‘O colaborador não tem que voltar ao trabalho por obrigação. Ele tem que voltar por vontade própria’
Em algum momento do domingo, quase sempre no fim da tarde, o trabalho reaparece. Não na forma de tarefa ou reunião, mas como antecipação. É aquela frequente sensação de que a semana começou antes da hora.
Hilgo Gonçalves, embaixador do Great Place to Work (GPTW) no Brasil, defende que essa sensação é um diagnóstico claro de que a empresa falhou na sua missão de engajar funcionários. “O colaborador não tem que voltar ao trabalho por obrigação. Ele tem que querer voltar por vontade própria”, diz.
A percepção do executivo vai além de uma opinião pessoal. É resultado de uma longa convivência em ambientes de alta pressão, onde o desempenho não admite desvios prolongados. Gonçalves passou mais de 50 anos no mercado financeiro. Começou cedo, aos 15, como empacotador. Em 1975, já estava dentro de um banco. Vieram mais de duas décadas no Unibanco, depois 17 anos no HSBC, até a presidência da Losango, onde ficou até 2015.
Em todos esses anos, sua defesa se manteve a mesma: as pessoas precisam estar no centro dos negócios. “O segredo do sucesso é colocar as pessoas no centro, porque o principal ativo de uma empresa são as pessoas”, defende.
Hilgo Gonçalves: 50 anos depois, ele prova que aprender ainda é o melhor investimento (Arquivo Pessoal)
Hoje, fora da rotina executiva, ele observa o tema – que para ele existe há cinco décadas – ganhar mais espaço nas empresas. Mas Gonçalves pondera que ainda há um longo caminho a ser trilhado pelas organizações.
Um ciclo que sustenta o crescimento
Para Gonçalves, o desempenho de uma empresa começa dentro de casa.
Quando o colaborador trabalha em um ambiente melhor, ele se engaja mais. Com mais engajamento, a entrega para o cliente melhora. O atendimento deixa de ser tarefa e passa a gerar vínculo. O cliente volta, permanece e se torna fiel. O resultado financeiro aparece depois, como consequência desse processo.
Segundo ele, muitas empresas tentam fazer o caminho inverso: pressionam por resultados antes de cuidar das pessoas. O efeito até pode ser rápido, mas não dura. A pressão aumenta, o ambiente piora e o desempenho perde força com o tempo. “Primeiro as pessoas, depois os resultados”, resume.
Aprender de novo, aos 67
Depois de deixar a rotina executiva, Gonçalves manteve um traço que atravessa sua trajetória: disposição para recomeçar.
Recentemente, voltou à sala de aula para participar do PIACC, um programa de inteligência artificial da Saint Paul Escola de Negócios. O objetivo não era acompanhar a tendência, mas resolver um problema concreto. “Eu queria saber como poderia ser mais eficiente no que eu já faço”. revela.
O contato com as ferramentas reorganizou sua forma de lidar com informação. O volume de dados deixou de ser obstáculo e passou a ser matéria-prima. “Hoje nós temos muitos dados. E via que meu desafio era saber usá-los.”
No dia a dia, o impacto do programa aparece de forma prática. Menos tempo gasto em tarefas operacionais, mais clareza na organização de ideias, maior agilidade na tomada de decisão. “Diminuiu muito o tempo de trabalho manual.”
Após 50 anos de carreira, Hilgo se forma no PIAAC e mostra que aprender nunca sai de cena, nem no topo (Arquivo Pessoal)
O que ainda falta
O debate sobre pessoas avançou nas empresas brasileiras. Cultura deixou de ser um tema periférico e passou a ocupar espaço central na agenda executiva. Medir o clima, investir em desenvolvimento, discutir liderança se tornaram práticas comuns. A transformação, no entanto, ainda não é homogênea. Em muitos casos, o discurso convive com estruturas que pouco mudaram.
Gonçalves reconhece isso e, desde que deixou a vida executiva, passou a atuar como conselheiro, palestrante e embaixador do GPTW com o objetivo de influenciar lideranças e empresas a transformar esse discurso em prática.
A agenda inclui participação em conselhos, projetos de cultura organizacional e a difusão de um modelo que conecta ambiente interno e resultado de negócios. Mais do que defender uma ideia, ele busca sistematizá-la e replicá-la. No horizonte, o objetivo é escalar esse impacto.
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