O que é a Mango — e por que morte de fundador virou caso de polícia

Por Tamires Vitorio 20 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O que é a Mango — e por que morte de fundador virou caso de polícia

O filho do fundador da Mango foi preso nesta terça-feira, 19, acusado de matar o pai — o homem que construiu uma das maiores marcas de moda da Europa a partir de uma única loja em Barcelona.

Jonathan Andic, 45 anos, filho mais velho de Isak Andic, foi detido pela polícia catalã em sua residência e levado ao tribunal de Martorell para interrogatório.

Ele é suspeito de ter empurrado o pai numa ravina de 150 metros durante uma caminhada em Montserrat, em 14 de dezembro de 2024. Isak Andic morreu no local. Tinha 71 anos.

Jonathan sempre negou qualquer responsabilidade. O caso foi arquivado por falta de provas em janeiro de 2025 e reaberto em outubro do mesmo ano, após inconsistências no depoimento do filho. Até o momento, a Mango não se pronunciou sobre a prisão.

Para entender o peso do caso, é preciso entender o que é a Mango — e o que ela quase foi.

Em 2016, a empresa parecia estar no fundo do poço. A Mango acumulava 618 milhões de euros em dívida, registrava prejuízo de 61 milhões de euros e enfrentava uma crise de identidade que nenhum relançamento de coleção havia conseguido resolver. Os credores relutavam em refinanciar uma marca que parecia ter perdido o rumo.

"Foi algo como um desastre", disse Toni Ruiz, então recém-chegado à empresa como diretor financeiro, em entrevista à Milestone Magazine. "Havia muita pressão e precisávamos mudar muitas coisas."

Nove anos depois, a Mango encerrou 2025 com receita de 3,76 bilhões de euros — crescimento de 13% em relação ao ano anterior —, lucro líquido de 242 milhões de euros, dívida de apenas 78 milhões de euros e 2.931 pontos de venda em mais de 120 países, segundo balanço oficial da companhia.

"A dívida não está mais nos holofotes", disse a diretora financeira Margarita Salvans na apresentação dos resultados, em março de 2026.

A distância entre os dois momentos é a história da Mango.

A crise que quase afundou a empresa

A Mango foi fundada em Barcelona em 1984 por Isak Andic, filho de imigrantes turcos que se mudaram para a Catalunha quando ele ainda estava na adolescência.

A primeira loja abriu no centro de Barcelona com um conceito então raro na Espanha: moda feminina com identidade visual forte, preços acessíveis e expansão agressiva.

Em cerca de dez anos, a marca já tinha 100 lojas na Espanha. Em 1992, abriu em Portugal, o primeiro país fora da Espanha a receber a marca.

A expansão continuou nas décadas seguintes, mas o crescimento rápido e as apostas erradas em mercados e conceitos criaram uma estrutura de custos insustentável.

Em 2015, quando Ruiz chegou como CFO vindo da Leroy Merlin, a empresa já acumulava resultados negativos e dívida elevada.

O pico da crise veio em 2016, com 618 milhões de euros em dívida líquida e prejuízo de cerca de 61 milhões de euros.

"O primeiro passo foi refinanciar a dívida, o que não foi fácil. O desempenho financeiro ruim fazia os credores verem a empresa como um risco, enquanto era difícil convencê-los de que uma marca tão conhecida poderia se reinventar", disse Ruiz à FashionNetwork.

Quando o refinanciamento foi finalmente realizado, a empresa voltou a atenção para o produto — o que havia dado origem à Mango em 1984 e que havia sido negligenciado no processo de expansão.

O ponto de virada

Ruiz assumiu como gerente geral em 2018 e como CEO em março de 2020, meses antes de a pandemia fechar o mundo.

Em 2018, a dívida já havia caído para 315 milhões de euros. Em 2021, a empresa voltou ao lucro. Em 2023, registrou receita de 3,1 bilhões de euros — valor recorde na época. Em 2024, a dívida líquida era de apenas 78 milhões de euros.

