Nem o churrasco escapou: crise do gado faz carne disparar nos EUA
Em meio à crise da carne bovina nos Estados Unidos, a Tyson Foods, uma das principais processadoras de proteína animal do país, avalia com cautela a recuperação do setor pecuário americano. Segundo a companhia, os esforços para recompor o rebanho seguem de forma “irregular”, informou a Reuters.
Para Curt Calaway, diretor financeiro da Tyson Foods, os baixos estoques de animais elevaram os preços da carne bovina a níveis recordes. "Ainda assim, conseguiremos lidar com a escassez de gado”, disse o executivo em evento em Nova York.
A crise enfrentada pelos pecuaristas americanos se intensificou nos últimos cinco anos. O setor atravessa uma fase de contração do ciclo pecuário, marcada pela redução do rebanho e pela menor oferta de animais para confinamento.
Desde 2019, o número de cabeças de gado de corte caiu 13%, para 27,9 milhões. O rebanho total de bovinos dos Estados Unidos atingiu o menor nível desde 1952, segundo dados do Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).
A seca prolongada no oeste americano agravou o cenário ao elevar os custos com ração e reduzir áreas de pastagem, levando produtores a liquidar parte dos rebanhos para preservar caixa.
Em 2025, a produção americana de carne bovina recuou 4% em relação ao ano anterior, para 11,8 milhões de toneladas. Com isso, os Estados Unidos perderam para o Brasil a liderança global na produção da proteína.
A combinação entre seca, custos elevados e redução do rebanho criou um dos cenários mais desafiadores para a pecuária americana nas últimas décadas.
No outono passado, o USDA lançou um plano para apoiar pecuaristas na expansão dos rebanhos, incluindo medidas para ampliar o acesso a áreas de pastagem.
Ainda assim, muitos produtores seguem optando por vender os animais para abate, em vez de mantê-los para reprodução, diante dos altos custos dos insumos e da persistência das condições climáticas adversas.
Mesmo com sinais recentes de recomposição, a recuperação do rebanho bovino americano deve ser gradual. O ciclo pecuário exige tempo: entre o nascimento do bezerro e o abate, o processo pode levar de dois a três anos.
O presidente Donald Trump avalia possíveis medidas executivas para reduzir tarifas de importação de carne bovina e flexibilizar regulações sobre os produtores. O objetivo é conter a alta dos preços da proteína no mercado interno.
Embora produtos como ovos, leite e outros itens básicos tenham registrado queda desde o início do novo mandato de Trump, em janeiro de 2025, a carne bovina continua pressionando o bolso do consumidor americano.
Segundo o USDA, os preços da proteína estão mais de 16% acima do registrado no ano anterior, tornando-se um dos principais símbolos da inflação persistente nos Estados Unidos, especialmente às vésperas da temporada de churrascos de verão.
Crise da carne nos EUA
O setor está pouco otimista. A oferta de gado deve continuar restrita entre 2026 e 2027, afirmou Calaway.
O ambiente de oferta restrita e margens pressionadas também tem provocado reestruturações na indústria frigorífica.
Em fevereiro, a Cargill anunciou o fechamento definitivo de sua fábrica de processamento de carne bovina em Milwaukee, Wisconsin, com a eliminação de 221 empregos — a unidade interrompe a produção em meados de abril e encerra as atividades no fim de maio.
A decisão se soma a movimentos recentes de concorrentes. Em dezembro de 2025, a JBS Foods, braço americano da brasileira JBS, informou o encerramento permanente de uma unidade nos arredores de Los Angeles.
Antes disso, a Tyson Foods fechou uma fábrica em Nebraska, citando dificuldades no abastecimento de gado.
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