O alto custo do medo: ignorar stablecoin no câmbio custa caro

Por Da Redação 10 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O alto custo do medo: ignorar stablecoin no câmbio custa caro

Por Nicolás Alonso e Evandro Caciano dos Santos*

Por muito tempo, empresas brasileiras e instituições financeiras se apoiaram em incertezas regulatórias e receios operacionais para justificar a não adoção de alternativas mais eficientes em pagamentos internacionais. No entanto, a maturidade do ecossistema e o avanço institucional e regulatório transformaram esse cenário.

A tecnologia blockchain e as stablecoins, ativos digitais atrelados ao valor de ativos físicos e fortes, como o dólar, se consolidaram como tecnologia com alta segurança e eficiência e passaram a representar uma solução concreta para redução de custos e ganho de velocidade. Ignorar essa realidade, neste momento, deixa de ser cautela e passa a representar um risco estratégico e competitivo.

Os números mais recentes ajudam a dimensionar essa transformação. Segundo levantamento da TRM Labs, as stablecoins movimentaram cerca de US$ 4 trilhões apenas entre janeiro e julho de 2025, um crescimento de 83% em relação ao mesmo período do ano anterior. Esse volume representa aproximadamente 30% de toda a atividade onchain global e, diferentemente do mito de insegurança que assombra o setor, 99% dessas transações são consideradas lícitas.

O Brasil tem uma posição de destaque no cenário global e já aparece como um dos cinco maiores mercados em adoção. Segundo a Receita Federal Brasileira, as stablecoins já representam 90% das transações de cripto no Brasil. Na prática, isso indica que o uso desses ativos já ultrapassou o campo experimental. Trata-se de infraestrutura financeira em operação, com escala, recorrência e casos reais.

No comércio exterior, o descompasso é evidente. Presas a modelos tradicionais caros e lentos, instituições financeiras e importadoras acabam repassando altos custos operacionais e taxas de IOF aos seus clientes, simplesmente por desconhecerem a eficiência e a legitimidade das stablecoins em operações de câmbio.

Parte dessa resistência decorre de interpretações equivocadas sobre exigências regulatórias. Ainda persiste, por exemplo, a percepção de que contratos de câmbio são indispensáveis para o desembaraço aduaneiro, quando, na prática, a exigência central é a comprovação do pagamento.

O Banco Central já se manifestou sobre o uso de ativos digitais em operações dessa natureza, oferecendo diretrizes que permitem sua utilização dentro de estruturas regulatórias adequadas. O Brasil, ao contrário de outros mercados, caminha para uma clareza regulatória que é referência global, reduzindo o abismo entre o sistema financeiro tradicional e a economia digital. Ainda assim, a adoção segue aquém do potencial, em grande medida por desconhecimento ou excesso de cautela.

Para as instituições financeiras, esse cenário traz implicações relevantes. Ao não incorporarem alternativas baseadas em stablecoins em seus portfólios, correm o risco de não atender uma demanda crescente por eficiência e abrem espaço para novos entrantes. Fintechs e plataformas internacionais já avançam nesse território, oferecendo soluções mais rápidas e, em muitos casos, mais competitivas.

Do lado das empresas, o impacto é direto sobre a competitividade. Em um ambiente global pressionado por margens e custos, deixar de explorar instrumentos legais e mais eficientes equivale a aceitar desvantagens evitáveis. O debate, portanto, desloca-se da viabilidade para a postura estratégica.

A tecnologia está disponível, o direcionamento regulatório é claro e os casos práticos de aplicação são sólidos. O principal entrave já não é técnico, mas sim a hesitação que é alimentada por um medo que, na prática, traduz-se em desvantagem competitiva.

Este movimento tende a ser implacável. À medida que mais empresas adotam stablecoins para reduzir custos e oferecer serviços superiores aos seus clientes, a régua de eficiência do mercado sobe. Nesse cenário, a resistência à mudança deixa de ser uma cautela prudente para se tornar um risco existencial.

A discussão já não gira em torno do “se”, mas da agilidade em se adaptar: nos próximos anos, a abertura para o novo definirá quais negócios prosperarão e quais serão silenciados pela própria inércia. O momento de escolher entre a evolução e o medo já chegou.

*Nicolás Alonso é Country Manager da Bitso no Brasil e Evandro Caciano dos Santos é Head de Serviços Financeiros na LogComex.

Siga o Future of Money nas redes sociais: Instagram | X | YouTube |  Tik Tok

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: