Muito além do amistoso: como o Road to 26 virou peça da preparação para a Copa de 2026

Por Gabriella Brizotti 28 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Muito além do amistoso: como o Road to 26 virou peça da preparação para a Copa de 2026

Nascido como uma evolução da antiga Florida Cup, o Road to 26 quer ocupar um espaço diferente no calendário do futebol internacional: não mais o da pré-temporada de clubes, mas o da preparação das seleções para a Copa do Mundo de 2026.

A empresa, responsável por amistosos como Brasil x Egito, marcado para 6 de junho, em Cleveland, passou a ocupar um espaço estratégico na preparação para a Copa do Mundo.

Segundo Ricardo Villar, executivo responsável pelo projeto, a ideia surgiu a partir da transformação da FC Series, sucessora da Florida Cup. Depois de anos trabalhando com clubes europeus e brasileiros nos Estados Unidos, a organização enxergou uma oportunidade em um ciclo dominado por seleções.

“O Road to 26 é, na verdade, a FC Series migrada para trabalhar com federações, com seleções, e não mais com clubes”, explica em entrevista exclusiva para a EXAME.

O conceito, segundo ele, pode inclusive sobreviver ao Mundial. Em futuras grandes competições, o formato poderia ganhar novas versões, como um eventual “Road to 28”, durante a Copa América, que tem os Estados Unidos como favoritos para receber o torneio.

Mais do que apenas organizar amistosos, o objetivo é funcionar como uma plataforma de preparação para seleções que entram na reta final rumo ao principal torneio do futebol mundial.

Road to 26 tenta antecipar a experiência da Copa nos Estados Unidos

Embora não tenha ligação direta com a Fifa na organização dos jogos, o Road to 26 acabou se tornando, na prática, um termômetro importante para o ambiente que os Estados Unidos encontrarão durante a Copa.

Na janela de março, os amistosos organizados pela empresa reuniram mais de 200 mil torcedores em quatro partidas disputadas em Boston, Orlando e Washington. Nas redes sociais, o alcance passou de 420 milhões de visualizações nas plataformas próprias do projeto, enquanto as transmissões ganharam espaço em canais como ESPN.

Parte desse movimento acontece justamente em estádios que receberão partidas do Mundial. O amistoso entre Brasil e França, por exemplo, foi disputado no Gillette Stadium, em Boston, já com a mesma grama prevista para a Copa.

Segundo Villar, esse tipo de evento acaba oferecendo pistas importantes sobre questões operacionais.

“Boston já conseguiu identificar alguns ajustes necessários em um cenário de estádio lotado, com mais de 60 mil pessoas, especialmente em relação a fluxo e acesso.”

Mesmo reforçando a independência do projeto, o executivo admite que existe troca de experiências envolvendo infraestrutura, logística e funcionamento de arenas.

A preocupação, porém, vai além do espetáculo para o público. Para as federações, fatores técnicos pesam mais do que o apelo comercial nesta fase de preparação. Distância entre cidades, centros de treinamento, fuso horário, perfil dos adversários e semelhança com possíveis escolas de jogo da Copa entram na equação.

Foi dentro dessa lógica que surgiu, por exemplo, o amistoso entre Brasil e Egito. Segundo Villar, o confronto não foi pensado apenas pelo tamanho das seleções envolvidas, mas pelo encaixe esportivo e logístico desejado para a preparação.

O negócio dos amistosos internacionais

Se tecnicamente as seleções buscam o ajuste final para a Copa, comercialmente os amistosos se transformaram em um produto de alto impacto para cidades, patrocinadores e mercados locais. E, nesse cenário, estrelas fazem diferença.

“Os Estados Unidos são o mercado das estrelas”, resume Villar.

Nomes como Lionel Messi, Neymar, Mohamed Salah e Erling Haaland influenciam diretamente a demanda por ingressos, audiência e interesse comercial. O peso dos jogadores ajuda a definir não apenas os confrontos, mas também as cidades escolhidas para receber cada partida.

O Brasil x Egito em Cleveland ilustra esse raciocínio. Além do apelo natural da Seleção Brasileira, o duelo conta com Salah do outro lado e, agora, com Neymar novamente convocado. A combinação amplia o público potencial para além das comunidades brasileiras ou egípcias.

“Você atrai americanos que querem ver grandes estrelas em campo”, diz o dirigente.

A estratégia muda de acordo com o perfil do jogo. Enquanto confrontos gigantes, como Brasil x França, conseguem mobilizar grandes públicos praticamente em qualquer praça, outros duelos exigem uma construção diferente, considerando mercado local, tamanho do estádio, torcida das seleções e apelo internacional.

Segundo Villar, cidades americanas já passaram a procurar a organização por conhecer o retorno econômico gerado pelos amistosos. Orlando é um dos principais exemplos. Em parceria com a Universal Orlando Resort, os jogos são integrados a pacotes turísticos que estimulam a permanência maior dos visitantes, beneficiando hotéis, restaurantes, parques e comércio local.

O modelo também avançou para centros universitários. Após a pandemia, a organização passou a usar estádios de grandes universidades americanas, muitos deles com capacidade superior à de arenas da NFL.

É o caso de jogos da Argentina em Texas A&M e Auburn. Com dezenas de milhares de ingressos vendidos semanas antes das partidas, os eventos movimentam cidades inteiras, muitas vezes afastadas dos grandes centros.

"É um evento único para aquela cidade. Você está trazendo o efeito Messi ou o efeito do campeão da última Copa junto com um atrativo que seria a Islândia, no caso, de um jogo, ou Honduras, no outro", afirmou Vilar.

Dos aprendizados da Florida Cup aos bastidores da preparação das seleções

O Road to 26 carrega uma década de aprendizado acumulado desde a Florida Cup. Segundo Villar, os primeiros anos foram marcados por limitações típicas do mercado: janelas restritas de calendário, dependência do turismo brasileiro em janeiro, dificuldades de monetização e o desafio de crescer sem dar passos maiores do que a estrutura permitia.

A migração para a FC Series mudou parte dessa lógica. O modelo abandonou o formato de competição e passou a apostar em grandes jogos independentes, distribuídos por cidades estratégicas e com soluções completas para clubes e parceiros.

Essa experiência foi levada às seleções. Hoje, além do jogo em si, a organização trabalha a preparação técnica, logística, hospitalidade, mídia, ativações comerciais e relacionamento com cidades e patrocinadores.

Mas montar amistosos pré-Copa continua longe de ser simples. Na prática, nem sempre é possível simplesmente combinar os maiores jogos possíveis. As seleções impõem restrições geográficas, necessidades técnicas e cuidados com deslocamento, especialmente às vésperas do Mundial.

“Você não pode atacar todas as seleções e fazer apenas os melhores jogos comerciais do mercado”, explica Villar.

A escolha dos adversários passa por critérios como semelhança com possíveis rivais da Copa, tempo de viagem, fuso horário e necessidades específicas de preparação. O desafio, segundo ele, está justamente em equilibrar o lado técnico com a viabilidade econômica do evento.

No fim das contas, o sucesso do Road to 26 será medido por uma soma de fatores: satisfação das federações, estádios cheios, operação funcionando, boa experiência para os torcedores, retorno para patrocinadores, forte audiência global e transmissões capazes de fazer um amistoso parecer, visualmente, um jogo oficial.

"As transmissões têm que estar acontecendo em alto nível, com as pessoas assistindo a um jogo de qualidade. O público liga a TV e não sabe se é um amistoso, um jogo oficial ou o que for, mas vai estar ali com uma grama bonita, com o estádio lotado", completou.

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