'Não investimos em PowerPoint': o recado de um gestor para as startups do agro
Com o avanço da inteligência artificial no agro e o surgimento constante de startups voltadas ao setor, o discurso costuma ser ambicioso. Mas, para Kieran Gartlan, sócio do The Yield Lab Latam, promessa não é suficiente.
“Nós não compramos PowerPoint”, afirmou em entrevista à EXAME. A frase sintetiza a tese de investimento do fundo: o capital só é direcionado a empresas que já tenham validação concreta de mercado.
Para o gestor, tecnologia só gera valor quando resolve um problema real — e quando há alguém disposto a pagar por isso. “Tecnologia é boa enquanto alguém está usando. Mas se ninguém usa, não tem valor nenhum.”
Com atuação nos Estados Unidos, América Latina, Europa e Ásia, o The Yield Lab é uma plataforma global focada em agtechs. O braço latino-americano administra um fundo de US$ 50 milhões e construiu presença relevante na região nos últimos cinco anos.
Nesse período, foram 24 investimentos em sete países da América Latina e Caribe. O Brasil concentra hoje mais de 50% das startups apoiadas pelo fundo na região.
Entre as investidas no país estão a Um Grau e Meio, que utiliza inteligência artificial para identificar focos de incêndio em canaviais e florestas, e a Culttivo, fintech voltada a crédito e serviços financeiros para cafeicultores.
Segundo Gartlan, um dos maiores riscos ao investir em agtech é apostar em soluções que funcionam bem no papel, mas enfrentam barreiras de adoção no campo.
“Vemos muitos casos de empreendedor achando que inventou a próxima roda, mas há muitos problemas para adoção dessa tecnologia e ele não conhece bem o mercado", diz.
Na prática, o primeiro passo da análise não é avaliar o pitch, mas conversar com o cliente. “A gente sempre busca startups que já têm clientes pagando pela solução. E a primeira coisa que a gente faz é falar com o cliente e entender por que ele está pagando. Qual é o valor que ele agrega?”
O cuidado vai além. Para o gestor, os primeiros compradores podem ser apenas entusiastas, sem representar o mercado como um todo. “A gente avalia se esse cliente representa um mercado maior.”
O filtro é rigoroso. De cerca de 3.000 startups mapeadas na América Latina, o The Yield Lab investiu em 35 — aproximadamente 1% do total analisado.
“99% das coisas não dão certo. Ou não têm modelo interessante, ou não têm demanda, ninguém quer pagar, ou não têm escalabilidade.”
Novo fundo exclusivo para o Brasil
O apetite pelo mercado brasileiro não é apenas discurso. O The Yield Lab prepara o lançamento de um fundo dedicado exclusivamente ao país. “Vamos anunciar um novo fundo só para o Brasil daqui a alguns meses”, disse Gartlan.
A decisão de estruturar um fundo dedicado ao país está ancorada no potencial do ecossistema local. O Brasil reúne hoje cerca de 1.972 agtechs distribuídas ao longo da cadeia produtiva — antes, dentro e depois da fazenda — segundo o Radar Agtech Brasil 2025.
Hoje, o grupo opera com um fundo latino-americano de US$ 50 milhões. A estratégia agora é criar um veículo local para investir em estágios mais iniciais.
“A gente precisa de um fundo mais local para investir tickets menores e captar esse valor no início da startup, não esperar Série A ou Série B.”
Além disso, a gestora pretende lançar um Fundo de Investimento em Participações (FIP) no Brasil e estruturar um fundo de maior porte para follow-ons, além de manter um veículo regional voltado aos demais países da América Latina.
O FIP é um instrumento de renda variável que reúne recursos de investidores para adquirir participações — como ações, debêntures e bônus — em empresas de capital aberto ou fechado com alto potencial de crescimento.
Paralelamente, prepara um programa para acelerar a adoção de IA em grandes empresas do agro. “A ideia é identificar ineficiências e fazer o matchmaking com startups que têm as soluções.”
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