O paradoxo bilionário do vinil: por que a geração do streaming paga por discos
Em 2016, o vinil gerou US$ 224,9 milhões em receita nos Estados Unidos. Mas, menos de uma década depois, o formato ultrapassou US$ 1 bilhão pela primeira vez desde 1983, segundo o relatório anual da Recording Industry Association of America (RIAA), divulgado em 16 de março.
A trajetória é a de uma ressurreição em câmera lenta que ganhou velocidade própria: US$ 426,6 milhões em 2020, US$ 679,4 milhões em 2021 e US$ 954 milhões em 2024.
Em 2025, o vinil cruzou a linha com US$ 1,042 bilhão em receita e 46,8 milhões de unidades vendidas, crescimento de 9,3% sobre o ano anterior, marcando o 19º ano consecutivo de alta do formato, segundo a RIAA.
O efeito Swift
Nenhum artista ilustra melhor a relação entre a indústria fonográfica e o ressurgimento do vinil do que Taylor Swift. Pelo quarto ano consecutivo, ela teve o álbum mais vendido em vinil nos Estados Unidos, segundo a RIAA. Nenhum outro artista alcançou isso na era do streaming.
Em 2025, o álbum foi The Life of a Showgirl: 1,6 milhão de cópias vendidas, mais do que o segundo colocado por uma margem superior a 1,3 milhão de unidades, segundo a Luminate. Já o disco de prata de Sabrina Carpenter, Man's Best Friend, vendeu 292 mil cópias em vinil no ano inteiro.
O resultado não foi acidente. Swift lançou oito variantes diferentes do álbum em vinil, cada uma com identidade visual própria: edições com discos translúcidos, marmorizado, cintilante e colorido, batizadas individualmente com nomes como The Crowd Is Your King, Shiny Bug e Tiny Bubbles in Champagne.
Cada versão trazia extras exclusivos — pôsteres dupla-face, fotos inéditas e até um poema escrito pela própria artista, segundo a Music Times. A lógica é a do colecionismo: quem quer o álbum completo precisa comprar mais de uma cópia.
A estratégia não é nova para Swift, mas em 2025 atingiu escala industrial. Além do The Life of a Showgirl, seu álbum ao vivo Lover (Live From Paris) apareceu em nono lugar no ranking anual de vinil com 166 mil unidades, segundo a Luminate, o que significa que Swift ocupou sozinha dois dos dez primeiros lugares da lista.
A crítica existe. "Você está realmente dando aos seus fãs o que eles querem, ou está explorando um nicho de monopólio muito estranho?", questionou o crítico musical Anthony Fantano.
Mas o mercado respondeu à sua maneira: Carpenter, que adotou estratégia semelhante de múltiplas edições, somou quase 600 mil cópias em vinil no ano entre Man's Best Friend e Short n' Sweet, de acordo com a Variety — consolidando um modelo que a indústria inteira observa e começa a replicar.
Taylor Swift: cantora liderou a venda de vinis em 2025 (Valerie Terranova / Correspondente autônomo/Getty Images)
O preço sobe — e a demanda também
O preço médio de um disco de vinil novo cresceu 24% entre 2020 e 2025, chegando a US$ 37,22, segundo a plataforma Discogs. Analistas esperavam que esse encarecimento provocasse desaceleração nas vendas. Não provocou.
Para donos de lojas físicas, a explicação está no perfil do comprador.
"Quando o mundo está na ponta dos seus dedos, você percebe que tudo é temporário — e o apego pela mídia física volta com força", disse Sean Smith, gerente de marketing da Record Archive, loja de Rochester com 50 anos de história, em entrevista à Rochester First.
Pequeno, mas crescendo — e o CD encolhe
O vinil representa cerca de 9% da receita total da música gravada nos EUA, mas é o único formato físico em crescimento, enquanto o CD segue perdendo terreno.
A receita total da indústria atingiu US$ 11,5 bilhões em 2025, novo recorde histórico, segundo a RIAA. O streaming respondeu por US$ 9,47 bilhões desse total, com 106,5 milhões de assinantes pagantes.
Os formatos físicos geraram US$ 1,38 bilhão, e ambas as categorias cresceram ao mesmo tempo.
Pelo quinto ano consecutivo, mais discos de vinil foram enviados do que CDs nos Estados Unidos, segundo a RIAA. A distância entre os dois formatos não para de crescer: enquanto o vinil fechou 2025 com US$ 1,04 bilhão em receita, o CD registrou queda de 11,6%, encerrando o ano em US$ 312,4 milhões e 29,5 milhões de unidades comercializadas.
Os números revelam que, enquanto o CD cai, streaming e vinil não competem: representam comportamentos distintos. Um é sobre acesso, portabilidade e hábito. O outro é sobre propriedade, fandom e intenção.
A geração que cresceu com toda a música do mundo na palma da mão está pagando cada vez mais por um objeto que pesa, risca e precisa ser virado no meio do lado B.
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