O cenário eleitoral já pesa sobre juros, bolsa e dólar?

Por Rebecca Crepaldi 17 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O cenário eleitoral já pesa sobre juros, bolsa e dólar?

Em anos eleitorais, a volatilidade costuma ganhar força nos mercados — das ações ao câmbio, passando pelos juros. A lógica é conhecida: em meio à incerteza, investidores reduzem exposição a risco, o que pressiona a bolsa, enquanto buscam proteção em ativos considerados mais seguros, como o dólar. Nesse ambiente, também é comum ver a curva de juros abrir, indicando alta. A seis meses do pleito, no entanto, apenas a curva de juros caminha como o "esperado".

“A curva de juros, especialmente nos vencimentos longos, é onde o risco eleitoral aparece primeiro. Quando o mercado percebe maior risco fiscal futuro, as taxas longas sobem, mesmo que o Banco Central mantenha a política monetária no curto prazo”, diz Luciano Telo, executivo-chefe de investimentos (CIO) do UBS Wealth Management.

Já sinais de compromisso com responsabilidade fiscal achatam a curva, reduzindo prêmios de longo prazo.

Em outras palavras, será o risco fiscal que ditará como o cenário eleitoral se traduz nos preços dos ativos. Um governo comprometido com o controle de gastos tende a ancorar mais as expectativas de inflação, permitindo que o Banco Central baixe os juros.

Com a Selic mais baixa, o mercados de renda variável acaba se beneficiando, de acordo com Marco Mecchi, diretor de investimentos da Azimut Brasil Wealth Management.

"O efeito oposto também é verdadeiro. Caso o governo eleito não seja disciplinado fiscalmente, o câmbio acaba pressionado, as taxas de juros longas sobem e isso acarreta prejuízo nos preços das ações", afirma.

Nesta quinta-feira, 16, a taxa de juros para 2032 (DI futuro) estava em 13,50%. Desde o início do ano, as projeções do mercado para a Selic em 2026 subiram de 12% para 12,50%, segundo o Boletim Focus.

Contexto geopolítico também pesa

Para Mecchi, no entanto, a alta recente dos juros está mais ligada ao cenário global do que às eleições no Brasil. O choque geopolítico da guerra entre Estados Unidos, Israel e Irã elevou os preços de energia, pressionou a inflação e levou à reprecificação das taxas nas principais economias, movimento que acabou se refletindo também no mercado brasileiro.

“O componente eleitoral começa a ganhar relevância, mas ainda não é o principal driver das taxas. No caso da bolsa, os níveis mais elevados observados refletem, em grande medida, o ambiente externo que prevalecia antes da escalada do conflito — marcado por fluxos direcionados para mercados emergentes, beneficiados pela diversificação global de portfólios”, diz.

O Ibovespa já subiu mais de 20% no acumulado de 2026, impulsionado principalmente pelo fluxo estrangeiro. Só em março, segundo dados da B3, os investidores internacionais aportaram R$ 11,9 bilhões, maior volume para um mês de março desde 2022, quando o fluxo foi de R$ 21,4 bilhões. O movimento levou o Ibovespa a se aproximar, pela primeira vez, dos 200 mil pontos.

Segundo o diretor de investimentos da Azimut Brasil, esse cenário acabou favorecendo os ativos brasileiros, ainda mais com valuations atrativos. No curto prazo, o ambiente global segue predominante, enquanto o fator político deve ganhar mais peso conforme as eleições avançam — o que indica que a volatilidade tende a aumentar nos próximos meses.

Levantamento da consultoria Elos Ayta mostra que, em anos eleitorais, não há um padrão claro para o dólar, enquanto a bolsa tende a subir na maior parte dos casos.

“Entre o primeiro e o segundo turno, observa-se o movimento mais consistente do ciclo: a redução das incertezas leva, na maioria dos casos, à queda ou estabilização do dólar e à valorização do Ibovespa”, diz Einar Rivero, CEO da consultoria.

Para além da bolsa, o real também vive um bom momento. Nesta semana, o dólar rompeu a barreira dos R$ 5, fato que não acontecia há mais de dois anos. Mas tanto a bolsa em alta como o dólar em queda podem mudar caso as incertezas aumentem.

“Expectativas de maior gasto e deterioração fiscal tendem a pressionar juros e dólar para cima e reduzir múltiplos da bolsa, já um cenário de disciplina fiscal favorece queda de juros, apreciação cambial e expansão de valuation”, afirma Sidney Lima, analista da Ouro Preto Investimentos.

Na visão de Telo, a história mostra que eleições mexem com a percepção dos investidores e, mesmo em um ambiente global que tem sido favorável ao Brasil, a eleição tem o poder de mexer com as projeções e mudar o direcionamento dos preços dos ativos brasileiros, principalmente no câmbio e nos juros longos.

“O mercado procura identificar se a plataforma eleitoral que venha das urnas sinalizará compromisso com controle de gastos, previsibilidade orçamentária e regras fiscais críveis, o que ajudaria a reduzir o prêmio de risco. Isso favoreceria queda dos juros longos, apreciação do real e reprecificação positiva da bolsa”, conclui.

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