NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS: Sem água, não existe cerveja - a estratégia da Ambev para proteger a natureza
"A cerveja é um produto natural. Se a gente não cuidar da natureza, a gente está sacrificando nosso próprio produto."
A afirmação de Felipe Baruque, vice-presidente de Suprimentos e Sustentabilidade da Ambev, resume a relação de dependência absoluta entre o negócio da gigante de bebidas e a disponibilidade de água de qualidade no Brasil.
A água não é apenas um insumo entre tantos outros: é a base de tudo e representa mais de 90% da composição de cervejas, refrigerantes, isotônicos e outras bebidas que a companhia produz.
Mas a conexão vital do recurso hídrico vai muito além da fórmula dos produtos. A água está presente em todas as etapas do processo produtivo na fábrica, desde a limpeza de equipamentos até o resfriamento de sistemas e geração de vapor.
Está também nas plantações de cevada e outros grãos que dão origem à cerveja e nas comunidades ao redor das fábricas, onde vivem colaboradores, fornecedores e consumidores.
"Tocar na água é algo que enche a gente de orgulho e de responsabilidade, pois é algo genuíno: está em tudo que a gente faz", destaca Baruque à EXAME, em entrevista ao videocast NEGÓCIOS SUSTENTÁVEIS.
Sem qualidade e quantidade suficiente, simplesmente não existe cerveja. Por isso, a gestão hídrica virou pilar estratégico para além da responsabilidade social e como condição de "sobrevivência e prosperidade" a longo prazo.
Nas últimas duas décadas, essa compreensão se traduziu em resultados concretos: a Ambev reduziu em mais de 50% o consumo hídrico em suas operações e se tornou referência no setor de bebidas em eficiência. Para cada 2,5 litros de água, um litro de produto é fabricado, e a meta é reduzir mais.
A queda foi alcançada através de investimentos em tecnologia, processos de reuso, controle rigoroso e uso consciente em todas as etapas produtivas. Mas o executivo reconhece que a eficiência interna, por mais importante que seja, não é suficiente se o entorno estiver em colapso hídrico.
Pensando nisso, a estratégia vai muito além dos muros das fábricas. Um dos focos é na agricultura regenerativa, com uma rede que adota práticas que incluem rotação e proteção do solo, plantio direto, uso consciente de recursos naturais e redução de emissões.
A conexão com a água é direta: solos saudáveis têm maior capacidade de retenção, reduzindo a necessidade de irrigação e ajudando a recarregar aquíferos. Ao mesmo tempo, a cobertura vegetal adequada reduz a erosão que assorearia rios e comprometeria a qualidade hídrica.
Além disso, há uma preocupação com o impacto positivo nas comunidades. A visão se fundamenta em três pilares que guiam todas as ações: escuta ativa (ouvir e entender as necessidades reais locais), colaboração no ecossistema (trabalhar em rede com parceiros públicos, privados e do terceiro setor) e pensamento de longo prazo.
"A gente entende que a nossa responsabilidade é muito maior do que simplesmente a produção. Entendemos o ecossistema como parte", reforça Baruque.
Água como um dos quatro pilares estratégicos
A gestão hídrica faz parte de um conjunto mais amplo de compromissos públicos que a Ambev estabeleceu em 2017, com metas para serem cumpridas até 2025. A estratégia de sustentabilidade da companhia se estrutura em quatro pilares principais:
Agricultura:empoderar e conectar agricultores, ajudando-os a performar bem através de práticas sustentáveis e agricultura regenerativa.
Embalagem circular:garantir que as embalagens sejam primárias, retornáveis ou produzidas majoritariamente com material reciclado.
Clima:usar 100% de eletricidade renovável e continuar descarbonizando todo o sistema produtivo, com meta de emissões líquidas zero até 2040.
Água:o pilar vital tem metas ambiciosas tanto de eficiência operacional quanto de recuperação de bacias hidrográficas, atrelado ao impacto social direto nos ecossistemas e regiões onde atua.
