O que esperar do Ibovespa em maio após o 'zero a zero' de abril

Por Rebecca Crepaldi 4 de Maio de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O que esperar do Ibovespa em maio após o 'zero a zero' de abril

O Ibovespa vinha se beneficiando de uma realocação de capital estrangeiro dos Estados Unidos para outros mercados, principalmente os emergentes — mesmo em meio a Guerra no Irã. Esse movimento levou o principal índice de referência da B3 para perto da casa dos 200 mil.

No dia 14 de abril, com exatos um mês e meio do conflito, o Ibov alcançou a máxima intraday aos 199.355 pontos (mas, agora, apagou todos seus ganhos).

Ao contrário de outras crises, em que houve uma fuga de ativos de riscos, neste caso, o Ibovespa apresentou desempenho mais do que positivo. O grande protagonista foi o fluxo gringo. No acumulado do ano, a bolsa brasileira registra uma entrada de R$ 58,80 bilhões até 29 de abril, segundo dados da Elos Ayta Consultoria.

A alta do petróleo, reflexo do fechamento do Estreito de Ormuz, também impulsionou as petroquímicas — assim como a alta de alguns metais impulsionou mineradoras e de grãos impulsionou o agro — o que ajudou na valorização da bolsa.

“O diferencial de juros ainda elevado em termos relativos e uma precificação mais consistente de cortes de juros nas economias desenvolvidas também valorizaram o índice. Esse ambiente sustentou múltiplos em um mercado que ainda negociava com desconto relevante em relação a pares globais”, diz Tiago Velloso, economista.

No entanto, o índice apagou os ganhos do mês e encerrou abril aos 187.318 pontos — abaixo, inclusive, do patamar do primeiro dia de Guerra no Irã, quando fechou aos 189.307 pontos.

Por que o Ibovespa apaga ganhos?

Essa queda é derivada da realização de lucros, motivada por alguns fatores. Um deles é o prolongamento do tempo do conflito. Também impulsionam o investidor a embolsas os lucros os juros globais ainda elevados a maior cautela em relação ao ritmo de cortes pelo Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) e a volatilidade em commodities, especialmente diante da leitura ainda incerta sobre petróleo.

Nas últimas semanas, o mercado também passou por uma reversão parcial — ainda que limitada — daquele movimento de rotação para fora dos Estados Unidos. A percepção mais negativa sobre a economia americana perdeu força, reduzindo o ímpeto de migração de capital para emergentes, explica Daniel Utsch, gestor da Nero Capital.

Com isso, o dólar deixou de se desvalorizar de forma mais acentuada e os ativos que vinham sendo beneficiados por esse fluxo, como os brasileiros, entraram em fase de acomodação. Somado a isso, os problemas internos ainda persistem, como cenário fiscal, proximidade do processo eleitoral e relação dívida PIB.

“Nosso cenário doméstico não se alterou em nada. Nós não tivemos uma troca de governo ou uma melhora nas contas públicas. Ou seja, carentes de novos gatilhos, nos apegamos no ‘E agora, o que vai acontecer?’. Nisso, a guerra foi deteriorando os ativos e fomos iniciando, ainda que lentamente, um processo de realização”, pontua Felipe Sant'Anna, analista da Axia Investing.

Além disso, a bolsa também passou a refletir maior seletividade. “A perspectiva de queda da Selic continua relevante para ativos de risco, mas o mercado segue sensível à trajetória da inflação e à percepção fiscal”, afirma Luciano Boudjoukian França, gestor de renda variável da Paramis Avantgarde Asset Management.

Ibovespa pode se recuperar — mas depende

Uma série de vetores podem levar o Ibovespa a se recuperar em maio. Dados de inflação mais positivos, comunicação mais clara dos bancos centrais, fluxo estrangeiro retornando ao Brasil e evolução do debate fiscal, são alguns deles.

“Um cenário de alívio nos juros globais, commodities resilientes e manutenção de entrada de capital externo poderia recompor parte do apetite por Brasil”, destaca França.

O alívio nos juros brasileiros também. “O cenário de política monetária piorou, mas ele ainda é favorável, devemos ter um ciclo relevante de corte de juros, isso pode ajudar renda variável”, aponta Utsch, que também cita a continuidade da entrada de capital gringo no médio e longo prazo como algo mais provável do que uma reversão.

“Temos um risco fiscal muito grande e uma eleição extremamente binária para o mercado, certamente isso traz muita volatilidade, mas de qualquer forma a gente continua construtivo para a bolsa por conta do ciclo de política monetária, resultados das empresas e valuation de geral ainda atrativo”, comenta Utsch.

Para Velloso, a evolução geopolítica, trajetória do petróleo e condução da política monetária nos Estados Unidos também pesam. “Se o petróleo permanecer pressionado e o Fed reforçar um cenário de juros mais altos por mais tempo, o espaço para compressão adicional de múltiplos no Brasil fica limitado”, afirma.

Sant’Anna se mostra pouco otimista. “Não temos grandes expectativas para os 200 mil pontos em maio”, diz. Segundo ele, expectativa de mais gasto público e de IPCA mais alto pelo crédito mais farto, derivado do Desenrola 2.0 impedem um cenário mais positivo. “Se não tivermos nenhuma mudança, aqui e lá fora, a tendência é que o investidor venha realizando”, conclui.

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