No G7, Amodei e Hassabis pedem coalizão liderada pelos EUA — e Europa cobra soberania em IA

Por Tamires Vitorio 18 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
No G7, Amodei e Hassabis pedem coalizão liderada pelos EUA — e Europa cobra soberania em IA

O almoço de duas horas que reuniu os principais executivos de inteligência artificial do mundo com líderes do G7, na quarta-feira, 17, em Évian-les-Bains, não produziu nenhum anúncio regulatório, ou compromisso formal. Mas deixou claro algo que analistas já vinham apontando: o mapa de poder da IA de fronteira está, agora, visível — e ele passa direto pela mesa de chefes de Estado.

Segundo o Financial Times, Dario Amodei, da Anthropic, pediu aos líderes presentes que 'resistam à tentação de se fragmentar' nas abordagens regulatórias sobre IA, defendendo que países democráticos trabalhem juntos para impedir que atores mal-intencionados tenham acesso às ferramentas mais avançadas.

Sam Altman, da OpenAI — rival histórico de Amodei — apoiou o apelo à mesma mesa, dizendo que os países do G7 deveriam ter acesso a ferramentas de cibersegurança baseadas em IA.

Demis Hassabis, do Google DeepMind, também pediu colaboração. Segundo a CNBC, Amodei e Hassabis propuseram formalmente uma coalizão liderada pelos Estados Unidos para definir regras e padrões globais sobre inteligência artificial.

Uma conversa, não uma negociação

A leitura mais precisa do encontro, segundo a consultoria FourWeekMBA, é que se tratou de uma conversa, não uma negociação. Implantação segura, salvaguardas éticas e soberania tecnológica estiveram na mesa, e nada foi resolvido.

A ausência de qualquer comunicado conjunto ou compromisso vinculante é, em si, um dado relevante: a "cerca" geopolítica em torno da IA ainda está sendo desenhada, não fechada.

Jessica Brandt, do Council on Foreign Relations, resumiu à CNBC o que essa cena simboliza. Segundo ela, para fazer promessas críveis sobre IA, chefes de Estado agora precisam da cooperação — senão do aval — de um punhado de executivos do setor privado que efetivamente constroem a tecnologia.

É uma inversão de hierarquia que poucos setores conseguiram impor a uma cúpula do G7.

A Europa chega com agenda própria

O pedido de coalizão liderada pelos EUA encontrou um continente europeu mais desconfiado do que receptivo.

Segundo a Associated Press, europeus buscam controles sobre o domínio americano da IA, e chegaram ao almoço com uma agenda concreta de soberania, não apenas queixas genéricas.

O recall do Fable 5, determinado pelo próprio governo americano por motivos de segurança nacional, a decisão da França de afastar a Palantir de contratos públicos e a adoção do Mistral por servidores públicos franceses formaram o pano de fundo dessa postura.

Emerson Brooking, do Atlantic Council, disse que os controles de exportação americanos sobre os modelos da Anthropic "mudaram tudo".

G7 e IA: Donald Trump, Sam Altman e Demis Hassabis durante almoço com líderes do G7 em Évian (Julia Demaree Nikhinson / POOL / AFP/AFP)

Vários países do G7 já vinham sinalizando a necessidade de investimento soberano em IA, mas sempre partindo do pressuposto de que isso conviveria com acesso à tecnologia americana. Essa suposição, segundo Brooking, não é mais garantida.

Emmanuel Macron, anfitrião do encontro, foi direto sobre o episódio que motivou parte da tensão.

Segundo o FT, o presidente francês disse que a ação do governo Trump contra a Anthropic "esclareceu o que está em jogo" e alertou que os principais desenvolvedores de IA poderiam sofrer se o governo "de um dia para o outro puder desligar a chave", em referência direta à suspensão do Fable 5 e do Mythos 5 dias antes do G7.

A administração Trump agiu depois de receber informações do CEO da Amazon, Andy Jassy, e de outras fontes, sugerindo que os modelos avançados da Anthropic tinham falhas que poderiam comprometer a segurança nacional, versão que a própria Anthropic considera exagerada, mas que motivou o desligamento total dos modelos para cumprir os controles de exportação.

O pano de fundo: ciberameaças e o "ponto de inflexão"

Parte da urgência do encontro tem origem técnica.

Anúncios recentes de modelos de IA com capacidades cibernéticas avançadas — incluindo o próprio Mythos, da Anthropic, e o GPT-5.5 Cyber, da OpenAI — geraram uma onda de preocupação entre empresas e governos sobre vulnerabilidades digitais.

Cameron Kerry, da Brookings Institution, descreveu o lançamento do Mythos como um "ponto de inflexão" no desenvolvimento de IA, que levou o governo Trump a considerar regulação mais dura sobre a tecnologia, a mesma lógica que, dias antes do G7, resultou na suspensão do acesso de estrangeiros aos modelos mais avançados da Anthropic.

O que fica desse encontro

Nenhuma das partes saiu do almoço com vitória clara.

Os laboratórios de IA conseguiram, pela primeira vez, sentar formalmente à mesa de chefes de Estado numa cúpula do G7 — um ganho simbólico e de acesso político relevante.

Mas não conseguiram arrancar nem uma coalizão formal liderada pelos EUA, nem qualquer sinal de que a Europa vai abandonar sua busca por independência tecnológica.

O que existe, por ora, é um mapa de tensões mais nítido.

Estados Unidos tentando consolidar liderança e ao mesmo tempo restringindo o que suas próprias empresas podem exportar; Europa pressionando por soberania concreta, não apenas retórica; e os CEOs de IA, no meio disso tudo, defendendo cooperação internacional enquanto operam sob as mesmas restrições que motivam a desconfiança europeia.

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