O relógio de bolso está de volta? A alta relojoaria diz que sim
O mundo analógico tem ganhado adeptos nos últimos anos. As pessoas estão cada vez mais insatisfeitas com a rotina imersa na tela do celular, aparelho que concentra hoje funções que antes estavam distribuídas por vários objetos — da câmera ao despertador, do mapa ao bloco de notas, da agenda ao relógio.
Uma estratégia muito popular tem sido devolver cada função acumulada ao seu dispositivo de origem e, assim, reduzir o tempo de tela. Por exemplo, as câmeras compactas e analógicas, que reencontraram público jovem, os iPods e toca-CDs, que saíram do limbo, e os relógios de pulso tradicionais, que voltaram a concorrer com os smartwatches.
Num recorte um pouco mais específico, um formato com quase um século de hiato pode ser um dos próximos a voltar no combo "anti-celular": o relógio de bolso. Figura quase onipresente no vestuário masculino até meados de 1920, agora o acessório virou edição limitada e experimentação técnica nas mãos de marcas que vão da Audemars Piguet à Urwerk, passando por Hermès, Parmigiani Fleurier, Vacheron Constantin, IWC e independentes menores, segundo a Wallpaper.
Por que os relógios de bolso 'sumiram'?
Até os anos 1920, o relógio de bolso era o acessório padrão entre nobres e a burguesia europeia, transportado num bolso desenhado especificamente para protegê-lo. A fabricação em larga escala começou na segunda metade do século XIX. Em 1865, a americana Waltham já produzia mais de 50 mil unidades por ano, o que barateou o acesso, segundo informações da Herweg e da Bewatc.
A fama do acessório começou a ruir junto com sua utilidade durante a Primeira Guerra Mundial. Soldados precisavam consultar as horas rapidamente em campo, e sacar a peça do colete podia custar segundos decisivos. A saída foi amarrar o relógio ao pulso com tiras de couro, o improviso que pavimentou a chegada do relógio de pulso como padrão masculino no pós-guerra.
Nas décadas seguintes, o relógio de bolso manteve seu valor para um público mais nichado. Ficou associado a formaturas de medicina e direito, a uniformes de ferroviários e médicos, e ao mercado de colecionadores de peças vintage, que nunca deixou de movimentar leilões e casas especializadas.
"Os colecionadores de relógios se interessam por relógios de bolso porque os consideram uma parte importante da história da relojoaria", disse à revista britânica Wallpaper David Steyffer, chefe de arquivo da IWC, marca que lançou seu último relógio de bolso em 2018, para marcar os 150 anos de fundação.
A volta dos que foram
O retorno ao campo visual do grande público veio, de certa forma, do streaming. A série Peaky Blinders, ambientada na Inglaterra do entreguerras, transformou o simples gesto de sacar o relógio do bolso do colete em um símbolo de uma geração de anti-heróis e ajudou a recolocar o acessório no radar da nova geração.
Tudo isso em um período em que a estética retrô já vinha se firmando no vestuário masculino e em que a alta relojoaria reaproveitava peças de arquivo e datas comemorativas para novos lançamentos. Com isso, surgiu uma oportunidade para que marcas tradicionais voltassem a tratar o formato como um produto em potencial.
Edições limitadas, peças de arquivo
Várias marcas estão aproveitando o retorno dos relógios de bolso para diversificar seus portfólios, principalmente as que estão no topo da pirâmide de luxo. A Vacheron Constantin, por exemplo, produziu em 2024 o relógio mais complexo já feito — o Les Cabinotiers Berkley, um relógio de bolso com 63 complicações.
A Parmigiani Fleurier lançou recentemente o La Revenale, relógio de bolso Lepine com repetidor de minutos e um calibre histórico ultrafino restaurado, em homenagem ao aniversário do fundador. É o terceiro relógio de bolso da marca.
"O relógio de bolso continua sendo um objeto de emoção, mesmo que seja raro vê-lo em uso no dia a dia hoje em dia", disse Guido Terrini, CEO da Parmigiani Fleurier, à Wallpaper. Terrini argumenta que o formato oferece mais espaço de experimentação no design e na mecânica, e que os mecanismos de relógios de bolso são tecnicamente mais interessantes para os relojoeiros do que os dos relógios de pulso.
Fora do segmento de ultraluxo, a Hermès virou fabricante regular do formato, com destaque para o Arceau Chevaloscope Neon, em esmalte azul. A Urwerk, que lançou um relógio de bolso há uma década, quer reaproveitar o formato num projeto de relógio atômico portátil. "O tamanho é tal que ele caberia perfeitamente dentro de uma caixa de relógio de bolso, e criamos alguns designs interessantes", afirmou à Wallpaper o cofundador Martin Frei.
No fim de 2025, os estúdios Studio Underdog e Christopher Ward uniram-se para produzir o Alliance 02, edição limitada de 100 peças, já esgotada. Richard Benc, fundador do Studio Underdog, disse à Wallpaper que já pensa numa segunda colaboração no formato e descreve o apelo da peça como uma adequação a um ritmo de vida diferente, em que checar as horas se torna um gesto mais intencional.
Resta saber se o hábito atual de sacar o celular para ver as horas pode empurrar os mais jovens, que não usam relógio de pulso, a adotar o antecessor. Terrini, da Parmigiani, tem dúvidas. Pegar um relógio de bolso é, segundo ele, "um gesto bonito — é olhar para as horas com mais atenção", mas pular do smartphone direto para o relógio de bolso, ignorando o de pulso, significa para ele perder "toda uma fase de aprendizado necessária".
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