O que esperar do bitcoin no 2º trimestre de 2026?
O bitcoin encerrou março em um cenário marcado por tensões geopolíticas, pressão inflacionária e mudanças no comportamento dos investidores. Ao mesmo tempo, sinais de demanda mais consistente indicam que o ativo pode apresentar uma dinâmica diferente nos próximos meses, mesmo diante de um ambiente macroeconômico desafiador.
Março combina pressão macro e novos sinais de uso
O mês de março foi influenciado principalmente pelo aumento das tensões no Oriente Médio, com impacto direto no mercado de energia. A possibilidade de interrupções no fluxo pelo Estreito de Hormuz elevou os preços do petróleo e reforçou preocupações inflacionárias globais.
Em cenários como esse, a tendência tradicional é de pressão sobre ativos de risco. Inflação mais alta costuma levar à manutenção de juros elevados por mais tempo, o que reduz a liquidez e diminui o apetite por ativos como o bitcoin.
Segundo Matt Mena, analista de research da 21Shares, esse pano de fundo seria, em condições normais, negativo para o desempenho do ativo. Ainda assim, o comportamento do bitcoin ao longo de março indicou uma dinâmica mais complexa.
“A disrupção no fornecimento de energia decorrente do fechamento do Estreito de Ormuz traz uma pressão significativa a um cenário inflacionário já persistente”, disse. Ele destaca que, apesar desse contexto, os movimentos de preço sugerem que o mercado não reagiu de forma linear às pressões macroeconômicas.
Um dos fatores que ajudam a explicar essa resiliência foi o aumento no uso do bitcoin como instrumento de mobilidade de capital em momentos de crise. Dados de mercado apontaram para um crescimento na autocustódia, com retirada de recursos de plataformas centralizadas em regiões afetadas por conflitos.
“Relatos de fluxos crescentes de autocustódia saindo de exchanges iranianas após os ataques evidenciam a utilidade do bitcoin como ativo portátil e resistente à censura em períodos de necessidade de fuga de capitais”, diz Mena.
Esse comportamento não é inédito. Situações semelhantes foram observadas durante a guerra entre Rússia e Ucrânia, em 2022, e na crise dos bancos regionais dos Estados Unidos, em 2023. Em todos esses casos, o ativo foi utilizado como alternativa para preservar e movimentar recursos fora do sistema financeiro tradicional.
Outro ponto relevante em março foi a relação entre bitcoin e ouro. Após um período prolongado de queda, essa relação encontrou um nível de suporte e voltou a subir ao longo do mês. Historicamente, movimentos desse tipo coincidem com momentos de formação de fundo no mercado do bitcoin.
Para Mena, essa recuperação não deve ser interpretada apenas como uma substituição do ouro. Ela reflete uma percepção mais ampla sobre o papel do bitcoin, especialmente em cenários de instabilidade.
“Ela reflete um reconhecimento crescente do papel do bitcoin como trilho sem permissões e sem fronteiras para movimentação de capital”, disse ele.
Próximo trimestre deve testar equilíbrio entre forças opostas
Se março foi marcado por uma reação mais resiliente do que o esperado, o próximo trimestre tende a ser definido por um equilíbrio delicado entre forças que atuam em direções opostas.
De acordo com Rony Szuster, head de research do Mercado Bitcoin, o ativo vive atualmente um momento de “cabo de guerra”.
De um lado, o cenário macroeconômico continua pressionado. A alta do petróleo e seus efeitos sobre a inflação global podem manter os juros elevados por mais tempo, reduzindo a liquidez e limitando o fluxo de capital para ativos de maior risco.
“Inflação mais alta tende a manter os juros elevados por mais tempo. Isso reduz a liquidez, ocasionando em menos dinheiro circulando e menor apetite por risco. Nesse ambiente, ativos como o bitcoin costumam sofrer mais no curto prazo”, explica.
Por outro lado, há sinais consistentes de fortalecimento da demanda. Grandes investidores seguem acumulando posições, o que indica confiança no longo prazo, mesmo diante das incertezas no curto prazo.
Esse movimento contribui para criar um suporte mais sólido ao mercado. Diferentemente de ciclos anteriores, em que quedas eram marcadas por forte pressão vendedora, o cenário atual apresenta uma base compradora mais robusta.
Além do contexto macro, o comportamento do bitcoin também tem apresentado semelhanças com ciclos passados. Segundo Szuster, o padrão atual lembra o movimento observado entre 2021 e 2022.
“O comportamento atual do bitcoin lembra muito o ciclo de queda de 2021–2022”, disse o head de research do Mercado Bitcoin.
Caso esse padrão se mantenha, níveis próximos a US$ 60 mil podem funcionar como suporte, com a possibilidade de testes mais profundos em torno de US$ 50 mil em cenários mais extremos.
Ainda assim, ele ressalta que esse tipo de análise não representa uma previsão definitiva, mas sim um indicativo baseado em padrões históricos que o mercado tende a repetir.
Ao mesmo tempo, há mudanças estruturais importantes em relação ao passado. O crescimento da demanda institucional, incluindo a atuação de ETFs e empresas, tem ampliado a capacidade de absorção da oferta de novos bitcoins.
“Hoje, esse equilíbrio mudou. Existe um colchão de demanda maior, com investidores de longo prazo acumulando, ETFs voltando a comprar e empresas absorvendo mais do que a nova oferta”, diz.
Esse novo cenário não elimina a possibilidade de quedas, mas pode alterar a forma como elas ocorrem. A expectativa é de correções menos intensas e recuperações mais rápidas, à medida que a demanda se mantém ativa.
Na visão de Szuster, o mercado tende a continuar dividido entre a pressão macroeconômica no curto prazo e os fundamentos mais positivos no longo prazo.
Já para Mena, caso as tensões geopolíticas se prolonguem, o ambiente pode favorecer ativos considerados alternativos ao sistema financeiro tradicional. Ele aponta que, historicamente, conflitos dessa natureza estão associados a aumento de gastos públicos e políticas monetárias mais flexíveis.
Nesse contexto, a tese do bitcoin como proteção tende a ganhar força.
“Se a situação persistir sem resolução, a pressão por uma política monetária mais acomodatícia tende a crescer, mesmo diante do risco inflacionário elevado. Nesse ambiente, a tese do Bitcoin como hedge deve se fortalecer”, afirmou.
Com isso, o próximo trimestre deve ser marcado por volatilidade, mas também por uma disputa mais equilibrada entre fatores negativos e positivos, em um mercado que apresenta sinais de amadurecimento em relação a ciclos anteriores.
Siga o Future of Money nas redes sociais: Instagram | X | YouTube | Tik Tok
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: