escala da categoria", diz o relatório, citando o potencial de integração com serviços como o Mercado Pago.

Em termos de tamanho de mercado, o Itaú BBA projeta que o setor farmacêutico pode representar cerca de 6,5% do GMV do Mercado Livre no Brasil até 2030, um número considerado relevante pela instituição, mas longe de ser transformacional. "O setor farmacêutico representaria cerca de 6,5% do GMV do Brasil em 2030, o que é notável, mas não transformador para a receita da Meli", afirma.

A entrada do Mercado Livre no setor, contudo, é apontada como "um desenvolvimento estrutural inequivocamente negativo para as redes de farmácias estabelecidas".

"A pressão sobre os preços é o principal canal de transmissão, mas o impacto não é binário. A conveniência continua sendo um fator crítico de compra no setor farmacêutico (por exemplo, mais de 70% das vendas da RD são do tipo “clique e retire”, e a maioria dos consumidores brasileiros de maior poder aquisitivo mora a menos de cinco minutos de uma unidade da RD)", afirma o Itaú BBA.

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