O que acontece quando um peixe dorme? A ciência respondeu
Por muito tempo, o sono foi considerado uma característica complexa associada principalmente a mamíferos e aves.
Agora, uma pesquisa conduzida por cientistas do Instituto Max Planck de Cibernética Biológica, na Alemanha, mostra que os peixes também passam por diferentes estágios de sono e até tiram cochilos profundos ao longo do dia.
A descoberta foi publicada na revista científica Nature Communications em maio.
O estudo analisou peixes-zebra, uma espécie amplamente utilizada em pesquisas biológicas.
Os cientistas descobriram que esses animais atravessam quatro fases distintas de sono, com padrões que lembram os observados em seres humanos, incluindo estágios associados ao movimento dos olhos.
O desafio de observar peixes dormindo
Entender como um peixe dorme não é simples. Diferentemente dos humanos, eles não fecham os olhos nem apresentam sinais óbvios de descanso.
Para superar essa dificuldade, os pesquisadores desenvolveram um sistema automatizado com câmeras e microscópios capaz de acompanhar continuamente os movimentos oculares de 105 peixes.
A escolha dos peixes-zebra foi estratégica. Durante as primeiras semanas de vida, eles possuem corpos transparentes, permitindo que os cientistas observem diretamente a atividade cerebral enquanto os animais descansam.
Isso possibilitou relacionar os movimentos dos olhos aos diferentes estados neurais do sono.
Quatro estágios diferentes de sono
A pesquisa identificou três fases noturnas e uma fase predominantemente diurna.
O primeiro estágio é caracterizado por ausência de movimento ocular. O peixe permanece praticamente imóvel, em um estado de repouso prolongado.
Em seguida, surge uma fase marcada por pequenos movimentos laterais dos olhos. Já próximo ao amanhecer, os dois olhos passam a permanecer fixos em uma mesma direção.
O estágio mais surpreendente acontece durante o dia. Nesse período, os peixes entram em episódios curtos de imobilidade enquanto realizam movimentos frequentes dos olhos.
Os pesquisadores descrevem essa fase como uma espécie de cochilo profundo. A atividade cerebral cai significativamente e os animais se tornam mais difíceis de despertar, mesmo ficando mais vulneráveis a predadores.
Uma característica muito antiga da evolução
Os cientistas observaram o mesmo padrão em diferentes indivíduos do gênero Danio, grupo ao qual pertencem os peixes-zebra. Isso sugere que essa organização complexa do sono pode ter surgido há muito tempo na história evolutiva dos vertebrados.
A descoberta também reforça uma tendência observada em estudos recentes.
Nos últimos anos, pesquisadores identificaram comportamentos semelhantes ao sono até em animais extremamente simples, como águas-vivas e anêmonas-do-mar, indicando que a necessidade de descanso pode ser uma característica biológica muito mais antiga do que se imaginava.
O que os cientistas ainda querem descobrir
Embora o estudo tenha revelado a existência dessas fases, ainda não está claro qual é a função específica de cada uma delas.
Os movimentos dos olhos podem estar ligados ao processamento de informações, à consolidação de memórias ou a mecanismos de manutenção cerebral, mas essas hipóteses ainda precisam ser investigadas.
“Estamos muito curiosos sobre quais papéis os diferentes estágios do sono desempenham”, afirmou a pesquisadora Jennifer M. Li. “O sono é importante para muitos processos, desde a reativação de memórias até a remoção de resíduos, mas ainda não entendemos totalmente por que e como isso é organizado ao longo do tempo.”
A cientista acrescentou que os peixes-zebra oferecem uma oportunidade única para desvendar esses mecanismos. “Os peixes-zebra, com seus cérebros transparentes, nos oferecem uma maneira poderosa de descobrir isso.”
A pesquisa mostra que o sono talvez seja uma das estratégias biológicas mais antigas e fundamentais da vida animal. Mesmo em criaturas separadas dos seres humanos por centenas de milhões de anos de evolução, o cérebro parece seguir uma regra semelhante: parar, desacelerar e reorganizar suas funções não é um luxo, mas uma necessidade profundamente enraizada na história da vida.
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