O que falta para o Brasil avançar em IA: os recados do South Summit

Por Leo Branco 28 de Março de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
O que falta para o Brasil avançar em IA: os recados do South Summit

A corrida por inteligência artificial já começou. Mas, no Brasil, ela esbarra em problemas antigos.

Esse foi um dos eixos centrais do segundo dia do South Summit Brazil, em Porto Alegre. Nos painéis, executivos, investidores e economistas falaram sobre a tecnologia em si e também sobre o que falta para ela avançar no país.

A discussão ganhou peso com a presença de nomes como Armínio Fraga, ex-presidente do Banco Central, além de líderes de empresas de tecnologia e infraestrutura. O ponto em comum foi o mesmo: o Brasil ainda opera com limitações estruturais.

“Vejo um país que pode ter mais crises econômicas apesar de ter também muitas oportunidades de crescer que são rotineiramente desperdiçadas”, afirmou Fraga.

O debate aponta para um cenário em que a tecnologia avança rápido, mas depende de condições básicas — como investimento, previsibilidade e qualificação — que ainda não estão consolidadas.

O movimento observado no evento é de empresas tentando crescer apesar desse contexto, muitas vezes mirando o mercado internacional desde o início.

Infraestrutura e capital ainda limitam avanço

A base física da economia apareceu como um dos pontos mais citados. Empresas que operam com dados e tecnologia destacaram a necessidade de estrutura para suportar o crescimento da IA.

Felippe Prates, CEO da Novalogic, empresa de datacenters, trouxe um exemplo prático. A companhia começou em 2016 e hoje atende clientes como Google, Facebook e Microsoft.

“Hoje a empresa precisa nascer global”, afirma.

Segundo ele, isso muda desde a forma de construir produto até a maneira de competir por clientes e profissionais. A empresa nasceu em Joinville e hoje opera na América Latina, com expansão para Europa e Ásia.

A lógica, segundo os executivos, é que a infraestrutura digital não pode mais ser pensada de forma local.

Ambiente de negócios aparece como entrave

Se a infraestrutura é um limite físico, o ambiente de negócios aparece como barreira recorrente.

Na visão de Armínio Fraga, o país enfrenta um conjunto de problemas que afetam diretamente investimento e crescimento. Entre eles estão baixa taxa de investimento, informalidade e dificuldade de planejamento de longo prazo.

O economista citou também o peso da burocracia e a falta de previsibilidade como fatores que reduzem a capacidade de crescimento.

Esse cenário impacta diretamente a construção de empresas de tecnologia, que dependem de ciclos longos de investimento e escala.

Empresas buscam crescer fora do Brasil

Diante desse ambiente, a saída encontrada por parte dos empreendedores é mirar o mercado global desde o início.

Telmo Costa, CEO da gaúcha Meta, resumiu essa mudança de postura ao falar sobre a competição internacional por clientes e talentos.

“Nosso negócio não tem fronteiras. Competimos por clientes e por profissionais em várias partes do mundo”, afirma.

Segundo ele, empresas brasileiras ainda subestimam sua capacidade de competir fora do país.

“A limitação é mental, e não física”, diz.

A referência a Israel apareceu como exemplo de país que já nasce com foco global.

Investimento exige visão de longo prazo

O tema do capital também apareceu nos debates entre investidores e empreendedores.

No painel com Alex Szapiro (head do SoftBank no Brasil) e Piero Contezini (fundador da Asaas), a discussão girou em torno da relação entre fundadores e fundos.

Piero Contezini, fundador da Asaas, destacou que o modelo da empresa exige tempo para gerar resultado. A fintech automatiza processos financeiros de pequenas empresas e cresce conforme o uso dos clientes aumenta.

Isso cria um descompasso com modelos mais tradicionais.

Segundo ele, decisões tomadas hoje podem levar de seis a doze meses para aparecer nos números, o que exige alinhamento com investidores.

