O custo invisível que ainda encarece o crédito no Brasil e como a tokenização pode ajudar
Por Regina Pedroso*
O mercado de capitais brasileiro vive um momento histórico. Dados da Associação Brasileira das Entidades dos Mercados Financeiro e de Capitais (Anbima) mostram que o mercado de capitais brasileiro encerrou 2025 com R$ 838,8 bilhões em ofertas públicas, o maior volume já registrado no país. O crédito privado consolidou sua posição como uma das principais fontes de financiamento das empresas, impulsionado pelo crescimento de debêntures, FIDCs e outros instrumentos de dívida.
À primeira vista, esse cenário sugere um mercado mais maduro, eficiente e capaz de conectar capital a quem precisa investir e crescer. Mas, se o mercado cresceu tanto, por que o crédito continua caro? A resposta está em um componente pouco discutido, mas extremamente relevante para a formação dos spreads, o custo invisível da infraestrutura financeira.
Quando investidores analisam uma operação de crédito privado, é natural que associem a remuneração oferecida ao risco de inadimplência do tomador. Esse fator, evidentemente, continua sendo determinante. No entanto, uma parcela significativa do retorno exigido pelo mercado não está relacionada ao risco econômico em si, mas aos custos necessários para validar, monitorar, reconciliar e garantir a integridade das operações.
Os intermediários
Ao longo das últimas décadas, o mercado brasileiro construiu uma complexa arquitetura de intermediação para compensar assimetrias de informação. Originadores, estruturadores, registradores, administradores, gestores, auditores e distribuidores cumprem funções essenciais para assegurar confiança ao sistema. O problema é que cada camada adicionada também incorpora custo e complexidade.
Essa estrutura foi fundamental para o desenvolvimento do mercado e não deve ser vista como um problema em si. O desafio é reconhecer que ela nasceu em um contexto tecnológico diferente do atual.
Hoje, o Brasil possui condições de avançar para um novo estágio de eficiência e a transformação digital do sistema financeiro já produziu avanços importantes. O Pix revolucionou os pagamentos, o Open Finance ampliou o compartilhamento de dados e o Drex começou a desenhar uma nova infraestrutura para liquidação programável de ativos. Paralelamente, reguladores e entidades de mercado vêm discutindo formas de aumentar a padronização de informações e a interoperabilidade entre sistemas.
A solução blockchain
Nesse contexto, a tokenização surge como uma nova arquitetura operacional. Existe uma percepção equivocada de que tokenização está associada apenas ao universo das criptomoedas. Na realidade, seu principal potencial para o mercado financeiro está na capacidade de criar registros digitais auditáveis, automatizar processos e reduzir redundâncias operacionais.
Quando um ativo financeiro passa a operar em uma infraestrutura programável, eventos como liquidação, transferência de titularidade, execução de garantias e monitoramento de elegibilidade podem ocorrer de forma muito mais integrada. Isso não elimina riscos de crédito, mas reduz o custo gerado por controles repetidos, reconciliações manuais e fragmentação de informações.
Em um ambiente de juros elevados, as ineficiências estruturais tendem a ficar escondidas. A rentabilidade nominal elevada absorve custos que, em outras condições, seriam percebidos com mais clareza. Mas, à medida que o ciclo monetário evolui e os spreads passam a sofrer maior pressão competitiva, a eficiência operacional passa a ser requisito. É nesse ponto que o debate sobre infraestrutura financeira ganha relevância estratégica.
Se queremos ampliar a participação do crédito privado no financiamento da economia brasileira, precisamos discutir a forma como esse capital circula. A experiência internacional mostra que mercados mais profundos costumam apresentar menor fricção operacional e processos mais integrados. Isso contribui para reduzir custos sistêmicos e aumentar a capacidade de financiamento da economia real.
O Brasil possui todos os elementos necessários para avançar nessa direção: um regulador aberto à inovação, instituições financeiras sofisticadas, um ecossistema tecnológico em expansão e um mercado de capitais cada vez mais relevante. O próximo passo é transformar esses avanços em uma infraestrutura capaz de combinar inovação, segurança jurídica e eficiência operacional.
*Regina Pedroso é diretora executiva da ABToken
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