O que falta para o Bradesco entrar no Minha Casa Minha Vida?
O Bradesco segue, ao menos por ora, fora do programa Minha Casa, Minha Vida (MCMV) por uma combinação de fatores estruturais. É o que afirmou o diretor de crédito imobiliário do banco, Romero Albuquerque, em evento do Bradesco BBI nesta quarta-feira, 8.
Segundo o executivo, o desenho atual do programa ainda impõe barreiras que dificultam a entrada de bancos privados.
Hoje, a Caixa é o principal operador do programa federal e responde por 70% de toda a carteira de crédito imobiliário concedida no país. O Bradesco é o segundo maior player e, juntos, os dois bancos somaram mais de R$ 1 trilhão de crédito concedido no ano passado. Ainda assim, o Bradesco e os demais bancos privados permanecem fora da política habitacional.
De acordo com Albuquerque, o tema chegou a ser discutido diretamente com o Conselho Curador do Fundo de Garantia do Tempo de Serviço (FGTS), em reuniões que contaram com a participação de outras instituições financeiras. Mas, na ocasião, a avaliação interna foi de que o modelo do programa apresentava entraves relevantes.
Entre eles, a dinâmica operacional e de prestação de contas, já dominada pela Caixa, e a forma de distribuição do orçamento, que leva em conta o tamanho das carteiras imobiliárias.
"A Caixa concentra cerca de 70% das carteiras de crédito imobiliário no país. Quando fizemos essa análise, há três ou quatro anos, vimos que, para um banco que estivesse se habilitando no programa, o volume disponível seria relativamente pequeno", afirmou o diretor de crédito imobiliário do Bradesco.
"Estamos falando de um orçamento que, no nosso caso, seria consumido em poucos meses da produção atual, tanto em pessoa física quanto jurídica, o que não justificava todo o investimento necessário em sistemas e estrutura para operar no programa", acrescentou.
Além das questões estruturais, o banco também pesou o perfil de risco do público atendido pelo programa. Segundo o executivo, trata-se de um segmento com dinâmica de inadimplência distinta daquela observada no crédito imobiliário tradicional, via Sistema Brasileiro de Poupança e Empréstimo (SBPE).
A menor familiaridade do banco com esse público e a possibilidade de uma inadimplência mais elevada "contribuíram para reduzir o apetite", segundo o executivo. "Não houve uma conjunção de fatores que nos levasse a seguir adiante", afirmou.
Bradesco não descarta reavalição do MCMV
O cenário, no entanto, começa a mudar. A reformulação do MCMV desde 2023 ampliou o alcance do programa, com a criação da Faixa 4 e sucessivos aumentos nos limites de renda e no valor dos imóveis.
Em março deste ano, o teto chegou a R$ 600 mil para essa faixa, que atende famílias com renda de até R$ 13 mil. As mudanças também elevaram o poder de compra das famílias e reforçaram o peso do programa no mercado: em algumas capitais, ele já responde por até 87% dos lançamentos, segundo levantamento da Brain à EXAME.
Albuquerque afirma que parte dos entraves originais ainda persiste, como regras de entrada e exigências operacionais, mas admite que o novo contexto pode justificar uma reavaliação. "É um novo momento. De repente, vale uma nova conversa com o Conselho Curador", afirmou.
Caixa não tem intenção de exclusividade, diz diretor
O diretor-executivo de Habitação da Caixa, Roberto Ceratto, reconhece que a ampliação do programa abre espaço para novos players e afirma que não há intenção de exclusividade.
"O déficit é gigante e quanto mais atores participarem, mais soluções serão encontradas", disse. A expectativa do banco público é consumir todo o orçamento alocado pelo FGTS neste ano, impulsionado por regras mais recentes e maior volume de recursos.
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