O setor bancário não quer juros altos, diz presidente da Febraban
Os juros elevados no Brasil têm pressionado o orçamento das famílias, aumentado o comprometimento da renda e contribuído para níveis recordes de endividamento e inadimplência. Na avaliação de Isaac Sidney, presidente da Federação Brasileira de Bancos (Febraban), o setor bancário não tem interesse em manter esse cenário, já que taxas elevadas acabam ampliando justamente o problema do endividamento das famílias.
“Os juros estão em patamares muito elevados. Nenhum de nós deseja manter esse patamar, porque leva ao aumento do endividamento das famílias. Nós não queremos juros altos, como muitas vezes se pensa do setor bancário”, afirmou durante o Fórum de Bem-estar Financeiro da Sicredi.
Segundo Sidney, o país vive um cenário de endividamento elevado, em níveis recordes tanto no comprometimento da renda mensal quanto na inadimplência. O dirigente afirmou que o desafio exige uma abordagem coordenada e técnica entre os diferentes agentes do sistema financeiro, sem “apontar dedos”.
Estoque saudável x crédito problemático
Na avaliação do presidente da Febraban, é preciso separar o chamado “endividamento saudável” daquele considerado problemático. Segundo ele, cerca de 80,4% do estoque de dívida das famílias está concentrado em linhas de longo prazo, com juros mais baixos e voltadas à formação de patrimônio ou aquisição de bens duráveis.
“Esse crédito tem taxas de juros mensais entre 1,2% e 1,3%, portanto uma taxa razoável para o padrão de spread bancário no Brasil”, afirmou.
Nesse grupo estão modalidades como financiamento imobiliário, crédito consignado, financiamento de veículos e compra de eletrodomésticos. Para ele, esse tipo de operação tem papel importante na economia e no acesso das famílias a patrimônio e consumo durável.
Por outro lado, cerca de 17% do estoque estaria concentrado em um crédito considerado mais crítico: linhas de curto prazo, emergenciais e com juros mais elevados. “Nossa preocupação está nesse estoque de endividamento problemático, que corrói o orçamento e reduz a qualidade de vida das pessoas”, disse.
‘Crédito não é renda’
O dirigente também afirmou que houve uma mudança no papel do crédito dentro das famílias brasileiras. Segundo ele, parte da população passou a utilizar empréstimos como complemento de renda para sustentar despesas correntes, o que considera um sinal preocupante.
“Crédito não é complemento de renda e muito menos renda. Crédito é crédito, portanto é empréstimo”, afirmou.
Ele ponderou que a expansão da oferta de crédito, por si só, não deve ser vista como algo negativo. Segundo ele, o estoque de crédito no Brasil representa cerca de 55% do Produto Interno Bruto (PIB), acima dos cerca de 25% registrados na época do Plano Real, mas ainda abaixo do observado em países desenvolvidos.
Apesar disso, reconheceu que linhas sem garantia e com juros elevados acabaram ganhando peso no orçamento das famílias, especialmente em um contexto de aumento do custo de vida.
Endividamento recorde e apostas online
Mesmo diante de um mercado de trabalho mais forte e de crescimento da renda acima da inflação, o endividamento continua avançando. “A reflexão é: o crédito deixou ou não de ser um instrumento de antecipação de despesas e passou a ser um instrumento de sobrevivência?”, questionou.
Ele também citou fatores comportamentais entre as causas do problema, como baixa educação financeira, dificuldade de planejamento e pouca compreensão sobre juros e prazos.
Outro ponto destacado foi o crescimento das apostas e jogos online. Segundo ele, esse fenômeno “não estava no radar da indústria financeira” e passou a comprometer uma parcela relevante da renda das famílias.
“Nos deparamos com isso drenando recursos das famílias. Isso tem sido preponderante no orçamento doméstico e dificultado ainda mais a situação financeira das pessoas”, afirmou.
Renegociação não resolve causa estrutural
O presidente da Febraban afirmou ainda que programas de renegociação de dívidas têm alcance limitado, porque ajudam a reorganizar passivos, mas não atacam as causas estruturais do problema.
Para ele, o enfrentamento do endividamento exige uma atuação conjunta entre bancos, Banco Central do Brasil, cooperativas e demais instituições financeiras, além de monitoramento contínuo e políticas públicas “bem calibradas”.
“O endividamento das famílias tem sido um fenômeno complexo, persistente, que reflete questões econômicas, mas também comportamentais”, afirmou.
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