Negociação, crime e América do Sul: os planos de Lula para a reunião com Trump
NOVA DÉLI* - O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) delineou neste domingo, 22, parte da agenda que pretende levar para a mesa na reunião com o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, marcada para março.
Em coletiva de imprensa em Nova Déli antes de embarcar para a Coreia do Sul, Lula desenhou uma pauta que mistura comércio, minerais estratégicos, cooperação policial e reposicionamento geopolítico do Brasil. Segundo ele, o encontro não será protocolar.
“A pauta que eu quero conversar com o presidente norte-americano é muito mais ampla do que minerais críticos. Brasil e EUA têm uma relação diplomática de 201 anos. É uma relação muito sólida”, disse ao ser questionado sobre uma negociação de terras raras com Trump.
Na semana passada, a Suprema Corte dos EUA suspendeu os efeitos das tarifas de Trump a diversos países, inclusive o Brasil. Após a decisão do Judiciário, o presidente dos EUA anunciou uma taxa universal de 10% para todos os países -- depois ampliada para 15%.
Multilateralismo e equilíbrio geopolítico
O encontro com Trump também se insere numa estratégia maior da política externa brasileira de fortalecimento do Sul Global e defesa do multilateralismo. A visita para a Índia foi um dos grandes momentos da construção feita por autoridades brasileiras nesse sentido -- o país asiático tem a maior população do mundo e a 4ª maior economia global.
“É por isso que nós somos defensores do multilateralismo. Se você permitir que o país pequeno negocie com um país maior, o acordo sempre será prejudicial ao país menor”, afirmou Lula.
Ele também defendeu que o agrupamento dos países do BRICS tem um papel essencial na geopolítica global. "Estou convencido que o BRICS é o jeito de a gente ter o equilíbrio geopolítico do planeta Terra", afirmou.
Veja quatro pontos que farão parte da pauta de Lula na reunião com Trump
Lula afirmou ter sido surpreendido pelas tarifas americanas no ano passado e criticou a forma unilateral como as decisões foram comunicadas, pelas redes sociais. Ele disse acreditar na negociação presencial como instrumento para destravar impasses.
“É preciso a gente pegue um na mão do outro, olhe um no olho do outro. A gente tem o que que a gente quer entre Brasil e Estados Unidos. E não tem veto, não tem nada proibido na mesa de negociação. Vamos colocar todos os temas na mesa de negociação”, disse.
Segundo Lula, o objetivo é estabelecer uma relação estável.
"Espero que depois dessa reunião a gente possa estar garantido de que voltamos a ter uma relação altamente civilizada, altamente respeitosa”, afirmou. "Estou convencido que na conversa a relação Brasil e Estados Unidos vai voltar à normalidade. Eles têm interesse, nós temos interesse."
2. Papel dos EUA na América Latina
O presidente brasileiro destacou também que o Brasil "não quer ser liderança na América Latina".
"Queremos uma relação respeitosa na América Latina, porque nós definimos que a nossa zona é uma zona de paz. Não temos armas nucleares. Queremos viver tranquilos, crescer economicamente e emprego para melhorar a vida do povo", afirmou.
E apontou uma das questões que levará:
"Quero discutir com ele isso: qual é o papel dos Estados Unidos na América do Sul?", questionou. "É de ajudar ou de ficar ameaçando?"
Para Lula, é preciso esclarecer. "O mundo está precisando de tranquilidade. O mundo não precisa de turbulência, o mundo precisa de paz", afirmou.
3. Minerais críticos e agregação de valor no Brasil
Outro ponto do encontro será a exploração de minerais estratégicos e terras raras no contexto da transição energética e da estratégia americana de diminuir a dependência que tem neste ponto da China.
Lula afirmou que o Brasil -- que concentra mais de 20% das reservas globais mas pouco as explora -- não aceitará repetir o modelo histórico de exportação primária.
“O que nós não vamos permitir mais é que o nosso minério crítico, que nossa terra rara seja explorada como o minério de ferro foi durante tantos anos. A gente só cava o buraco e manda o minério para fora para depois comprar produto manufaturado”, disse o presidente brasileiro.
Ele condicionou qualquer parceria ao processamento industrial no Brasil. “Se é para poder explorar negócios em minerais críticos desde que o processo de transformação aconteça no Brasil, vamos conversar”, afirmou.
4. Cooperação para prender 'magnatas' do crime
Outro eixo central da reunião será o combate ao crime organizado internacional.
Lula afirmou apontou que está pronto para aumentar a cooperação com os EUA no combate ao crime organizado internacional e defendeu que os “magnatas” da corrupção sejam presos, inclusive aqueles que vivem em áreas nobres do Brasil e do exterior.
“Eu disse ao presidente [Trump] que estamos dispostos a trabalhar com os Estados Unidos no combate ao narcotráfico, no tráfico de armas, na lavagem de dinheiro", afirmou. "Qualquer coisa que puder colocar os magnatas da corrupção na cadeia, eu estou disposto a trabalhar.”
Para Lula, trata-se de uma estrutura global sofisticada e que precisa de integração -- e que por isso levará representantes da Polícia Federal e Receita Federal, além de outros órgãos de combate ao crime, para reuniões com pares nos EUA.
O presidente brasileiro citou como exemplo uma operação policial envolvendo crimes no setor de combustíveis e afirmou que o governo já forneceu informações às autoridades americanas.
“Bloqueamos 250 milhões de litros de gasolinas em cinco navios, entregamos para a Petrobras, essa pessoa [responsável pelo crime] mora em Miami. Mandamos para o presidente fotografias da casa dele, o nome dele e queremos essa pessoa do Brasil", afirmou o presidente, sem citar nomes.
"É para combater o crime organizado? Então, nos entregue o nosso bandido.”
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