O que a supermaioria de Sanae Takaichi no Japão significa para o mundo
Nesse domingo, 8, a primeira-ministra do Japão Sanae Takaichi conquistou uma vitória histórica em eleições que ela mesmo convocou, e garantiu uma supermaioria de 316 dos 465 assentos na câmara baixa do parlamento japonês para o seu partido, o LDP.
Quatro meses atrás, Takaichi herdou um partido em sérias dificuldades, sem maioria absoluta e com eleitores desencantados por uma inflação persistente, um escândalo de financiamento e a ascensão do partido populista anti-imigração Sanseito, que vinha sendo visto como alternativa cada vez mais popular ao LDP.
Com altas taxas de aprovação, Takaichi fez uma jogada arriscada: prometendo renunciar caso perdesse, dissolveu o parlamento e convocou eleições relâmpago a fim de capitalizar seus 80% de aprovação entre os japoneses para compensar a falta de popularidade do LDP e consolidar poder político novamente nas mãos do partido, que vem dominando a política japonesa pela maior parte do pós-guerra. E a aposta vingou, resultando na maior vitória eleitoral na história desde o fim da Segunda Guerra.
Agora, com seu parceiro de coalizão, o Partido de Inovação Japonês, também conhecido como Ishin, Takaichi passa a controlar 352 assentos, para uma confortável maioria de dois terços das cadeiras, facilitando a passagem de pautas na sua agenda, já que agora é capaz de sobrepujar a câmara alta, onde não tem maioria.
Isso se deu pois Takaichi conseguiu não só reconquistar a base eleitoral tradicional do LDP, formada por cidadãos mais velhos que migraram para outros partidos de direita percebendo o partido como muito moderado, mas também capturou lealdade entre os mais jovens, o que impulsionou seus números nas pesquisas.
"Esta eleição envolveu grandes mudanças políticas — particularmente uma grande mudança na política econômica e fiscal, bem como o fortalecimento da política de segurança", disse Takaichi em uma entrevista na televisão, refletindo pautas importantes de sua campanha. "Estas são políticas que atraíram muita oposição... Se recebemos o apoio do público, então realmente devemos enfrentar essas questões com todas as nossas forças."
Mercados: no caminho para um iene mais forte
Um painel eletrônico exibe o índice Nikkei 225 do lado de fora de uma corretora em Tóquio, Japão, em 19 de abril de 2024. (Soichiro Koriyama/Bloomberg via Getty Images)
O futuro da primeira-ministra depende, no entanto, do desempenho econômico da segunda maior economia da Ásia, fator que provocou a queda de seus dois antecessores.
Após um pacote de estímulo de 135 bilhões de dólares (702 bilhões de reais) para mitigar os efeitos da inflação, a principal causa do descontentamento dos eleitores, Takaichi prometeu suspender um imposto de 8% sobre consumo de alimentos, para ajudar cidadãos a lidar com os altos preços no Japão.
Na macroeconomia, o maior desafio é a dívida do Japão, que corresponde ao dobro do tamanho de sua economia. Nas últimas semanas, os juros dos títulos de longo prazo atingiram índices máximos históricos, gerando dúvidas entre investidores sobre como o país financiaria algumas das mudanças fiscais propostas.
O equilíbrio fiscal é altamente importante para Takaichi, já que, por um lado, seus planos animam cidadãos, mas, na outra ponta, deixam mercados e investidores incertos.
"Os participantes do mercado estão menos focados no resultado da eleição em si do que na substância, escala, financiamento e consistência das políticas econômicas e fiscais", disse à Reuters Shoki Omori, estrategista-chefe da Mizuho Securities, um banco de investimentos, em Tóquio.
O maior obstáculo para Takaichi, julgam especialistas, será criar uma economia sustentável no Japão para financiar os altos custos de suas pautas, como controle inflacionário e um aumento considerável nos gastos de defesa – chegando a 2% do PIB japonês, um novo recorde – que é endossado pelo presidente americano, Donald Trump.
