O que faz um aiatolá e por que o cargo é tão importante no Irã
O Irã tem presidente. Então por que a morte de um aiatolá é o que pode provocar as maiores mudanças no país? Isso acontece porque, desde 1979, a autoridade máxima da República Islâmica não é o chefe de governo, e sim o líder supremo - cargo ocupado por um aiatolá.
Para entender essa estrutura, é preciso voltar à Revolução Islâmica de 1979.
As mudanças de 1979
Antes da Revolução, o país era governado por xás, monarcas que concentravam poder político. O último deles foi Mohammad Reza Pahlavi, que governou de 1941 a 1979.
Em 1953, em meio à Guerra Fria, os EUA apoiaram a derrubada do primeiro-ministro Mohammad Mossadegh, que defendia a nacionalização do petróleo. O golpe fortaleceu o xá Pahlavi, mas causou um ressentimento contra a interferência estrangeira no país.
Nas décadas seguintes, críticas ao autoritarismo do xá e às reformas da chamada Revolução Branca aumentaram a insatisfação popular. No fim dos anos 1970, milhões de iranianos foram às ruas contra o regime.
Em 1979, o aiatolá Ruhollah Khomeini liderou a transição que culminou na saída do xá, no seu retorno do exílio e na aprovação da criação de uma República Islâmica.
Meses depois, foi eleita uma Assembleia de Peritos para redigir a nova Constituição. Em janeiro de 1980, Abolhasan Bani-Sadr tornou-se o primeiro presidente do novo regime. Acima dele, porém, estava o líder supremo.
Desde então, o Irã é uma teocracia, sistema em que o líder religioso exerce também o poder político e no qual as leis se baseiam em interpretações religiosas. A palavra "aiatolá", de origem árabe, significa "sinal de Deus" e designa uma das mais altas autoridades religiosas do islamismo xiita.
O primeiro líder supremo foi o aiatolá Ruhollah Khomeini, considerado o pai da revolução, que governou até sua morte, em 1989. Ele foi sucedido pelo aiatolá Ali Khamenei, que ocupava o posto até ser assassinado nos ataques dos EUA e Israel no último sábado, 28.
Como líder supremo, Khamenei era a autoridade máxima do Irã. Ele era considerado chefe de Estado e exercia poder religioso, político e militar. Cabia a ele definir as diretrizes do país em áreas como religião, Forças Armadas e política externa. No conflito com Israel, por exemplo, partiam dele as ordens de ataques e decisões estratégicas, assessorado por integrantes do governo.
O líder supremo não é eleito diretamente pela população. Ele é escolhido pela Assembleia de Especialistas, composta por 88 clérigos xiitas eleitos por voto popular. As candidaturas, no entanto, precisam ser aprovadas previamente pelo Conselho de Guardiões, que só autoriza nomes alinhados ao regime. O mandato é vitalício - não há limite de tempo estabelecido.
O papel do presidente
Abaixo do líder supremo está o presidente, atualmente Masoud Pezeshkian. Ele pode ser entendido como chefe de governo e segundo na hierarquia do poder. É eleito pelo voto popular para mandato de quatro anos, com possibilidade de uma reeleição consecutiva - também após aprovação prévia do Conselho de Guardiões.
Cabe ao presidente administrar o dia a dia do governo, nomear ministros, formar o gabinete, propor o orçamento e conduzir a diplomacia. Ele deve ser iraniano xiita de nascimento. Apesar das atribuições, não tem controle sobre as Forças Armadas.
É por isso que a morte de um aiatolá no posto de líder supremo tem peso político e institucional muito maior do que a troca de um presidente. Em um sistema teocrático como o iraniano, é o líder religioso quem concentra a palavra final sobre os rumos do Estado.
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