Do lado dos fundos, o papel vai além do aporte financeiro, incluindo acesso a talentos, conexão com outras empresas e apoio em decisões como expansão internacional.

Fora do eixo também é estratégia

Outro ponto recorrente foi a construção de empresas fora dos grandes centros.

A Asaas nasceu em Joinville, fora do eixo Rio-São Paulo. Segundo Contezini, isso dificultou o acesso a capital no início, mas ajudou na retenção de talentos.

A localização também funciona como filtro para investidores, já que exige deslocamento para conhecer a operação.

O foco da empresa está no que o fundador chama de “Brasil com S”, formado por pequenos negócios e operações do dia a dia.

IA avança, mas depende de base estruturada

Mesmo com os entraves, a inteligência artificial apareceu como elemento presente em várias discussões.

Os debates apontaram para um uso cada vez mais integrado à operação das empresas, do atendimento ao cliente à tomada de decisão.

Ao mesmo tempo, ficou claro que o avanço da tecnologia depende de fatores que vão além do software, como infraestrutura, qualificação de pessoas e ambiente regulatório.

Outros temas do dia

Além de tecnologia e negócios, o evento trouxe outros temas ao longo do dia.

O Women@SouthSummit reuniu lideranças como Talita Lacerda (CEO da Petlove), Regina Durante (CHRO da Renner) e a investidora Cris Arcangeli para discutir a presença feminina em cargos de liderança.

Também houve debates sobre desenvolvimento urbano, com a apresentação de um plano para o Quarto Distrito de Porto Alegre, voltado a infraestrutura e inovação.

Na programação, investidores e empreendedores discutiram ainda educação empreendedora, redes de relacionamento e caminhos para crescimento de startups.

A competição de startups avançou para a fase final, com 10 empresas de países como Brasil, Espanha, Chile, Estados Unidos e Canadá.

A história do South Summit

Em meio à crise econômica que atingiu a Espanha no início da década passada, um evento surgiu com a proposta de conectar empreendedores e investidores.

O South Summit foi criado em 2012, em Madri, pela empreendedora María Benjumea em parceria com a IE Business School, escola de negócios sediada na capital espanhola.

Naquele momento, o país enfrentava desemprego acima de 20% da população adulta e mais de 50% entre jovens. A falta de crédito e a incerteza sobre o futuro pressionavam empresas e profissionais.

A ideia do South Summit nasceu desse contexto. Benjumea reuniu acadêmicos da IE, executivos de grandes empresas e representantes do governo para criar um encontro voltado a negócios e inovação. “A Espanha estava muito mal naquela época”, afirmou a empreendedora à EXAME.

Empreendedora desde o fim dos anos 1970, Benjumea já havia criado negócios como uma galeria de arte, em 1981, e o Infoempleo, plataforma de empregos lançada nos anos 1990 com a chegada da internet.

A primeira edição do South Summit foi pequena, com algumas centenas de participantes e poucos fundos de investimento. Ao longo dos anos, o evento cresceu e passou a atrair startups e investidores de vários países.

Um dos pilares do encontro é a competição de startups, que seleciona empresas com potencial de crescimento. Entre as participantes estão companhias que depois atingiram valor de mercado acima de 1 bilhão de dólares.

Com o tempo, o evento se consolidou como ponto de encontro do ecossistema de inovação na Espanha. Madri passou a atrair mais investimento em startups e ganhou espaço entre os principais polos de tecnologia na Europa.

A expansão internacional começou anos depois. Em 2022, o South Summit chegou ao Brasil, com a primeira edição realizada em Porto Alegre, no Cais Mauá. O evento reuniu cerca de 15 mil pessoas de 76 países.

A edição seguinte ampliou a estrutura, com aumento de área e número de palestrantes. Em 2025, o encontro manteve a realização na capital gaúcha mesmo após as enchentes que atingiram a região, reunindo mais de 20 mil participantes.

Hoje, o South Summit reúne startups, investidores e executivos em diferentes países, mantendo o formato baseado em conteúdo, conexões e apresentação de negócios.

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