Oficina sem mecânico? Conheça o espaço em SP onde o cliente conserta seu próprio carro

Por Guilherme Gonçalves 29 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Oficina sem mecânico? Conheça o espaço em SP onde o cliente conserta seu próprio carro

O gaúcho Henrique Andrade não é mecânico. Hoje, ele mora em um apartamento na zona oeste de São Paulo e, como muitos paulistanos, tem dificuldade para encontrar um mecânico de confiança. Sendo assim, ele aprendeu a fazer reparos no próprio carro assistindo videos na internet, porém não tem os equipamentos necessários para colocar seu conhecimento em prática.

Recentemente, ele descobriu um espaço perfeito para essa necessidade. Criada em São Paulo, Officina 37 é uma oficina sem mecânicos que funciona como um coworking automotivo, modelo de espaço compartilhado para trabalho. Em vez de contratar o serviço, o cliente aluga um box equipado e executa o reparo por conta própria. Os preços vão de R$ 25 a R$ 30 por hora.

“Aqui em São Paulo, como não se tem espaço em condomínio para conseguir mexer no carro, para conseguir trabalhar ou ter ferramentas, isso vira uma facilidade absurda”, diz Andrade.

O caso de Andrade não é isolado. Falta de espaço, custo elevado e desconfiança em oficinas tradicionais aparecem com frequência entre os clientes.

“O custo de mão-de-obra aqui em São Paulo é elevado, a gente não tem tanta confiança no mecânico. Então, pra gente fica muito mais fácil e muito mais seguro que o serviço ficou bem feito”.

Esse perfil — que o fundador chama de “mexânico”, um entusiasta que faz o próprio reparo — representa cerca de 70% dos usuários da Officina 37. A ideia inicial, porém, era outra.

Como a dor dos 'mexânicos' virou modelo de negócio

O negócio surgiu em um momento de pressão no setor automotivo. Entre 2018 e 2022, mais de 600 concessionárias fecharam no Brasil, segundo dados da Federação Nacional da Distribuição de Veículos Automotores (Fenabrave). Foi nesse contexto que Alexandre Adami, fundador da Officina 37, decidiu criar um modelo alternativo.

“Um belo dia me deu um estalo. Por que não abrir um coworking para mecânico?”, diz.

A empresa levou mais de um ano para se tornar sustentável e agora prepara a expansão via franquias — ainda com cautela, diante de um modelo que exige mudança de comportamento do consumidor.

Adami construiu carreira no setor automotivo. Entrou em uma concessionária Fiat em 1994, passou por diferentes cargos até chegar à montadora e também trabalhou na Ford. Ao todo, foram quase 30 anos no setor. Ele deixou o mercado em 2022, após a saída da Ford do Brasil e em meio aos impactos da pandemia.

“Eu estava visitando alguns amigos mecânicos. Um estava trabalhando de Uber, o outro fazendo bico. Eles não tinham espaços para trabalhar. Abrir uma oficina custa caro”, diz Adami.

A proposta inicial era criar um espaço para esses profissionais: mecânicos sem capital para montar uma oficina própria. Porém, depois da inauguração, surgiu um novo público.

Como funciona a Officina 37

A unidade fica no bairro do Ipiranga e tem 18 boxes de trabalho. Dez deles têm elevadores e oito contam com estruturas mais simples. Todos possuem bancada, ferramentas básicas, energia, ar comprimido e internet.

Equipamentos específicos são cobrados à parte. Não há mecânicos fixos no local — a empresa atua apenas como locadora de espaço, então quem for se arriscar não terá ajuda nenhuma. Além dos clientes individuais, o espaço passou a ser usado para gravações, treinamentos e produção de conteúdo automotivo.

“Uma coisa acabou trazendo a outra”, diz. O maior desafio no início não foi estrutural, mas cultural. “Eu tinha muita aceitação e pouca participação. As pessoas gostam muito do modelo de negócio, mas têm aquela resistência”, afirma.

A operação levou 13 meses para atingir equilíbrio. Durante esse período, a empresa operou no vermelho.

“Eu trabalhei praticamente todo o primeiro ano no vermelho. Eu tava descobrindo a utilidade e funcionalidade de uma série de coisas”, diz.

Hoje, a unidade fatura R$ 21 mil por mês, com expectativa de chegar a R$ 24 mil mensais até o final de 2026.

Expansão com cautela

Com o modelo mais ajustado, a Officina 37 prepara a entrada no mercado de franquias. O investimento por unidade deve ficar entre R$ 700 mil e R$ 800 mil, com retorno estimado em cerca de 40 meses.

A demanda já existe: cerca de 30 interessados procuraram a empresa, sendo que 14 deles estão em estágio mais avançado de negociação. Mesmo assim, a expansão será gradual.

“Eu gostaria de abrir a primeira unidade em Brasília, temos um casal de interessados que está com muita vontade de ter uma loja com o nosso modelo. Mas estamos avaliando se um pulo tão distante aumentaria muito o risco”, diz.

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