Nadella chama conselho que demitiu Altman de 'cidade de amadores' em julgamento

Por Tamires Vitorio 12 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Nadella chama conselho que demitiu Altman de 'cidade de amadores' em julgamento

O CEO da Microsoft, Satya Nadella, prestou depoimento na segunda-feira, 11, no julgamento Musk v. Altman, tornando-se o terceiro bilionário a subir ao banco das testemunhas no processo que pode redefinir os rumos da inteligência artificial (IA).

Ao longo de várias horas de questionamentos no tribunal federal de Oakland, Califórnia, Nadella defendeu a parceria entre Microsoft e OpenAI, negou ter pressionado pelo retorno de Sam Altman após a crise de 2023 e afirmou que Elon Musk jamais o procurou diretamente com quaisquer reclamações sobre os investimentos da empresa.

A declaração mais contundente do dia veio quando Nadella descreveu o conselho que demitiu Altman em novembro de 2023. "Foi meio que cidade de amadores, no meu ponto de vista", disse o executivo.

O processo Musk v. Altman, que corre sob o comando da juíza Yvonne Gonzalez Rogers, está em sua fase final. A apresentação de provas encerra na quarta-feira, 13, e os argumentos finais estão previstos para quinta-feira, quando os nove jurados devem iniciar as deliberações. Altman deve depor nesta terça-feira, 12.

O que aconteceu?

Musk processou a OpenAI, seu CEO Altman e o presidente Greg Brockman em 2024, alegando que os dois traíram o espírito fundador da organização, que nasceu em 2015 como uma entidade sem fins lucrativos dedicada ao desenvolvimento de IA para o bem da humanidade.

A Microsoft é co-ré no processo e Musk acusa a empresa de ter auxiliado e encoberto uma suposta violação do trust filantrópico que regia a OpenAI.

Os advogados de Musk repetiram ao longo do julgamento que roubar uma instituição de caridade não é aceitável. A defesa da OpenAI respondeu pela voz do cofundador Ilya Sutskever, que depôs na mesma segunda-feira. "A missão da OpenAI é maior do que a sua estrutura", disse Sutskever.

Ao longo de seu depoimento, Nadella construiu uma narrativa de parceria comercial arriscada — não de controle ou captura da OpenAI. "A OpenAI tinha todos os direitos e recursos que sempre teve", disse sob juramento.

O executivo também apresentou ao júri um e-mail de agosto de 2017 em que o próprio Musk agradecia pessoalmente a Nadella pelo suporte da Microsoft — após um bot da OpenAI derrotar um jogador profissional de elite no campeonato do jogo Dota 2.

"Muito apreciado. Vou me certificar de que as pessoas saibam da ajuda da Microsoft", escreveu Musk na época. O e-mail foi lido em tribunal como evidência de que Musk apoiava ativamente a parceria que hoje contesta na Justiça.

O executivo também rechaçou a caracterização dos aportes da Microsoft como filantropia. Desde o início, o acordo era comercial, segundo ele. Em 2019, a Microsoft investiu US$ 1 bilhão na divisão com fins lucrativos da OpenAI em troca de participação nos lucros e de uma licença exclusiva para comercializar um de seus modelos por um ano.

Em 2021, vieram mais US$ 2 bilhões. Em 2023, após o lançamento do ChatGPT, mais US$ 10 bilhões. Hoje, a participação da Microsoft gira em torno de 27% da divisão com fins lucrativos da OpenAI, avaliada em aproximadamente US$ 135 bilhões.

O depoimento de Nadella

Um dos momentos mais reveladores do depoimento foi quando Nadella descreveu a decisão de investir na OpenAI como uma porta de mão única e "sem volta". "Estávamos essencialmente terceirizando grande parte do desenvolvimento do IP central e criando uma dependência massiva da OpenAI", afirmou.

A Microsoft não tinha como construir dois supercomputadores ao mesmo tempo — um para si e outro para a OpenAI — e teve de aceitar o custo de oportunidade de desviar recursos computacionais escassos de suas próprias equipes de IA.

