Negócios Sustentáveis: Hélder Barbalho e o legado da COP 30 na Amazônia
Quando, em novembro de 2022, o governador do Pará Hélder Barbalho sugeriu ao então presidente eleito Luiz Inácio Lula da Silva que o Brasil candidatasse Belém como sede da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a ideia soava ousada.
A cidade amazônica jamais havia se projetado como destino de turismo internacional em larga escala. Três anos depois, Belém recebeu mais de 60 mil pessoas em 12 dias durante a COP 30, realizada em novembro de 2025 - não sem percalços, mas com um saldo muito melhor do que boa parte dos críticos havia antecipado.
"A ousadia foi poder apontar a oportunidade de fazer no Brasil, mas não apenas no Brasil. O símbolo de fazer na Amazônia", disse Barbalho em entrevista ao videocast Negócios Sustentáveis, da Exame.
Para ele, sediar o evento foi muito mais do que uma conquista logística. Foi, nas suas palavras, "uma extraordinária oportunidade de colocar luz sobre um bioma que tanto contribui para o equilíbrio do clima".
O caminho até a abertura da conferência não foi sem turbulências. Houve ceticismo sobre a capacidade de Belém de receber o evento, críticas à infraestrutura dentro da conferência e desconfiança generalizada nos meses que a antecederam. Barbalho reconhece que esse ambiente pesou.
"A desconfiança foi algo que acabou misturado com o preconceito, fazendo com que nós perdêssemos uma energia importante para mostrar que sabíamos os nossos desafios e não nos faltaria compromisso para resolvê-los."
Apesar de tudo, a COP30 registros marcos como o fato de a Green Zone de Belém ter sido uma das mais visitadas da história das cúpulas. O aeroporto internacional registrou crescimento de 16,8% no número de passageiros, patamar que, segundo o governador, se manteve nos primeiros meses de 2026.
Novos terminais hidroviários, obras de macrodrenagem em áreas periféricas que alagavam a qualquer chuva e um pacote histórico de investimentos em saneamento compõem o legado físico do evento.
"É como se a COP fosse um catalisador da transformação. Nós vimos Belém evoluir 30 anos nos últimos 3 anos", resumiu Barbalho.
O Pará é um estado de contrastes que a COP ajudou a tornar mais visíveis ao mundo. Com território equivalente à soma de Portugal, Espanha e França, o estado concentra 75% de cobertura florestal, mas tem 77% da sua população espalhada pelo interior, longe da região metropolitana de Belém.
É ao mesmo tempo um dos maiores players da mineração e da agropecuária brasileira e guardião de parte significativa da Amazônia. Conciliar essas realidades é, para Barbalho, a questão central da agenda climática.
Nesse sentido, o governador defende que preservação e produção não são polos opostos. "Todos nós vivemos num ambiente que precisa de equilíbrio. Todo mundo precisa de alimento para viver e esse alimento precisa ser produzido."
A aposta do governo estadual está nos chamados territórios sustentáveis, mecanismo pelo qual produtores rurais que adotam boas práticas ambientais ganham acesso acelerado a licenciamentos, crédito e regularização fundiária.
O objetivo é mostrar, na prática, que é possível intensificar a produção em áreas já antropizadas sem desmatar.
A bioeconomia aparece como a grande aposta do pós-COP. O Parque de Bioeconomia inaugurado durante o evento e culturas como o açaí e o cacau são apresentados como exemplos de atividades capazes de gerar emprego, restaurar ativos florestais e inserir o estado em mercados globais cada vez mais exigentes em rastreabilidade.
"Pós-COP, nós temos a bioeconomia e as economias da floresta e o turismo como novas oportunidades que fazem com que o Estado possa crescer", afirmou o governador.
Barbalho, que encerra seu segundo mandato à frente do Pará com a candidatura ao Senado Federal já anunciada, deixa o cargo com a promessa de continuar na agenda climática a partir de Brasília.
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