'Nunca comprei roupas na Argentina', diz ministro da Economia de Milei

Por Matheus Gonçalves 4 de Fevereiro de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Nunca comprei roupas na Argentina', diz ministro da Economia de Milei

Nessa segunda-feira, 2, o ministro argentino da Economia, Luis Caputo, disse em uma entrevista que nunca comprou roupas na Argentina, porque as considerava caras.

Nunca comprei roupas na Argentina em toda a minha vida porque era um roubo”, disse. Ele acrescentou que aqueles com “condições para viajar ou algo assim” compravam suas roupas no exterior.

Durante a entrevista, dada à Rádio Mitre, ele defendeu as políticas do presidente Javier Milei e criticou os altos preços da indústria têxtil e os empresários do setor.

"Conheço a maioria deles. São boas pessoas; gosto muito deles, mas quem não viaja de primeira classe não é porque vai de econômica, e sim porque tem avião privado.”

O setor têxtil na Argentina, devido à grande quantidade de famílias – cerca de 150 mil – que emprega, é “emblemático” e foi “protegido durante muitos anos”, disse Caputo. “Mas existem 47 milhões de argentinos que, durante 40 anos, pagaram duas, três, quatro e até 10 vezes o valor dos têxteis e calçados do mundo para proteger isso.”

"Vamos concordar que as 150 mil famílias que trabalharam nisso não são exatamente milionárias e deram um impulso impressionante ao país; quem se beneficiou foram os proprietários."

Caputo julga a política estatal de protecionismo dessa indústria como “uma medida insensata”, pois prejudica “aqueles que menos têm”.

O ministro afirmou que a Argentina é um país capaz de competir no setor têxtil, mas, em questão de roupas prontas, “é mais difícil”: "Vocês estão competindo com Bangladesh, Indonésia e outros países que praticamente não pagam nada aos seus trabalhadores, o que torna muito difícil a competição para todos os países", disse ele.

"Outros vão competir em design. Mas, em termos gerais, estamos aqui para defender os 47,5 milhões de argentinos", disse.

"Esses são os famosos mitos que empobreceram todos os argentinos com a história de que quem perde o emprego... Precisamos criar empregos para que quem perde o emprego possa encontrá-lo. Essa é a questão. Isso acontece em todos os países. O problema não é perder o emprego, é não conseguir encontrar um", afirmou.

Setor têxtil em crise na Argentina

Desde que o presidente Milei retirou restrições sobre plataformas de compra online, como as varejadoras chinesas Shein e Temu, conhecidas por venderem produtos importados a preços baixos, o setor têxtil do país foi duramente atingido.

Por mais que esses meios ofereçam roupas novas a preços acessíveis para os argentinos – equivalentes a um terço dos preços médios em lojas e shoppings, segundo o jornal argentino Buenos Aires Herald.

Um estudo publicado pela organização sem fins lucrativos de pesquisa da indústria têxtil Fundacíon Pro Tejer estima que 381 empresas no setor foram fechadas entre dezembro de 2023 e junho de 2024, durante os primeiros meses do mandato de Milei, resultando na perda de 11,500 empregos registrados. Esses números não contam a perda de empregos informais.

Por mais que a crise tenha afetado produtores pequenos e médios com mais força, grandes firmas também foram afetadas. Segundo a Câmara Argentina de Produtores de Roupas (CIAI), a indústria está perdendo 1,500 empregos por semana. O órgão também reporta que compras em plataformas de e-commerce internacionais aumentaram em 390% entre 2024 e 2025.

Enquanto isso, nos primeiros 8 meses do ano passado, estima o veículo, turistas argentinos teriam gastado estimadamente US$ 2.2 bilhões em roupas no exterior, um aumento de 111% em relação ao ano anterior e o mais alto desde 2017.

Luciano Galfione, presidente da firma de têxteis Unifiber e da ONG Pro Tejer, disse que vestimentas não são a única coisa cara na Argentina, mas que tudo é.

Galfione culpa o chamado “custo Argentino” – uma mistura de taxas, impostos e aluguéis – pelos preços altos. De acordo com sua firma Pro Tejer, impostos ditam até 50% do preço de uma peça de roupa; aluguel de espaços para a venda adiciona 13%, e taxas bancárias, outros 12%. Menos de 10% do preço final de um produto reflete o custo de produção.

Segundo Galfione, é aí que empresas de e-commerce como a Shein, que não têm que arcar com esses custos, ganham uma vantagem injusta. “Quando reduzimos as tarifas, estamos concedendo isenções fiscais a produtores chineses a 20.000 quilômetros de distância”, disse ao Buenos Aires Herald.

“Esses produtos mal duram três usos. Na terceira lavagem, já são lixo, e é muito mais caro gerenciar o lixo têxtil do que importar o item”, disse Galfione. “Alguns podem até prejudicar a pele. Regular a produção deles deveria ser óbvio. E com as reservas cambiais limitadas da Argentina, importar essas coisas é um desperdício.”

Mesmo sem incluir o e-commerce, o bom cenário tarifário da Argentina fez com que a importação de roupas para o país tenha aumentado em 109% entre janeiro e agosto de 2025. O Pro Tajer estima que 70% das roupas vendidas na Argentina hoje são importadas. Mas a abundância na oferta de produtos não resultou em uma queda de preços: “Você consegue comprar um jeans de marca por US$ 20 em um shopping de Miami. Agora que a maioria dos jeans aqui são importados, os preços caíram para US$ 20? Não”, disse Galfione.

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