Nova NR-1 muda regra nas empresas, mas não paga a conta de quem quer sair de ambientes tóxicos
Desde 26 de maio, a saúde mental deixou de ser apenas um tema de bem-estar corporativo e passou a integrar oficialmente a agenda de segurança do trabalho no Brasil. Com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), as empresas passaram a ser obrigadas a identificar, prevenir e tratar riscos psicossociais, como estresse excessivo, assédio moral e burnout, sob pena de fiscalização e multas.
A mudança ocorre em um momento de agravamento do adoecimento mental no país. Apenas em 2025, o Brasil registrou mais de 546 mil afastamentos do trabalho por transtornos como ansiedade, depressão e burnout, uma alta de 15,6% em relação ao ano anterior, segundo dados da Previdência Social. O impacto para os cofres públicos chegou perto de R$ 1 bilhão em gastos do INSS.
"O avanço dos afastamentos por transtornos psicológicos tornou inevitável a ampliação do conceito de segurança no trabalho", afirma Yara Leal Girasole, advogada trabalhista. "A NR-1 é, hoje, uma resposta de socorro para um cenário de adoecimento coletivo, principalmente ligado à saúde mental."
Yara Leal Girasole, advogada trabalhista (Yara Leal/Divulgação)
Para especialistas, porém, a nova regulamentação é apenas o começo de uma transformação que ainda exigirá mudanças profundas na cultura corporativa.
Para o consultor britânico Scott Chambers, que há mais de 30 anos atua com equipes executivas e programas de liderança em diferentes países e foi aluno de Amy Edmondson, professora da Harvard Business School e uma das maiores referências mundiais em segurança psicológica, existe o risco de que a nova exigência se transforme em uma simples obrigação burocrática.
"A direção é boa, mas o Brasil não está preparado. O risco é que a norma vire um checklist burocrático. As empresas vão correr para cumprir os requisitos, oferecer treinamentos rápidos e achar que fizeram sua parte. Mas segurança psicológica não se cria com palestra, se cria com comportamento", afirma Chambers, em entrevista exclusiva à EXAME.
Scott Chambers, consultor britânico (Scott Chambers/Divulgação)
Na avaliação do especialista, construir ambientes seguros depende menos de políticas escritas e mais da forma como líderes conduzem equipes, recebem críticas, lidam com erros e incentivam o diálogo.
Mas existe uma parte dessa discussão que a legislação não alcança: a situação financeira do trabalhador.
Quando sair do emprego vira um privilégio
A NR-1 estabelece deveres para as empresas. Já para quem trabalha, a possibilidade de deixar um ambiente que prejudica a saúde mental continua, muitas vezes, limitada pela necessidade de pagar as contas.
Para o educador financeiro e investidor Leandro Varges, a falta de uma reserva financeira faz com que muitos profissionais permaneçam em empregos que já reconhecem como nocivos.
"A lei pode obrigar a empresa a cuidar do ambiente, e isso é ótimo. Mas ela não coloca dinheiro na conta de quem trabalha. Quem não tem reserva continua refém, porque pedir demissão de um lugar que adoece vira um luxo que a pessoa não pode pagar", afirma.
Filho de pai taxista, porteiro e mecânico autônomo e de mãe manicure e dona de casa, Varges cresceu em uma família de baixa renda e construiu patrimônio ao longo da carreira como investidor e educador financeiro. Hoje, dedica parte do seu trabalho a programas de educação financeira em empresas.
Para ele, a independência financeira é também uma ferramenta de proteção da saúde mental.
Leandro Varges, educador financeiro e investidor (Leandro Varges /Divulgação)
A dependência do salário
Os números ajudam a explicar o tamanho do problema.
Uma pesquisa da fintech ‘meutudo’ mostra que 58% dos trabalhadores brasileiros já permaneceram em um emprego por medo de pedir demissão. Além disso, 23% apontam ambientes tóxicos ou ruins como um dos motivos para desejar sair da empresa.
O levantamento revela ainda que 36% acreditam que o ideal seria conseguir outro emprego antes de pedir desligamento, enquanto 35% consideram essencial ter uma reserva financeira.
Na prática, porém, poucos conseguem alcançar essa condição. Segundo a pesquisa, 67% dos brasileiros não conseguiriam se manter financeiramente caso fossem demitidos hoje.
Sem um colchão financeiro, continuar em um ambiente que faz mal acaba parecendo uma alternativa menos arriscada do que enfrentar a incerteza do desemprego.
"A pessoa não fica porque quer. Ela fica porque não vê outra saída", afirma Varges.
O custo de permanecer
Permanecer em um ambiente tóxico nunca foi saudável. A diferença é que agora esse impacto está documentado em escala nacional.
Os transtornos mentais já figuram entre as principais causas de afastamento do trabalho no país, enquanto os casos de burnout cresceram de forma acelerada nos últimos anos. A consequência se espalha por diferentes esferas: trabalhadores adoecem, empresas enfrentam perdas de produtividade e processos trabalhistas, e a Previdência arca com bilhões em benefícios.
Para a advogada Girasole, a tendência é que a NR-1 leve as empresas a olhar para fatores que durante muito tempo foram tratados como problemas individuais.
"A saúde mental passa a integrar a gestão de riscos das organizações. O empregador não pode mais ignorar situações que favoreçam o adoecimento psicológico dos trabalhadores", afirma.
Scott concorda que a regulamentação representa um avanço, mas alerta que a transformação dependerá da qualidade da liderança.
"Se as pessoas têm medo de falar, de errar ou de discordar do chefe, não existe segurança psicológica. E sem segurança psicológica não existe inovação, aprendizado nem equipes saudáveis", afirma.
Reserva financeira também é uma questão de carreira
Varges ressalta que a responsabilidade pela construção de ambientes saudáveis continua sendo das empresas. A reserva financeira não substitui esse dever.
Ainda assim, ela pode representar uma camada adicional de proteção para o trabalhador.
"Quando você não tem reserva, você não escolhe, você aceita. Mais da metade das pessoas já ficou em um emprego por medo de sair, e muita gente continua em lugares que adoecem porque a conta do mês não deixa espaço para dizer não. Independência financeira é isso: liberdade de escolha", diz Varges.
Na visão do educador financeiro, construir patrimônio não está relacionado apenas ao acúmulo de riqueza, mas à capacidade de tomar decisões alinhadas aos próprios valores.
"Construir patrimônio não é sobre ostentação, é sobre ter opção. Dinheiro guardado compra a coisa mais valiosa de uma carreira, que é poder dizer não e escolher uma empresa alinhada ao seu propósito, em vez de ficar refém de qualquer lugar só pela necessidade."
A nova NR-1 inaugura uma fase em que as empresas passam a responder de forma mais direta pela saúde mental de seus funcionários. Mas, enquanto a cultura corporativa evolui e as organizações aprendem a colocar a segurança psicológica em prática, milhões de brasileiros ainda enfrentam um dilema silencioso: o de ter dinheiro suficiente para conseguir recomeçar.
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