E-mails internos apresentados como evidência revelaram que, em 2018, a Microsoft sequer tinha certeza de que a aposta valeria. O CTO Kevin Scott chegou a escrever que era altamente cético em relação a um avanço iminente em AGI. Outro receio documentado, segundo os advogados de Musk, era o de a Microsoft "se tornar a próxima IBM — relevante, mas ultrapassada", caso não garantisse um parceiro de IA competitivo.

A crise de novembro de 2023, quando o conselho da OpenAI demitiu Altman abruptamente e o reintegrou dias depois, ocupou boa parte do depoimento. Nadella disse que nunca recebeu uma explicação clara do conselho sobre os motivos reais da demissão, mas uma vaga referência a questões de candor com o board.

"Senti que devem ter existido ciúmes, falhas de comunicação, sei lá o quê. E isso é meio que cidade de amadores, no meu ponto de vista", afirmou.

Nadella descreveu sua postura naquele momento como a de quem precisava ser o adulto na sala para trazer a OpenAI de volta a funcionar. "Naquela altura, eu estava muito preocupado que os funcionários todos fossem embora em massa, e isso teria sido ruim para a OpenAI — e obviamente ruim para a Microsoft", disse.

Ele também negou ter exigido a reintegração de Altman, contrariando depoimento anterior da ex-diretora Tasha McCauley, que em videotape disse que Satya queria restaurar as coisas como eram antes.

Seus advogados mostraram trocas de mensagens com o CTO Kevin Scott sobre possíveis candidatos ao conselho renovado. Nadella vetou a ex-CEO do Google Cloud Diane Greene e o veterano de games Bing Gordon por vínculos com concorrentes diretos da Microsoft em IA, e sugeriu Sue Desmond-Hellman, ex-CEO da Gates Foundation — que acabou sendo nomeada.

Onde Musk entra

Musk, que hoje acusa a Microsoft de ter participado de uma suposta conspiração para desvirtuar a OpenAI, nunca levantou essas preocupações diretamente com Nadella. "Nós temos o número um do outro", disse o CEO da Microsoft ao tribunal.

Por cinco anos, enquanto a relação entre Microsoft e OpenAI se aprofundava com bilhões de dólares em aportes, Musk permaneceu em silêncio perante Nadella. Em 2020, o próprio Musk postou no X que a OpenAI havia sido essencialmente capturada pela Microsoft, reconhecendo publicamente os laços comerciais que hoje usa como base do processo.

O depoimento também revisitou uma frase de Nadella que viralizou em 2023, dita em entrevista logo após a crise de demissão de Altman: que a Microsoft estava abaixo, acima e ao redor da OpenAI.

No banco das testemunhas, Nadella explicou o contexto. "Isso remete à minha tentativa de comunicar da forma mais clara possível aos clientes que eles podiam contar com a gente", afirmou.

Musk tenta usar a frase como evidência de captura corporativa. Nadella a apresentou como mensagem de estabilidade para o mercado.

Altman deve subir ao banco das testemunhas nesta terça. Os advogados de Musk devem questionar como a missão original da OpenAI como entidade sem fins lucrativos se alinha com a realidade de uma empresa comercial que se prepara para um IPO que pode ultrapassar US$ 1 trilhão em valuation. A apresentação de provas encerra na quarta.

Os argumentos finais estão previstos para quinta-feira, quando os nove jurados que acompanham o caso devem iniciar suas deliberações.

O que está em jogo vai além de um processo judicial. A sentença vai moldar como empresas de tecnologia podem estruturar parcerias com entidades sem fins lucrativos, como os fundadores de startups de IA podem captar recursos sem perder o controle de sua missão — e, no limite, quem tem o direito de ditar o futuro da inteligência artificial.

O julgamento Musk v. Altman corre no Tribunal Distrital Federal de Oakland, Califórnia, sob a presidência da juíza Yvonne Gonzalez Rogers.

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