Natura dispara 37% e bancos falam em virada na tese
Depois de figurar entre as maiores quedas do Ibovespa em 2025, as ações da Natura (NATU3) iniciaram este ano com uma das reviravoltas mais expressivas do índice da B3.
Em menos de quatro meses, os papéis acumulam valorização de 37,58%, de acordo com fechamento nesta quarta-feira, 15, praticamente anulando a queda de 41,61% registrada no ano passado, quando foram a terceira pior performance da bolsa, em um período em que o Ibovespa avançou quase 34%.
No mês passado, marcado pela eclosão da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã, que impulsionou o petróleo e favoreceu empresas de commodities, a Natura destoou ao subir 14,60%, figurando entre as maiores altas do índice e sendo a única fora do eixo de energia e agrícola entre os destaques positivos.
Das 10 maiores quedas a destaque: o que mudou
Segundo analistas que acompanham o papel, o desempenho fraco da companhia no Ibovespa no ano passado foi marcado por revisões negativas de expectativas, resultados operacionais abaixo do esperado e forte reação do mercado, especialmente após balanços considerados fracos.
No segundo trimestre, a decepção com os números levou a uma queda relevante das ações, aprofundada no terceiro trimestre, quando o desempenho pior do que o esperado voltou a pressionar os papéis.
A desaceleração do consumo no mercado de beleza, mais intensa que o previsto, somada aos custos elevados com integração e digitalização, ajudou a deteriorar a percepção dos investidores.
Agora, parte do movimento se inverte. "Ano passado as expectativas foram revisadas para baixo, e este ano tivemos fatores que compensaram isso", afirma Vinícius Strano, analista do UBS BB.
O que explica essa volta por cima?
Ainda assim, o ponto de partida segue deprimido na visão de parte do mercado. Daniel Utsch, gestor da Nero Capital, observa que mesmo com a recente valorização, a ação permanece mais de 80% abaixo do pico histórico registrado em julho de 2021, quando chegou a valer R$ 58 ante os R$ 10,25 que negocia hoje. "É uma ação que ainda está muito depreciada", diz.
De acordo com o gestor, isso ajuda a explicar a intensidade da recuperação recente. O principal motor dessa virada tem sido a eficiência da companhia.
O balanço do quarto trimestre de 2025 mostrou que, apesar do recuo da receita líquida, que caiu 12,1%, para R$ 6,2 bilhões, refletindo a fraqueza do consumo e dificuldades na América Latina, o Ebitda recorrente, que mede o caixa operacional contínuo da empresa sem itens extraordinários, avançou para R$ 978 milhões, com margem de 15,8%, impulsionado por cortes de custos e ganhos operacionais.
Para o BB Investimentos, o resultado foi "misto", com "queda de receita e de market share, mas com ganhos em rentabilidade e avanço no lucro líquido das operações continuadas", o que foi bem visto pelo mercado na época.
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) também destacou em meio à divulgação dos resultados que, excluindo itens não recorrentes, "tanto o Ebitda quanto o lucro vieram acima das expectativas, beneficiados principalmente pela otimização de despesas".
A leitura dos dois bancões é reforçada por Eric Huang, analista de varejo do Santander. "Essa forte redução de despesas indica um horizonte mais positivo do que o esperado para despesas ao longo de 2026, e consequentemente, melhorando as expectativas do mercado em relação à rentabilidade em 2026 em diante", afirma.
Simplificação e desinvestimentos mudam a tese
Um dos pilares da melhora de percepção do mercado é a mudança estrutural em curso. Após anos de expansão internacional e aquisições, que incluíram Avon, The Body Shop e Aesop, a Natura passou a desmontar parte dessa estratégia.
As vendas de ativos e a saída de mercados menos rentáveis, como a recente alienação da Avon Rússia, marcam o fim desse ciclo. Para o Santander, esse movimento "representa o último passo do processo de simplificação da companhia e pode mudar o foco dos investidores para a retomada da marca na América Latina".
A leitura é de que a empresa volta a concentrar esforços na região, onde possui maior escala, rentabilidade e reconhecimento de marca. O próprio BB Investimentos destaca como pontos fortes a "forte capilaridade e força da marca Natura" e a "diversificação de canais", além do avanço na integração com a Avon na região.
"De modo geral, ao longo de 2025, várias incertezas pairavam sobre o operacional da companhia, ao passo em que em 2026 começamos a observar melhorias importantes de rentabilidade, especialmente apoiadas por uma agenda de despesas", afirma Huang.
"A melhora da alavancagem, com a relação dívida líquida/EBITDA em 1,3 vez — um nível considerado confortável e em linha com o que a companhia vinha sinalizando como ideal — abre espaço para a retomada de pagamentos de dividendos mais robustos, o que é um sinal positivo para acionistas em busca de empresas boas pagadoras", acrescenta.
Mas o processo ainda está longe de concluído. O BB Investimentos, por exemplo, chama atenção para a "dificuldade de a empresa manter crescimento de receita" e para a captura de sinergias "mais lenta e em menor escala do que o projetado inicialmente".
Advent, governança e o 'selo de credibilidade'
A alta recente das ações também tem por trás outros dois gatilhos: a mudança de governança e a entrada de um investidor institucional relevante.
No fim de março, a Natura anunciou um acordo para venda de 8% a 10% de suas ações para a Advent International, a um preço médio de R$ 9,75. No mesmo pacote, promoveu uma ampla reformulação do conselho, com a saída dos fundadores do board e a criação de um conselho consultivo. A reação do mercado foi imediata.
O BTG destcou que a operação "reforça a narrativa de valor das ações" e funciona como um endosso à tese de investimento após anos de volatilidade. "A presença de um investidor como a Advent adiciona credibilidade e pode catalisar uma reavaliação", afirma o banco.
O que ainda impede uma recuperação completa
Mas, apesar da melhora recente, tanto nas ações quanto em alguns indicadores operacionais, a leitura predominante entre os bancos é de cautela. O BTG resume o momento como um "ponto de inflexão positivo", mas ressalta que "a valorização sustentada dependerá da entrega operacional, especialmente na expansão de margens e na recuperação das vendas".
O Santander mantém recomendação neutra sobre a NATU3, citando "incertezas sobre a retomada de ganho de market share" e os desafios de execução da estratégia. Entre os riscos, o banco destaca a concorrência acirrada no Brasil, dificuldades na integração com a Avon e o próprio ambiente macroeconômico para bens não essenciais.
O BB Investimentos reforça esse diagnóstico ao apontar que o cenário externo segue desafiador e pode "prejudicar a recuperação das vendas da companhia ao longo do ano".
"Ainda há um caminho longo pela frente, mas o ativo pode gerar valor no longo prazo. A rentabilidade segue bem abaixo dos níveis históricos, mas já há sinais de melhora — seja pela venda de ativos, seja pela inflexão recente nos resultados. Essa mudança de percepção ajuda a explicar a alta de cerca de 40% das ações neste ano", finaliza o gestor Daniel Utsch.
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