No Brazil at Silicon Valley, brasileiros defendem protagonismo na corrida global por IA
Por Rodrigo Lóssio*
Em meio à corrida global por inteligência artificial, o Brazil at Silicon Valley deste ano reforçou uma mudança de posicionamento do ecossistema brasileiro: deixar de ser apenas consumidor de tecnologia para disputar espaço na sua construção.
O evento, realizado na Califórnia, reúne anualmente empreendedores, investidores e executivos para conectar o Brasil ao Vale do Silício — e acontece em um momento em que capital, infraestrutura e desenvolvimento de IA voltam a se concentrar nos Estados Unidos e na China.
Fundadores brasileiros ganham protagonismo global
Logo na abertura, dois dos principais destaques do dia sintetizaram esse novo momento. Pedro Franceschi, cofundador e CEO da Brex, trouxe uma visão direta sobre o impacto da IA nas empresas, afirmando que a tecnologia não deve ser tratada como uma camada adicional, mas como base para reconstrução completa de produtos e organizações.
Para Franceschi, as empresas estão sendo reescritas com IA no centro e a mudança exige repensar desde a estrutura dos times até a forma como o software é distribuído.
A mesma ambição apareceu na fala de Luana Lopes Lara, cofundadora da Kalshi, plataforma regulada de mercados preditivos nos Estados Unidos. Ao revisitar a trajetória da empresa, Luana destacou o peso de construir em ambientes regulatórios complexos e a necessidade de consistência ao longo do tempo.
Sua presença no palco reforça o movimento de brasileiros que optam por competir diretamente em mercados globais desde o início.
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Ao longo do dia, essa leitura foi reforçada por outros fundadores. Fernando Gadotti, cofundador e CEO da Tako, defendeu que a complexidade brasileira pode ser uma vantagem competitiva. “Se você consegue construir no Brasil, consegue construir em qualquer lugar”, afirmou.
A empresa anunciou no evento o lançamento da Tako Legal, voltada à gestão de litígios trabalhistas, um problema estrutural no país.
A discussão também foi contextualizada por Linda Rottenberg, cofundadora e CEO da Endeavor, que relembrou a evolução do empreendedorismo na América Latina nas últimas décadas. Ao revisitar o início da atuação da organização na região, ela destacou que, nos anos 1990, ainda faltavam capital, referências e até linguagem para descrever o que hoje é um ecossistema consolidado.
Segundo Linda, embora o fluxo global de venture capital tenha se descentralizado ao longo do tempo, a ascensão da inteligência artificial voltou a concentrar investimentos em polos como Estados Unidos e China, o que torna ainda mais relevante o surgimento de empresas globais fora desses centros.
Para ela, o próximo ciclo deve ser marcado por “empresas globais com alma brasileira”, capazes de combinar ambição internacional com a experiência de operar em ambientes complexos.
IA desloca valor para dados e execução
As discussões mais técnicas apontaram para uma mudança na lógica de competição entre startups. Wei Xiao, diretora de developer relations da Nvidia, afirmou que a empresa deve ser entendida como uma plataforma de infraestrutura de IA, que vai além dos chips e atua em toda a cadeia — de hardware a modelos e aplicações.
Já Bianca Martinelli, general partner da Alexia Ventures, destacou que o Brasil tem uma oportunidade relevante na camada de aplicação. Segundo ela, os fundadores brasileiros estão construindo ao mesmo tempo que os do Vale do Silício, o que reduz a defasagem histórica do país.
A convergência entre os painelistas foi clara: com a popularização dos modelos, o diferencial competitivo se desloca. “O modelo não é o diferencial; o diferencial é o dado”, afirmou Wei. Nesse contexto, entender profundamente o problema, dominar dados proprietários e executar com eficiência passam a ser fatores centrais para a construção de empresas relevantes.
Apesar do otimismo, os desafios permanecem. A limitação de acesso a infraestrutura computacional e a menor disponibilidade de capital para growth e deep tech ainda são barreiras para a consolidação de um ecossistema mais robusto.
Tecnologia amplia capacidade — e exige responsabilidade
O impacto da tecnologia para além dos negócios também entrou na discussão. Leonardo Bursztyn, cofundador da Nomo e professor de economia da University of Chicago, trouxe uma perspectiva comportamental ao debate, argumentando que a tecnologia pode tanto melhorar quanto prejudicar a experiência humana.
A Nomo desenvolve soluções para reduzir o uso excessivo de redes sociais, e já registrou redução de mais de duas horas diárias no uso entre adolescentes em programas no Reino Unido. Para ele, o avanço da IA exige uma escolha de design. “A questão não é banir tecnologia, mas decidir como ela será usada”, disse.
Na mesma linha, Fernando Gadotti afirmou que a adoção de IA tende a ser mais eficaz quando amplia a capacidade humana, especialmente em tarefas cujo volume seria inviável sem automação.
Ao final do primeiro dia, a mensagem comum entre os participantes foi clara: o Brasil reúne talento, mercado e repertório para competir globalmente, mas precisa avançar na construção de tecnologia própria e na ambição de escala internacional.
Em um cenário em que a inteligência artificial redefine as bases da competição, o desafio deixou de ser acompanhar tendências — e passou a ser participar da sua criação.
*Rodrigo Lóssio é jornalista especializado em tecnologia e sócio-fundador da Dialetto Comunicação
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