O mundo está se abrasileirando

Por Jorge Dib 23 de Junho de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O mundo está se abrasileirando

Todo executivo que já ocupou uma posição sênior em uma multinacional passou por aquele momento clássico: explicar para a matriz por que, no Brasil, as coisas funcionam de maneira diferente do resto do mundo.

Um caso recente, com repercussão global, envolveu a Netflix. Em 21 de outubro de 2025, a empresa perdeu cerca de US$ 33 bilhões em valor de mercado — uma queda superior a 6%.

O movimento foi atribuído à obrigação de reconhecer intempestivamente uma decisão do STF que ampliou o alcance da CIDE para determinados serviços de tecnologia. Muitas empresas avaliam que não há fato gerador claro na legislação e interpretam a decisão como política. É o que, no Brasil, chamamos de “jabuticaba” — uma forma quase elegante de descrever a complexidade (ou confusão) do ambiente legal.

Não é preciso dizer que a governança — tanto de empresas quanto de países — funciona melhor quando há previsibilidade. Investimentos já carregam, por natureza, risco e incerteza. Quanto maior o horizonte de retorno e o volume investido, maior a necessidade de um arcabouço macroeconômico e jurídico estável, que permita planejamento de qualidade.

No Brasil, porém, vigora outra máxima: até o passado é incerto. Leis podem ser reinterpretadas ou alteradas de forma a impactar contratos previamente válidos, afetando diretamente a rentabilidade dos investimentos. As mudanças implementadas no setor elétrico durante o governo Dilma Rousseff são um exemplo emblemático, cujas consequências ainda reverberam, aumentando custos para todos os stakeholders.

Mas há uma reviravolta interessante em curso. Em 2026, a vida do executivo brasileiro em multinacionais pode, paradoxalmente, ficar mais fácil.

Mudanças frequentes de tarifas, decisões unilaterais e a saída de acordos internacionais sem grande cerimônia passaram a fazer parte também do comportamento de potências globais, como os Estados Unidos. É, em certa medida, o “abrasileiramento” da política econômica americana.

Diversos países vêm abandonando o padrão histórico de costurar grandes acordos multilaterais amplos, migrando para a chamada localização regulatória. Criam regras próprias para produtos e serviços essencialmente iguais — como inteligência artificial, meios de pagamento e ativos digitais — aumentando significativamente a complexidade operacional para as empresas globais.

O movimento de padronização das últimas décadas, que trouxe eficiência e escala, está sendo substituído por uma fragmentação que eleva custos e reduz previsibilidade.

Sempre foi natural que grandes potências utilizassem seu peso econômico para obter vantagens. A diferença agora é a intensidade e a frequência dessas intervenções.

A União Europeia ajusta regras de competição conforme sua conveniência, muitas vezes invocando ameaças externas questionáveis, especialmente no setor agrícola.

O contexto geopolítico tende a exacerbar essa dinâmica criando surpresas com impactos relevantes. A Alemanha, por exemplo, viu todo o seu planejamento energético ruir após a invasão da Ucrânia pela Rússia em 2022. Como consequência, as empresas alemãs que haviam se preparado para um modelo energético previsível e de baixo custo, a partir do uso do gás russo, sofreram perda de competitividade, aumento de custos e ineficiência na cadeia logística.

A governança corporativa global está sendo forçada a ampliar seu radar de risco. Questões antes tratadas como exceção, — interferência política, mudanças abruptas de regras, protecionismo disfarçado — passam a ocupar posição de destaque na análise estratégica. Isso torna a alocação de capital mais seletiva, aumenta o prêmio de risco até em países desenvolvidos e reduz a previsibilidade de retorno.

Executivos ao redor do mundo terão que desenvolver habilidades que, até então, eram reconhecidamente pontos fortes dos executivos brasileiros: navegar incertezas, justificar o injustificável e traduzir o caos em narrativa compreensível para seus conselhos.

O Brasil deixou de ser exceção. Está virando referência — ainda que pelos motivos errados.

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