Trump, um importante aliado político para Takaichi, também defende que a premiê fortaleça o iene, e nessa segunda, um dia após as eleições, as principais bolsas japonesas, o índice Nikkei 225 e o Topix bateram recordes.
"Uma política fiscal responsável e proativa está no cerne da transição política", disse Takaichi em uma coletiva de imprensa, prometendo "a data mais próxima possível" para a suspensão de impostos, ao mesmo tempo em que descartou a emissão de novas dívidas para alcançá-la. "Precisamos tirar o Japão de uma política fiscal excessivamente restritiva e da falta de investimentos."
Segurança nacional e problemas com a China
Forças de autodefesa do Japão, sob as cores da Bandeira do Sol Nascente (Kyokujitsu-ki), ainda usada pelas forças armadas japonesas (Tomohiro Ohsumi / Stringer - Getty Images) (Tomohiro Ohsumi / Stringer/Getty Images)
Fiel às suas pautas conservadoras, a primeira-ministra adotou desde o início de seu mandato um tom firme contra a imigração e não hesitou em assumir uma postura mais dura com a China.
Em novembro, no Parlamento, ela sugeriu que o Japão poderia intervir militarmente caso a China lançasse um ataque contra Taiwan, ilha sobre a qual o governo chinês reivindica soberania. Pequim respondeu às declarações com restrições à exportação de produtos com possível uso militar e de terras raras cruciais para o desenvolvimento de veículos elétricos ou mísseis, e limitações inclusive no turismo e em trocas culturais entre os países.
Além disso, a China prometeu “prevenir de maneira resoluta a ressurgência do militarismo japonês” caso o país continue “no caminho errado”, fazendo alusão ao passado imperial japonês e às atrocidades cometidas durante esse período.
Takaichi é famosa por visitar o Santuário Yasukuni, que imortaliza nomes de soldados mortos em batalha pelo Japão, inclusive criminosos de guerra condenados.
Não foi o primeiro choque de Takaichi com a China. Como ministra da Segurança Econômica, ela criticou o crescente poder militar de Pequim na região e defendeu o fortalecimento da cooperação em segurança entre Taiwan e Tóquio.
Shingo Yamagami, pesquisador sênior da Fundação Sasakawa para a Paz e ex-embaixador do Japão na Austrália, apontou o dilema que parece fazer parte da vida dos japoneses. "Diante das ações beligerantes e das ondas de coerção econômica, o Japão deveria ceder ou manter-se firme?", escreveu na rede social X, em referência à China. "O povo japonês claramente escolheu a segunda opção."
O embaixador de facto taiwanês para o Japão, Lee Yi-yang, foi um dos primeiros a congratular Takaichi em sua vitória, escrevendo no Facebook que sua eleição mostra que o Japão não está intimidado pelas “ameaças e pressões” da China.
Os comentários e imbróglios diplomáticos com Pequim vêm em um momento de preocupação com a estratégia e os gastos de defesa do Japão, que tomarão uma nova magnitude sob Takaichi.
Em luz disso, o ministério das relações exteriores chinês fez um alerta. "Instamos as autoridades governantes do Japão a levarem a sério, em vez de ignorarem, as preocupações da comunidade internacional, e a seguirem o caminho do desenvolvimento pacífico em vez de repetirem os erros do militarismo", disse o porta-voz do Ministério, Lin Jian, nesta segunda-feira.
Diante das incertezas geopolíticas e dos intensos conflitos acontecendo pelo mundo, o Japão toma notas, estocando munição e planejando a compra de novos equipamentos, incluindo drones, em preparação para um possível conflito prolongado contra um adversário mais forte.
"Países ao redor do mundo estão se preparando urgentemente para novas formas de guerra", disse Takaichi. "Ninguém ajudará um país que não tenha a determinação para se defender."
Com informações da AFP
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