A estratégia que guia a empresa desde 2024 é o plano 4E, que projeta receita acima de 4 bilhões de euros até o fim de 2026, meta que o próprio Ruiz diz ser praticamente certa de ser atingida.

Em 2025, a Mango investiu 225 milhões de euros em expansão de lojas, tecnologia e logística, o maior de sua história.

Foram mais de 260 novas aberturas no ano, com presença reforçada na França, Turquia, Alemanha e Estados Unidos. O canal online responde por 32% das vendas totais. São mais de 18 mil funcionários no mundo.

Isak Andic controlava 95% do grupo por meio da holding Punta Na até sua morte, em 14 de dezembro de 2024, aos 71 anos, após cair de uma ravina de 150 metros durante uma caminhada em Montserrat.

A morte foi inicialmente tratada como acidente. Em janeiro de 2025, o caso foi arquivado por falta de provas. Nesta terça-feira, 19, a polícia catalã prendeu Jonathan Andic, filho mais velho do fundador, sob acusação de homicídio.

Ruiz, que conduziu o primeiro ano completo da empresa sem o fundador, apresentou os resultados de 2025 com uma frase que resume o momento: "2025 foi um ano muito exigente, o primeiro sem nosso fundador, mas alcançamos resultados recordes."

A Mango projeta receita próxima de 4 bilhões de euros em 2026. Atualmente a varejista tem cerca de 2.931 pontos de venda no mundo todo. No Brasil, é vendida pela Dafiti.

O papel dos filhos de Isak Andic

São três os herdeiros de Isak Andic: Jonathan (1981), Judith (1984) e Sarah (1997). A herança do fundador foi dividida igualmente entre os três, que passaram a compartilhar as posições nas holdings da família após sua morte.

Jonathan era o mais visível na operação. Entrou na Mango em 2005, trabalhou nas áreas de design e gestão criativa, e em 2007 liderou o lançamento da Mango Man, a primeira linha masculina da empresa.

Por 17 anos, dirigiu a divisão, que chegou a 2024 com mais de 600 pontos de venda em 90 mercados e receita de 408 milhões de euros, o equivalente a 12% do faturamento total do grupo.

Isak chegou a dizer publicamente que o filho "trabalhava efetivamente como CEO" — mas Jonathan nunca assumiu formalmente o cargo. Quando a Mango entrou em crise em 2015, Isak retomou o controle da operação e contratou Toni Ruiz como CFO.

A relação entre pai e filho era, segundo o El País, tensa.

A parceira de Isak, a golfista profissional Estefania Knuth, teria descrito conflitos entre os dois sobre o papel de Jonathan na empresa, dados que passaram a ser relevantes após a morte do fundador.

Em 2014, Isak havia delegado mais responsabilidades operacionais ao filho. Em 2015, com os resultados deteriorando, assumiu o controle de volta.

Após a morte do pai, Jonathan foi nomeado vice-presidente do conselho de administração da Mango e assumiu a presidência das holdings familiares — Punta Na Holding e MNG Mango Holding, que controo-que-e-a-mango-morte-isak-andic-jonathan-presola 95% do capital da empresa.

Em junho de 2025, deixou a direção da Mango Man para se dedicar exclusivamente à gestão dos ativos da família. A decisão, segundo a própria Mango, havia sido tomada quando Isak ainda estava vivo.

Judith Andic é vice-presidente da MNG Mango Holding e membro da Punta Na Holding.

Sarah, a mais nova, é presidente da Punta Na SAU e também vice-presidente da MNG Mango Holding.

Os 5% restantes do capital da Mango pertencem a Toni Ruiz, o CEO que conduziu a virada da empresa e hoje acumula também a presidência do conselho de administração.

A empresa que quase afundou em dívida há menos de dez anos chegará a esse marco, se as projeções se confirmarem, como um dos maiores grupos de moda da Europa — e sem o homem que a fundou para ver.

Comentários

Deixe seu comentário abaixo: