'O fim da taxa das blusinhas é a destruição do varejo nacional', diz fundador da Havan
Luciano Hang define em uma palavra a medida provisória assinada nesta terça-feira, 12, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, sobre o fim da taxa das blusinhas': "tsunami".
O fundador da Havan, rede de lojas de departamento com mais de 180 unidades no país, disse à EXAME que zerar o imposto de importação para compras de até 50 dólares feitas no exterior, sem oferecer contrapartida ao varejo brasileiro, pode acelerar falências e desemprego em um setor que já chega ao segundo trimestre de 2026 com rentabilidade pressionada.
"Saíram agora os balanços do primeiro trimestre das varejistas. O que não perdeu, ganhou pouco. A rentabilidade do varejo nacional está péssima, o que não falta é diariamente abrirmos os jornais e vermos a quebra do varejo brasileiro. Isso só vai agravar a situação difícil que estamos vivendo. É a destruição do varejo e da indústria nacional", afirma o empresário.
Hang argumenta que, no caso da persistência da medida provisória, uma nova MP, espelho da que acaba de ser assinada, mas voltada às empresas brasileiras, deve ser criada.
"Deveriam fazer uma medida provisória para também zerar impostos para empresas nacionais até 50 dólares. Não podemos exportar empregos, acabar com indústria e destruir o país", diz Hang.
A conta que Hang faz da concorrência
O fundador da Havan diz que a competição com plataformas asiáticas usa regras desiguais. Para ele, o custo de operar no Brasil torna inviável qualquer disputa de preço com produtos asiáticos que chegam ao consumidor sem passar por etapas obrigatórias da cadeia nacional.
"A taxa de juros é 1% lá fora, sem legislação trabalhista, não existe Inmetro. Por que as indústrias e varejo nacional são tão fiscalizados pelos institutos, e porque entram mais de 1 milhão de pacotes por dia no Brasil sem fiscalização nenhuma?", questiona o empresário.
Hang sustenta que o ticket médio de 50 dólares, estabelecido pela MP como teto da isenção, não atinge apenas categorias secundárias. "50 dólares é um tíquete médio de 90% do que se vende no Brasil", afirma.
Crítica ao apelido 'taxa das blusinhas'
Hang ataca o próprio nome popularizado para o tributo. Para ele, o apelido cumpriu uma função de comunicação que reduziu a percepção pública sobre o tamanho do que estava em disputa.
"Essa taxa da blusinha foi feita um marketing muito bem feito pelas plataformas internacionais, capitaneadas com influencers, colocando a taxa da blusinha como algo inofensivo, e não é. Não é uma simples onda, é um tsunami que vai desencadear desemprego na indústria e no varejo nacional. Eu falo isso desde o governo Bolsonaro", afirma.
O empresário diz que sua bandeira é a redução de impostos para todos, e não a manutenção da carga tributária sobre estrangeiros. "Eu, como empresário, luto para baixar os impostos no Brasil. E se baixar para os estrangeiros, precisa baixar para os brasileiros também", diz Hang.
Para Hang, a desoneração assinada por Lula pode escalar para outras faixas de preço e categorias, comprimindo ainda mais a margem do varejo nacional. Ele projeta que o efeito sobre indústria e comércio será encadeado.
A MP será publicada ainda nesta terça em versão extra do Diário Oficial da União, e será acompanhada de uma portaria do Ministério da Fazenda. Com isso, as compras inferiores a US$ 50 passam a estar isentas do tributo já nesta quarta-feira, 13.
"Isso só foi possível depois de um avanço muito significativo para regularizar o setor. O contrabando, que era uma marca presente desse setor, foi eliminado e agora o setor é regularizado, vai continuar regular e poderá se beneficiar dessa isenção. Isso vai beneficiar a população mais carente e pobre que se utiliza muito dessas plataformas para adquirir produtos importantes para o seu dia a dia", disse o secretário-executivo do Ministério da Fazenda, Rogério Ceron, durante o anúncio da medida, no Palácio do Planalto.
O ministro do Planejamento, Bruno Moretti, afirmou que a medida de Lula melhora o perfil da tributação brasileira. "Os números mostram que a maior parte das compras é de valor. O que o senhor está fazendo é retirar impostos federais do consumo popular, das pessoas mais pobres", afirmou o ministro.
Participaram do anúncio, além de Lula, do vice-presidente, Geraldo Alckmin, e da primeira-dama, Rosângela Lula da Silva, a Janja, os ministros Miriam Belchior (Casa Civil), Guilherme Boulos (Secretaria-Geral da Presidência), Márcio Elias Rosa (Desenvolvimento) e Sidônio Palmeira (Comunicação Social).
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