Recuperação de bacias hidrográficas
A empresa mapeou 11 bacias hidrográficas em áreas de alto estresse hídrico na América do Sul - sendo 7 delas no Brasil - e vem implementando programas de recuperação que vão muito além de garantir água para suas próprias operações. "É sobre levar vida para as comunidades", diz Baruque.
O principal exemplo é o "Bacias e Florestas", que existe há mais de 20 anos, e atua por meio de soluções baseadas na natureza para conservar e regenerar ecossistemas aquáticos.
Até agora, foram plantadas mais de 3 milhões de árvores nativas: o equivalente a cerca de 4.200 campos de futebol de área reflorestada.
A iniciativa é desenvolvida em parceria com organizações ambientais como WWF, The Nature Conservancy (TNC), Fundação Avina e Embrapa. "Ninguém faz nada sozinho, né? Então, a gente tem que interagir com a rede", reconhece Baruque.
As sete bacias brasileiras recuperadas abastecem milhões de pessoas em suas respectivas regiões, incluindo áreas críticas como São Paulo. Para o executivo, o recado é claro: é preciso atuar de forma preventiva antes que as crises hídricas aconteçam, seja pela falta ou excesso da água.
++ Leia mais: Era da falência hídrica: como a água se tornou o ativo estratégico do Brasil
A recuperação gera outros benefícios ambientais: aumento significativo da biodiversidade nessas áreas, com o retorno de espécies que estavam extintas localmente. E isso, por sua vez, também interessa ao negócio da Ambev.
"Se eu não olhar para isso, não vou ter a variedade que eu preciso para fazer cervejas diferentes, com diferentes sabores e inovações", afirma Baruque. A diversidade de micro-organismos, de variedades de grãos e de outros elementos naturais é fonte para o desenvolvimento de novos produtos.
Quando vender cerveja financia acesso à água potável
Outro pilar da estratégia hídrica é o o projeto social Água AMA, desenvolvido em parceria com a ONG Iunos, se tornando o primeiro produto social da companhia. A marca de água mineral destina 100% dos lucros a projetos de acesso à água potável para populações vulneráveis.
A meta inicial era impactar 1 milhão de pessoas até 2025, mas superou as expectativas: já foram mais de 3 milhões de brasileiros beneficiados.
Os projetos financiados pela Água AMA vão desde soluções simples até infraestrutura robusta:
"É um projeto muito bonito que impacta a vida real das pessoas. Então, muito orgulho cada vez que a gente toma uma água AMA, com certeza tem alguém sendo ajudado por ela", afirma o VP.
Adaptação: desenvolvendo cevada frente ao clima extremo
As mudanças climáticas também estão alterando profundamente a estratégia agrícola e de pesquisa da Ambev, que precisou mudar seu foco.
Se antes o objetivo era simplesmente maximizar a produtividade em condições normais, agora é necessário desenvolver variedades resilientes a variações extremas de temperatura, períodos de seca mais intensos e eventos climáticos extremos.
A empresa também investe em pesquisas de geologia de aquíferos para entender melhor a dinâmica das bacias hidrográficas, como elas se conectam e como é possível extrair água de qualidade do solo sem comprometer o abastecimento das comunidades -- especialmente em cenários de maior escassez.
Nas enchentes históricas do Rio Grande do Sul, o impacto na operação no negócio foi sentido na pele. "É mais do que perdas do negócio. Quando comunidades perdem renda, infraestrutura e capacidade de consumo por conta de desastres climáticos, toda a cadeia econômica é afetada", reforça o VP.
Um futuro com "razões para brindar"
Para o VP, fazer com que os consumidores tenham acesso a água de qualidade, que vivam em comunidades prósperas e que tenham melhores condições de vida não é altruísmo - é sobre criar uma "arquitetura social que é boa para todo mundo", incluindo para a própria Ambev.
É garantir aquilo que a companhia chama de "futuro cheio de razões para brindar" , onde a natureza esteja preservada, as comunidades prosperem e a cerveja continue sendo feita com água de qualidade, grãos saudáveis e biodiversidade abundante.
Confira o videocast completo no Youtube:
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