Obras de Picasso e Dalí em joias inéditas no Brasil
O Ateliers Hugo, casa francesa que há três gerações edita joias e objetos desenhados por artistas, estreou na América Latina na SP-Arte deste ano. Em parceria com a galeria paulistana Gomide & Co, o ateliê levou 30 peças de seu acervo ao Pavilhão da Bienal, no Parque Ibirapuera, entre os dias 8 e 12 de abril.
Foi a primeira vez que obras assinadas por Picasso, Salvador Dalí, Max Ernst, Jean Cocteau e André Derai, entre outros, foram apresentadas em conjunto no Brasil. Quem comanda o ateliê hoje é Nicolas Hugo, neto do fundador François Hugo e descendente do escritor Victor Hugo.
A ponte com o Brasil veio pela mulher de Nicolas, Elvire de Kermel, e por sua amiga de faculdade Gabriela Paschoal, dona da multimarcas Pinga, que apresentou o ateliê à Gomide & Co.
Da moda à arte
François Hugo fundou o ateliê em Paris, em 1933. Antes de chegar à joalheria, passou pela marcenaria, pela encadernação e pela tecelagem, ofício que aprendeu na Escócia e que rendeu uma parceria com Coco Chanel nos anos 1930. Quando voltou os olhos para o metal, começou pela moda — fez botões e bijuterias para Chanel, Elsa Schiaparelli, Lanvin, Dior e Hermès.
Era o período em que Schiaparelli, italiana radicada em Paris, levava o surrealismo para a alta-costura ao lado de Salvador Dalí. A colaboração entre os dois, iniciada em 1936, produziu peças que entraram para a história do século 20, como o Shoe Hat, chapéu em formato de sapato invertido inspirado numa fotografia de Dalí com o sapato da mulher, Gala, no ombro.
Outros ícones nascidos dessa colaboração foi o Lobster Dress, vestido de seda branca com uma lagosta vermelha estampada; e o Skeleton Dress, em crepe preto com ossos em relevo. A parceria durou até o fechamento do ateliê de Schiaparelli, em 1954.
Peças produzidas pela Schiaparelli em parceria com Salvador Dalí (Reprodução/Fashion In History/Schiaparelli)
A virada do Ateliers Hugo aconteceu nos anos 1950, quando Picasso, instalado no sul da França, quis traduzir desenhos em metal, e teria pedido ao próprio dentista que fundisse pequenas peças em ouro nos intervalos das consultas. O profissional negou e indicou François Hugo, que àquela altura já havia mudado o ateliê para Aix-en-Provence, onde funciona até hoje. A partir de Picasso, vieram Max Ernst, Cocteau, Derain, Jean Arp e Dorothea Tanning.
Como funciona a edição
Cada peça é produzida em tiragem limitada e numerada, a partir do desenho do artista. O processo é manual e usa a técnica chamada de repoussé, em que uma chapa de metal maleável é colocada sobre um molde esculpido e martelada pelo avesso até atingir a forma final.
O ateliê produz cerca de 30 itens por ano. Os contratos são firmados com o artista em vida e seguem válidos depois da morte, desde que respeitada a quantidade combinada. "Ainda temos peças de Jean Cocteau, criadas em 1961, que posso produzir hoje", disse Nicolas ao Valor. Quando a edição se esgota, a matriz é destruída e entregue aos herdeiros.
A Gomide & Co vai apresentar pratos e doze joias desenhadas por Picasso, entre eles o broche-pingente Rond, peça oito de uma série de 20, em ouro 23,9 quilates — liga característica da casa — por 28 mil euros.
O medalhão Tête à Cornes, de Max Ernst, está à venda por 78,7 mil euros. Um faqueiro desenhado por Dalí em 1957, em ouro, prata, esmalte e cristais, sai por 49,5 mil euros (foto de destaque). Também estará disponível o broche Mademoiselle Pieuvre, em formato de polvo, da americana Dorothea Tanning, à época casada com Max Ernst.
O medalhão Tête à Cornes (1959), de Max Ernst; o broche Mlle. Pieuvre, em formato de polvo, da americana Dorothea Tanning; e um dos broche-pingente Rond, desenhados por Picasso (Reprodução/Sotheby's/Mutual Art)
Próximos passos no Brasil
A estreia em São Paulo vai além da venda das peças do acervo. Nicolas Hugo afirmou ao Brazil Journal que está negociando uma colaboração com uma artista brasileira, sem revelar o nome enquanto o contrato não for fechado.
A casa também prepara o lançamento de peças com outros artistas contemporâneos. "Pela particularidade do negócio e o uso de material nobre, é importante que esses criadores já tenham reconhecimento para alcançar valor no mercado", disse ao Valor.
Autenticação e revenda
O ateliê controla o mercado secundário das peças que produziu. Nicolas atua na recompra de obras em mãos de particulares e detém os direitos de autenticação. "Nós somos os únicos que fazemos isso. Não os Picasso, não os Ernst, não os Cocteau", afirmou ao Valor.
Segundo ele, a casa rastreia cerca de 60% de tudo o que foi produzido desde os anos 1950. Entre os recordes recentes está um leilão da Sotheby's em Hong Kong, no qual uma série de 24 pratos de prata desenhados por Picasso foi vendida por 2,2 milhões de dólares.
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