NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS: Por que a liderança feminina é um diferencial competitivo para empresas
Em um mundo corporativo pressionado por transformações aceleradas e instabilidade geopolítica, uma peça-chave vem se consolidando como vantagem competitiva: a liderança feminina.
Mais do que uma pauta social, a presença de mulheres no topo das organizações tem se mostrado decisiva para a inovação, desempenho financeiro e qualidade das decisões.
Para Christiane Aché, mentora e diretora do programa ABPW da EXAME Saint-Paul, ampliar a presença feminina na liderança não é uma concessão, mas uma estratégia. Ela se define, antes de tudo, como uma "eterna aprendiz", curiosa por natureza e sempre disposta a desbravar o desconhecido.
“A diversidade amplia o repertório e fortalece a capacidade das empresas de lidar com ambientes complexos”, afirma em entrevista ao videocast Negócios Sustentáveis da EXAME.
No Brasil, esse potencial ainda está longe de ser plenamente aproveitado. Um levantamento da Diversitera, empresa especializada em diversidade, equidade e inclusão (DEI), mostra que apenas 35% dos cargos de alta liderança a exemplo de gerência executiva, diretoria e C-level são ocupados por elas.
O funil se estreita ainda mais nos conselhos de administração. Outro estudo recente indicou que somente entre 12% e 15% das cadeiras em empresas abertas no país são ocupadas por mulheres.
Por outro lado, há um paradoxo: elas apresentam 49% mais formações acadêmicas e 87% mais certificações do que os homens, expondo um abismo entre qualificação, acesso e poder decisório.
Segundo Christiane, organizações mais diversas tendem a antecipar riscos, identificar oportunidades com mais rapidez e construir soluções mais inovadoras.
“Quando você tem grupos homogêneos fazendo escolhas, o risco de vieses aumenta. A pluralidade de experiências e trajetórias traz mais questionamento, mais debate e, no fim, decisões mais sólidas”, destaca.
Os benefícios se tornam ainda mais relevantes em um contexto de múltiplas crises: mudanças climáticas, transição energética, transformações tecnológicas e geopolítica vêm exigindo das empresas uma capacidade crescente de adaptação.
“Estamos vivendo um momento em que não existe mais resposta simples para problemas complexos. E diversidade é uma ferramenta poderosa justamente para lidar com complexidade”, afirma a diretora.
Apesar disso, ela reconhece que os obstáculos para o avanço feminino na liderança permanecem estruturais. Barreiras culturais, jornadas duplas, vieses inconscientes e modelos tradicionais de gestão ainda limitam o acesso aos cargos mais altos.
“O problema não é falta de talento. As mulheres estão altamente qualificadas. O que falta é abrir espaço real para que elas cheguem lá", reforça Christiane.
Na avaliação da executiva, empresas que não enfrentarem esse desafio correm o risco de perder competitividade.
“Em um mercado cada vez mais disputado, quem não conseguir atrair, reter e desenvolver lideranças diversas vai ficar para trás. A diversidade deixou de ser diferencial reputacional para se tornar diferencial econômico”, garante.
Além do impacto direto no desempenho, Christiane destaca que a liderança feminina também contribui para ambientes corporativos mais saudáveis, colaborativos e inovadores.
“Times diversos tendem a ser mais engajados, mais criativos e mais resilientes. Isso se traduz em melhores resultados no médio e longo prazo”, diz.
Para ela, o avanço da equidade de gênero no topo das empresas depende de um compromisso efetivo da alta gestão, com metas claras, indicadores de acompanhamento e mudanças profundas na cultura organizacional.
“Não basta discurso. É preciso colocar o tema no centro da estratégia, com responsabilidade e cobrança por resultados", frisa.
Da indústria pesada à formação de lideranças
Com uma vasta carreira no setor industrial e financeiro e passagens por grandes grupos na Europa e no Brasil, Christiane Aché conta que "sua vida sempre foi em ambientes majoritariamente masculinos".
Iniciou sua trajetória profissional na França, em uma empresa do setor aeroespacial que hoje integra o grupo Airbus, atuando nas áreas jurídica e financeira. Ao retornar ao Brasil, passou mais de duas décadas em uma multinacional de infraestrutura, onde ocupou posições executivas ligadas a projetos de trens, metrôs, turbinas e energia.
A mudança de rota veio em 2017, quando decidiu deixar o mundo corporativo para buscar novos caminhos profissionais.
No mesmo período, foi convidada para assumir a diretoria do programa ABPW, iniciativa voltada à formação e aceleração da carreira de mulheres para posições estratégicas e conselhos de administração.
Hoje a plataforma já formou mais de 650 mulheres, apostando em uma rede ativa de mentorias, conexões e apoio profissional. “Eu sempre vivi em ambientes muito masculinos. Quando me vi formando mulheres para cargos de liderança, percebi que ali estava uma forma concreta de transformar o sistema", conclui.
As dicas para mulheres que querem chegar à liderança
1) Ouse“Se a gente não ousa, a gente não chega em lugar nenhum.” Para Christiane, assumir riscos faz parte da trajetória profissional e é essencial para avançar em cargos estratégicos.
2) Deixe claro o que você quer“As coisas precisam ser ditas. As pessoas têm que saber o que você quer.” Segundo ela, a intencionalidade é decisiva: comunicar objetivos profissionais aumenta as chances de ser lembrada para promoções e novas posições.
3) Prepare-se, mas não caia na síndrome da impostora“O homem, com 55% ou 60% da descrição do cargo, já se candidata. A mulher precisa ter 120%.” A recomendação é investir em formação e desenvolvimento, mas sem permitir que o excesso de autocrítica impeça avanços.
4) Invista em autoconhecimentoChristiane defende que liderança hoje exige inteligência emocional, autoconsciência e cuidado com o bem-estar mental. “Cuidem do intelecto, mas também do cérebro e do coração.”
5) Não tente controlar tudoEla conta que só ganhou leveza profissional quando aprendeu a abrir espaço para o inesperado. “Às vezes, mudar o plano traz resultados melhores.”
Confira o bate-papo completo no Youtube:
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