Nvidia projeta US$ 20 bilhões em CPUs em 2026 — 19% a mais do que a Intel faturou em 2025
Por décadas, o mercado de processadores centrais para servidores (os CPUs que orquestram todo o tráfego de dados dentro de um data center) foi um duopólio pacífico entre Intel e AMD.
A Nvidia não participava. Fabricava GPUs, os chips de processamento paralelo que se tornaram o coração da infraestrutura de inteligência artificial — CPUs eram problema dos outros. Em 2026, o retrato é bastante diferente.
A Intel faturou US$ 16,8 bilhões com seu segmento de Data Center e IA em todo o ano de 2025, segundo relatório enviado à Comissão de Valores Mobiliários dos Estados Unidos (SEC, na sigla em inglês).
A AMD faturou aproximadamente US$ 16,9 bilhões no mesmo segmento, que inclui tanto CPUs EPYC quanto GPUs Instinct, sem separação entre os dois.
Agora, a Nvidia projeta alcançar quase US$ 20 bilhões em receita de CPUs neste ano, impulsionada pelo Vera. Essa cifra, se confirmada, superaria a receita anual de Data Center e IA da Intel em 2025.
Na teleconferência de resultados desta quarta-feira, 20, a CFO Colette Kress afirmou que a empresa tem visibilidade de quase US$ 20 bilhões em receita de CPUs autônomos só em 2026, com todos os grandes hiperescaladores e fabricantes de sistemas como parceiros para o lançamento.
"A Nvidia está mirando se tornar a maior fornecedora de CPUs do mundo", disse Kress, segundo a CNBC.
O chip que ninguém esperava
O Vera é o novo CPU da Nvidia, anunciado em março de 2025 e apresentado publicamente na conferência GTC em março de 2026.
Foi construído especificamente para cargas de trabalho de IA agêntica, o tipo de IA que age de forma autônoma, navegando na web, organizando arquivos, gerenciando fluxos de trabalho e controlando robôs.
É diferente do que GPUs fazem: enquanto a GPU processa o modelo de IA em paralelo, a CPU orquestra o agente que usa esse modelo para tomar decisões.
"Vamos precisar de muito mais CPUs", disse Jensen Huang na teleconferência. "E o Vera foi projetado para ser um CPU agêntico."
O chip é construído sobre núcleos ARM customizados e co-desenvolvido com as GPUs Rubin e a arquitetura NVLink da Nvidia.
Segundo a empresa, entrega desempenho até 1,5 vez mais rápido por núcleo, duas vezes mais desempenho por watt e quatro vezes mais densidade por rack em comparação com alternativas baseadas em x86 — a arquitetura dominante da Intel e AMD, segundo o WCCFTech.
O Vera pode ser comprado de forma autônoma ou integrado aos racks Rubin, que combinam dois chips Vera conectados a quatro GPUs. A Nvidia também mantém racks de entrada com CPUs Intel Xeon para clientes que ainda preferem a arquitetura x86.
A Intel na defensiva
A história recente da Intel é, ela mesma, um retrato do que acontece quando uma empresa domina um mercado por décadas e perde o momento da virada.
No pico, em 2021, o segmento de Data Center da Intel gerava US$ 25,8 bilhões por ano — mais do que o dobro da receita de data centers da Nvidia no mesmo período, que foi de US$ 10,6 bilhões.
Anos depois, a empresa não conseguiu acompanhar a transição de data centers tradicionais baseados em CPUs para infraestrutura de IA baseada em GPUs.
Chegou a anunciar uma meta de US$ 500 milhões em receita de aceleradores de IA para 2024 e a abandonou publicamente, citando uma transição de plataforma de software.
O período foi marcado por prejuízos bilionários, demissões em massa e a substituição do CEO. Lip-Bu Tan assumiu o cargo em março de 2025 com a missão de reconstruir a empresa.
A resposta estratégica mais surpreendente veio em setembro de 2025: a Nvidia anunciou um acordo de colaboração com a Intel para desenvolver CPUs customizados para data centers e chips integrados para PCs — e investiu US$ 5 bilhões em ações da empresa, adquirindo aproximadamente 4% do capital, segundo comunicado oficial da Nvidia.
O acordo prevê que a Intel construa CPUs x86 customizados que a Nvidia integrará às suas plataformas de infraestrutura de IA usando a tecnologia de interconexão NVLink Fusion. Para PCs, a Intel desenvolverá chips com GPU chiplets da Nvidia integrados.
A lógica do acordo é dupla. Para a Intel, é um atalho para o mercado de computação em rack-scale, segmento em que a empresa tentou competir com o acelerador Gaudi sem sucesso.
Para a Nvidia, é acesso ao ecossistema x86 — a arquitetura que ainda domina a maior parte dos servidores corporativos do mundo — sem precisar abrir mão do Vera para clientes que preferem chips Intel.
A Nvidia mantém os dois: racks de entrada com CPUs Intel Xeon e racks de alta performance com o Vera.
Por que a IA agêntica muda tudo para o mercado de CPUs
O argumento de Huang para justificar US$ 200 bilhões em mercado endereçável — o TAM que a Nvidia estima para o Vera — parte de uma premissa simples: o mundo está migrando de bilhões de usuários humanos para bilhões de agentes de IA, e cada agente vai precisar de seu próprio ambiente de computação baseado em CPU.
"O mundo tem um bilhão de usuários humanos", disse Huang na teleconferência.
A implicação é que o próximo bilhão de "usuários" serão agentes digitais autônomos e cada um deles vai demandar infraestrutura.
O Bank of America projeta que o mercado global de CPUs para servidores pode chegar a US$ 125 bilhões até 2030, segundo relatório publicado neste mês.
A estratégia já tem validação de mercado. Em fevereiro de 2026, a Nvidia fechou com a Meta o maior contrato de CPUs autônomos da história — implantação em larga escala do chip Grace, antecessor do Vera, nos data centers da empresa.
CPUs da Nvidia também alimentam supercomputadores no Texas Advanced Computing Center e no Laboratório Nacional de Los Alamos.
Intel e AMD na defensiva
A Intel e a AMD continuam sendo os líderes absolutos do mercado de CPUs para data centers — por enquanto.
Mas o contexto mudou. A Intel viu suas ações dispararem 222% no acumulado do ano graças ao aumento da demanda por CPUs impulsionada pela IA agêntica, ao mesmo tempo em que luta com restrições de oferta que impedem a empresa de atender à demanda existente, segundo o Yahoo Finance.
A AMD também registrou crescimento acelerado: seus CPUs EPYC e GPUs Instinct ajudaram a empresa a crescer 57% em receita ano a ano, chegando a US$ 5,8 bilhões no último trimestre.
O paradoxo é que o crescimento da demanda por CPUs, impulsionado exatamente pela IA que a Nvidia domina com suas GPUs, está beneficiando Intel e AMD no curto prazo, enquanto a Nvidia constrói sua posição para capturar esse mercado no médio prazo com o Vera.
A Intel ainda lidera o mercado de CPUs para servidores, com 53,8% de participação em receita no primeiro trimestre de 2026, segundo a Mercury Research, mas a AMD já chegou a 46,2%, ambas pressionadas pela entrada da Nvidia e pela ascensão da arquitetura ARM.
Para analistas, CPUs estão se tornando o gargalo para o crescimento da IA agêntica.
O Vera foi construído para resolver exatamente esse gargalo — e a Nvidia está apostando que o mercado vai concordar.
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