O futuro de Marina Silva cabe no Senado por São Paulo?
Quando assumiu pela segunda vez o comando do Ministério do Meio Ambiente, em 2023, Marina Silva encontrou uma pasta desmontada e uma oposição organizada esperando na porta.
Logo nos primeiros meses, parlamentares ligados ao agronegócio se empenharam em emendas para esvaziar suas atribuições e manter o modelo adotado pelo governo anterior. Em maio daquele ano, parte da resistência teve efeito: o governo cedeu e o ministério perdeu o controle do Cadastro Ambiental Rural e da Agência Nacional de Águas.
As pressões não vieram só de fora. A autorização para exploração de petróleo na Foz do Amazonas, a Autoridade Climática que nunca saiu do papel e a aprovação do licenciamento ambiental flexibilizado pelo Congresso marcaram uma gestão que precisou navegar entre a ambição da agenda ambiental e os limites do que era politicamente possível.
Três anos mais tarde, o orçamento foi quase dobrado - de R$ 865 milhões para R$ 1,9 bilhão - com queda no desmatamento em 50% na Amazônia e 32% no Cerrado, área queimada no Pantanal reduzida em 91% em relação à média dos oito anos anteriores, além de R$ 350 bilhões mobilizados para a agenda de transição ecológica.
Ao deixar o Ministério em 1º de abril, Marina entregou, além do bastão, um dossiê de resultados robusto para apresentar.
De volta ao mandato de deputada federal que havia deixado para comandar a pasta, confirmou dias depois o que já havia sinalizado: quer uma das vagas ao Senado por São Paulo, na chapa de Fernando Haddad ao governo do estado.
O cenário até o momento é de impasse. A Rede Sustentabilidade, partido que ajudou a fundar, vive uma crise interna que pode inviabilizar sua candidatura pela sigla, embora a federação que a Rede forma com o PSOL já tenha sinalizado que quer seu nome no palanque. Ao mesmo tempo, Márcio França disputa a mesma vaga e, se soma ao quadro, um desafio de comunicação.
Este último aspecto se converteu em ponto de atenção a partir de uma pesquisa ainda inédita à qual Exame teve acesso, que revelou como o eleitor paulistano reconhece e respeita Marina, mas não enxerga a pauta ambiental como algo que diz respeito ao seu cotidiano.
"Para poder estar apta legalmente a colocar o nome para o debate em São Paulo como alternativa para a segunda vaga ao Senado, eu tinha que me afastar”, afirmou Marina Silva sem rodeios em uma conversa com Exame dias após se despedir do ministério.
O que segue, porém, é mais complicado. "Enchentes, saneamento e poluição do ar são problemas de natureza ambiental que afetam São Paulo de forma direta e recorrente, mas que raramente entram no vocabulário de campanha de Marina com esse enquadramento", explica a analista política Cila Schumann, CEO do Instituto Ideia.
São Paulo da garoa?
A conexão que falta na campanha já existe no cotidiano. Um levantamento da FecomercioSP divulgado em 2025 revelou que quase dois terços das empresas do estado sofreram impactos climáticos diretos, desde interrupção de operações por chuvas intensas até perdas de estoque por ondas de calor, e quase metade registrou prejuízos financeiros.
Em dezembro do mesmo ano, São Paulo viveu uma sequência que virou rotina de emergência. Uma tempestade no dia 8 deixou 189 mil pessoas sem luz. Dois dias depois, um ciclone extratropical com rajadas de quase 100 km/h derrubou árvores em massa e chegou a deixar 2,2 milhões de imóveis sem energia na Grande São Paulo.
Parte deles ficou sem luz por mais de cinco dias, até que a Justiça precisou intervir e ameaçar a concessionária com multa de R$ 200 mil por hora de descumprimento.
Agora, para Marina chegar ao eleitor que viveu esse dezembro, Schumann aponta que a candidatura precisaria traduzir a autoridade sobre desmatamento e combustíveis fósseis numa linguagem mais próxima do cotidiano paulistano.
França e o argumento de gênero
Questionada sobre as vantagens que França poderia ter no estado, Marina lembra que entregas expressivas de mulheres raramente são lidas da mesma forma que as de homens.
“Geralmente as mulheres, mesmo quando têm um desempenho fora da curva - no meu caso reestruturar o ministério desmontado e reduzir desmatamento em 50% na Amazônia - as pessoas não enxergam como sendo um grande feito técnico”, reflete.
Ainda assim, evita o confronto direto com França, que foi vice-governador, ministro e construiu ao longo de décadas uma base sólida na política paulista."A Federação Rede PSOL legitimamente está colocando meu nome e eu estou à disposição para esse debate, mas reconhecendo a liderança e a importância histórica do Márcio França em São Paulo", completa.
A agenda de gênero, nesse contexto, vai além da disputa com França. Conforme avalia Cila Schumann, o combate ao feminicídio está bem posicionado como tema eleitoral para o campo da esquerda em 2026.
A Rede e o nó jurídico
Por trás da disputa com França, há ainda um problema de outra natureza. A direção nacional da Rede, ligada à deputada Heloísa Helena, aprovou uma norma que prioriza parlamentares com pelo menos dois anos de exercício efetivo de mandato. Como Marina esteve licenciada para o ministério durante toda a gestão Lula, se enquadraria fora dos critérios.
O conflito com a direção do partido já chegou à Justiça. "Agora é aguardar", disse Marina, sem se alongar no assunto. Para o eleitor médio paulistano, porém, a sigla simplesmente não existe como critério de voto, segundo Schumann, o que torna a briga interna politicamente peculiar: é exatamente a que menos vai mover quem vota.
O que os números não resolvem
Agora, mais do que acumular realizações, a questão é saber se Marina consegue converter reconhecimento em voto num estado onde o eleitorado é heterogêneo e a disputa pelo centro é permanente. Sua imagem é positiva junto ao eleitorado paulistano e sua relação com Lula e Haddad é percebida favoravelmente.
"Isso é capital político real, mas capital político não se converte automaticamente em voto majoritário", avalia Schumann. E os imbróglios seguem sem solução. Caso não se resolvam a tempo, resta a alternativa de disputar novamente uma vaga na Câmara, como em 2022, quando foi eleita com cerca de 237 mil votos.
Perguntada o que esperar caso não vá ao Senado, Marina respondeu com a fórmula que usa há décadas, desde quando era candidata à presidência: "O segundo turno a gente discute no segundo turno." Funciona como resposta. Como estratégia eleitoral, ainda está por ser testada.
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