Na MRV, incorporação volta a dar lucro, mas Resia leva grupo a prejuízo de R$ 1 bi

Por Letícia Furlan 10 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Na MRV, incorporação volta a dar lucro, mas Resia leva grupo a prejuízo de R$ 1 bi

A MRV&Co encerrou 2025 com resultados mistos. Enquanto o negócio de incorporação no Brasil, o core business do grupo, voltou ao lucro e atingiu as metas operacionais do ano, a operação americana, a Resia, continuou pressionando o balanço consolidado.

A holding registrou receita operacional líquida de R$ 10,9 bilhões em 2025, mas fechou o ano com prejuízo líquido de R$ 1,04 bilhão atribuído aos acionistas. O resultado reflete principalmente os impactos da operação nos Estados Unidos, que segue em processo de reestruturação e venda de ativos.

O prejuízo da Resia aumentou significativamente no acumulado do ano. No resultado ajustado, passou de US$ 69,8 milhões em 2024 para US$ 260 milhões em 2025. No resultado contábil, a perda foi de US$ 242,7 milhões, contra US$ 69,8 milhões no ano anterior.

No consolidado da MRV&Co, o impacto negativo da operação americana saltou de R$ 395 milhões para R$ 1,35 bilhão.

"Boa parte da perda da Resia veio do impairment [reavaliação de ativos] que realizamos no segundo trimestre de 2025, como parte do nosso plano de desinvestimento", afirma Ricardo Paixão, CFO da MRV.

"Existe também uma diferença importante de dinâmica entre os anos. Enquanto 2024 teve um volume maior de venda de propriedades, o ano de 2025 foi focado na maturação dos projetos. Trabalhamos para que eles chegassem mais próximos do nível de ocupação ideal para nos habilitar a realizar as vendas agora em 2026".

A MRV&Co reúne MRV Incorporação — responsável pelas marcas MRV e Sensia no Brasil —, Urba (loteamentos), Luggo (locação residencial) e a Resia, voltada ao segmento multifamily nos Estados Unidos.

Nos últimos trimestres, a companhia tem priorizado uma estratégia de simplificação da estrutura e redução de alavancagem na operação americana, com foco na venda dos ativos e na redução de custos. Paixão afirma que a prioridade absoluta na Resia é cumprir o plano de desalavancagem até o fim de 2026, que contempla a venda de projetos e terrenos.

"Hoje, metade da alavancagem do balanço da MRV&Co vem da Resia. Ao executarmos esse plano, esse peso será drasticamente reduzido e a operação americana parará de contaminar o balanço geral da companhia", diz.

Operação brasileira volta ao lucro

No Brasil, a operação de incorporação apresentou melhora consistente ao longo de 2025. A receita operacional líquida da divisão atingiu R$ 10,1 bilhões, alta de 20% em relação a 2024.

A companhia registrou lucro líquido ajustado de R$ 611 milhões em 2025, revertendo o prejuízo de R$ 132 milhões reportado no ano anterior.

O resultado ficou próximo das metas divulgadas ao mercado. A receita anual permaneceu dentro do intervalo projetado pela companhia, entre R$ 9,5 bilhões e R$ 10,5 bilhões, enquanto a margem superou a faixa estimada de 29% a 30%.

No quarto trimestre, a margem bruta alcançou 31%, o maior nível em 26 trimestres. No acumulado do ano, a média foi de 30,4%.

Parte dessa melhora veio do controle de custos. A relação entre despesas gerais e administrativas e a receita caiu de 16,3% em 2023 para 13,9% em 2025.

A companhia também atribui o avanço a uma estratégia de produção mais disciplinada. Nos últimos anos, a MRV passou a limitar sua operação a cerca de 40 mil unidades anuais, com foco em eficiência operacional, redução de praças e maior seletividade na compra de terrenos.

Segundo Ricardo Paixão, a operação brasileira da companhia — que reúne MRV Incorporação, Urba e Luggo — enfim atingiu em 2025 um nível de endividamento considerado ideal. O indicador de dívida líquida sobre Ebitda anualizado caiu de cerca de 1,8 vez para 1 vez, patamar que o executivo descreve como um “número mágico” no mercado de crédito, já que níveis abaixo disso costumam indicar uma empresa financeiramente saudável.

