O brasileiro que foi campeão da Copa com a Itália durante o maior jejum do Brasil

Por Gabriella Brizotti 2 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O brasileiro que foi campeão da Copa com a Itália durante o maior jejum do Brasil

Da estreia da Copa do Mundo, em 1930, até o primeiro título brasileiro, em 1958, foram 28 anos de espera. Nenhum outro jejum da seleção durou tanto tempo. Caso o Brasil não conquiste o Mundial deste ano, o intervalo será igualado.

Mas um brasileiro passou ileso por esse período sem taças. Nascido em São Paulo, Amphilóquio Marques Guarisi, o Filó, conquistou a Copa do Mundo de 1934 vestindo a camisa da Itália. Filho de mãe italiana e pai português, o atacante escreveu uma história pouco conhecida que mistura futebol paulista, imigração europeia, política esportiva e até fascismo.

Filó começou a carreira na Portuguesa. A ligação com o clube vinha de casa: seu pai, Manuel Augusto Marques, foi o segundo presidente da história da Lusa. Depois de duas temporadas, o atacante seguiu para o Paulistano, onde dividiu campo com Arthur Friedenreich, considerado por muitos o primeiro grande craque do futebol brasileiro.

Ao lado de Friedenreich, conquistou três Campeonatos Paulistas e chegou a terminar uma edição como artilheiro, com 16 gols. O desempenho abriu portas para a seleção brasileira. Em 1925, Filó foi convocado e disputou cinco partidas pelo Brasil. Poucos anos depois, defenderia o Corinthians.

A briga política que afastou Filó da Copa de 1930

Filó tinha caminho aberto para disputar a primeira Copa do Mundo, no Uruguai, em 1930. Mas acabou fora por um motivo que não tinha relação com desempenho dentro de campo.

Naquele período, o futebol brasileiro vivia uma disputa entre a CBD, sediada no Rio de Janeiro, e a Associação Paulista de Esportes Atléticos (Apea). Após divergências sobre a composição da delegação brasileira, a entidade paulista retaliou e impediu a convocação de jogadores de clubes do estado.

O resultado foi imediato: atletas de Corinthians, Paulistano e outras equipes paulistas ficaram fora do Mundial inaugural.

Da “Brasilazio” ao título mundial com a Itália

No começo da década de 1930, Filó trocou o Brasil pela Itália após ser contratado pela Lazio. O clube romano estava numa fase curiosa: comandado pelo empresário Remo Zenobi, que tinha negócios no Brasil, acumulava tantos brasileiros no elenco que ganhou o apelido de “Brasilazio”.

Na Itália, Filó passou a ser conhecido como Guarisi. Graças à ascendência materna, tinha cidadania italiana e entrou no radar da seleção nacional.

A Copa de 1934, disputada em território italiano, tinha importância que ia muito além do esporte. O ditador Benito Mussolini enxergava o torneio como uma poderosa ferramenta de propaganda do regime fascista e queria transformar o sucesso em campo em símbolo político.

A Itália mobilizou torcedores, exerceu forte influência sobre a organização do torneio e reuniu um elenco recheado de jogadores naturalizados. Entre eles estava Filó, além do argentino Luis Monti, que se tornaria o único atleta a disputar finais de Copa por dois países diferentes: Argentina, em 1930, e Itália, em 1934.

Filó atuou em apenas uma partida naquele Mundial, a goleada por 7 a 1 sobre os Estados Unidos. Ainda assim, entrou para a história como campeão do mundo.

Naturalizados seguem em alta nas seleções

Quase um século depois, histórias como a de Filó se tornaram cada vez mais comuns no futebol internacional.

Para a Copa de 2026, a Fifa registrou crescimento no número de atletas interessados em representar outras seleções. As razões variam: maior chance de disputar um Mundial, ligação familiar com outro país ou desejo de atuar pela nação de origem após anos vivendo no exterior.

As regras atuais, formalizadas em 2020, são mais rígidas do que no passado. Hoje, um jogador pode mudar de seleção em circunstâncias específicas, mas não existe mais espaço para repetir trajetórias como a de Monti, que disputou finais de Copa por dois países diferentes.

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