"A melhora não foi resultado de fatores macroeconômicos, já que a taxa de juros permaneceu elevada, mas sim do avanço operacional da companhia. O aumento de lançamentos, vendas e obras elevou a receita, enquanto a diluição de despesas administrativas e a melhora da margem bruta ampliaram o resultado operacional, contribuindo para reduzir a alavancagem", explica.

Paixão também destaca que o programa Minha Casa Minha Vida ajudou a sustentar a demanda, com revisões recentes que ampliaram o poder de compra dos clientes. Com isso, segundo ele, a companhia encerrou o ano em uma posição considerada confortável de endividamento, sem necessidade de novas captações para rolagem de dívida corporativa nos próximos dois anos.

A geração de caixa, porém, ainda mostra sinais de ajuste. No quarto trimestre, a geração de caixa ajustada — desconsiderando cessão de recebíveis — foi de R$ 182 milhões. No acumulado de 2025, no entanto, houve consumo de caixa de R$ 58 milhões, reflexo do descompasso entre produção e repasses de unidades.

Segundo a empresa, cerca de 5 mil unidades ficaram no intervalo entre a produção e o repasse aos clientes, o que pressionou a geração de caixa no período. A companhia também aponta impacto da mudança de critério de pagamento da Caixa Econômica Federal, que elevou em R$ 104 milhões o valor retido na chamada conta transitória apenas no quarto trimestre.

Ao longo do ano, a companhia produziu 40,1 mil unidades, enquanto as vendas líquidas somaram R$ 9,9 bilhões.

Resia segue em ajuste

Se a operação brasileira avançou, a Resia segue em fase de ajuste.

A subsidiária americana registrou prejuízo líquido de US$ 242,7 milhões em 2025. Considerados ajustes, o prejuízo líquido atribuível aos acionistas subiu para US$ 260 milhões.

A receita operacional líquida da operação nos Estados Unidos somou US$ 63,6 milhões no ano.

Nos últimos meses, a companhia tem adotado uma estratégia de desinvestimento e redução de custos na operação. O grupo se comprometeu a não iniciar novos projetos da Resia dentro da estrutura societária da MRV&Co e a focar na monetização dos ativos existentes.

Os projetos em operação também avançam no processo de locação, etapa necessária antes da venda dos ativos. O empreendimento Tributary já está estabilizado, enquanto outros seguem em estágio avançado de ocupação, como Rayzor Ranch (89%), Memorial (84%), Ten Oaks (75%) e Golden Glades (55%).

Em janeiro de 2026, a empresa concluiu a venda de dois terrenos — Marine Creek e Tucker — por US$ 18,3 milhões. A companhia também informou ter reduzido em 50% as despesas gerais e administrativas da Resia no início do ano, efeito que deve aparecer já no balanço do primeiro trimestre.

O movimento faz parte da tentativa de reduzir a alavancagem da operação americana e simplificar a estrutura do grupo, enquanto prepara os ativos para venda.

Outras frentes do grupo

Além da incorporação residencial, outras subsidiárias da holding também apresentaram evolução operacional.

A Urba, braço de loteamentos da companhia, registrou receita de R$ 371 milhões em 2025, alta de 48% na comparação anual. A operação também gerou caixa de R$ 28 milhões no período.

Já a Luggo, focada em locação residencial, segue em fase de maturação. A plataforma possui três empreendimentos concluídos e em operação — Pampulha, Samambaia e Centro — que somam 437 unidades em locação. Ainda assim, a divisão registrou prejuízo de R$ 47,4 milhões no ano.

Mesmo com o prejuízo consolidado, a companhia encerrou o ano com melhora na estrutura financeira. Na operação brasileira, a alavancagem medida pela relação dívida líquida sobre Ebitda anualizado caiu de 1,77 vez no quarto trimestre de 2024 para 1,04 vez no mesmo período de 2025.

A MRV&Co também manteve o rating brA+ pela S&P Global, operando com folga em relação aos limites financeiros previstos em seus contratos de dívida.

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