Os 4 indicadores que toda empresa precisa acompanhar, segundo CEO de 800 franquias

Por Isabela Rovaroto 20 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Os 4 indicadores que toda empresa precisa acompanhar, segundo CEO de 800 franquias

Quando Carla Sarni perguntou para Bruna Brindaglia se ela acompanhava algum indicador do próprio negócio ao menos uma vez por mês, a resposta foi direta: não. "Nenhum? Misericórdia", reagiu Carla, CEO do Grupo Salus, holding com mais de 800 franquias no setor de saúde e beleza que controla marcas como Sorridents e Gil Estética Avançada.

A cena aconteceu no novo episódio do Choque de Gestão, série da Exame que coloca empreendedores frente a frente com especialistas para revelar e resolver os gargalos invisíveis de um negócio.

Bruna é fundadora da Clínica Brindaglia, em Santo André, no ABC Paulista. São sete anos de história, dois andares de estrutura, equipe própria e cerca de 200 atendimentos por mês. Começou com 30 clientes em salas alugadas e cresceu organicamente, grande parte pelo boca a boca — 60% das clientes chegam por indicação.

O crescimento trouxe um problema clássico: quanto maior ficou o negócio, mais ele passou a depender da presença física da dona. Pós-venda inexistente, portfólio inchado, alta rotatividade de equipe e, agora revelado na conversa com Carla, ausência total de métricas de gestão.

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É nesse cenário que os quatro indicadores entram em cena. Carla Sarni construiu seu império com método. Toda segunda-feira, ela senta para olhar quatro números. Não importa o tamanho do negócio, não importa o setor. Para ela, esses quatro indicadores são universais.

"O time precisa ter clareza. Precisa saber aonde estamos melhorando, onde não estamos crescendo e quais são as estratégias para atingir os objetivos", disse ela durante o episódio.

Sem números, essa conversa simplesmente não acontece e a empresa vai tocando no piloto automático até que alguma coisa quebre.

O alerta é especialmente relevante para pequenos e médios empreendedores, que frequentemente operam no modo "apagar incêndio" e deixam a gestão estratégica para depois. O problema é que "depois" raramente chega.

Os quatro indicadores que todo negócio deve acompanhar

Carla Sarni no Choque de Gestão: "Quanto maior for o lead time, maior é a chance de perder esse cliente" (Leandro Fonseca/Exame)

1. Taxa de conversão

O primeiro indicador que Carla monitora é a taxa de conversão: de todos os clientes que entram em contato ou visitam o negócio, quantos efetivamente fecham? Esse número revela a qualidade do processo comercial e expõe problemas que o faturamento bruto esconde.

"Quantos clientes estão entrando e quantos estão fechando? Isso mostra a minha qualidade. Mostra se o meu processo está funcionando", explica.

A comparação deve ser feita mês contra mês e ano contra ano, para identificar tendências e sazonalidades.

Uma queda na conversão pode significar problema de atendimento, precificação inadequada, concorrência crescente ou proposta de valor confusa e nenhuma dessas causas aparece se o empreendedor só olha para o caixa.

2. Captação de novos clientes

O segundo indicador é o volume de novos clientes entrando no negócio a cada mês — e, mais importante, de onde eles vêm. "Eu voltei a estratificar isso: quantos vieram pelo online, quantos vieram por indicação", diz Carla.

Essa divisão importa porque o custo de aquisição e o comportamento de compra variam radicalmente conforme o canal. Um cliente que chega por indicação, como Carla mesmo explicou, já vem com um nível de confiança pré-construído e fecha mais rápido, gasta mais e tende a indicar outros.

Um cliente vindo de anúncio pago, por outro lado, pode exigir mais esforço de convencimento e ter menor fidelização. Saber de onde vêm os melhores clientes é o primeiro passo para investir energia no lugar certo.

No caso da Clínica Brindaglia, 60% das clientes chegavam por indicação — um número expressivo que, paradoxalmente, não estava sendo cultivado por nenhum sistema formal de relacionamento. O boca a boca funcionava apesar da gestão, não por causa dela.

3. Ticket médio

O terceiro indicador é o ticket médio, o valor médio gasto por cliente em cada visita. Para Carla, esse número é sobre "vender mais e melhor para o mesmo cliente". E ele tem uma relação direta com fidelização.

"O cliente fidelizado, o cliente que volta, ele automaticamente aumenta o ticket médio, porque o nível de confiança dele aumenta", diz a CEO. "Em estética, beleza e bem-estar, o primeiro pilar das vendas é confiança. O segundo é credibilidade. O terceiro é relacionamento. O quarto é a experiência."

Essa progressão importa porque ela muda a lógica do negócio. Em vez de depender eternamente de novos clientes para crescer a receita, uma empresa com ticket médio crescente consegue faturar mais com a mesma base. É a diferença entre uma esteira que precisa correr mais rápido o tempo todo e um motor que vai ganhando eficiência.

4. Lead time

O quarto indicador é o lead time: o tempo que passa entre o primeiro contato do cliente e o fechamento do negócio.

"Quanto maior for o lead time, maior é a chance de perder esse cliente. Quanto menor, mais sucesso eu vou ter", diz Sarni.

O cenário ideal, segundo ela, é o que chama de "venda de impacto": o cliente entrou, o cliente fechou. "É o melhor dos mundos, porque eu não preciso correr atrás ou ir buscar aquele cliente novamente com o pós-venda." Um lead time longo não é só ineficiência, é uma janela aberta para a concorrência entrar.

No contexto de uma clínica de estética, isso pode significar a diferença entre uma cliente que agendou na mesma ligação e outra que "vai pensar" e nunca mais retorna. Em outros setores, o raciocínio é o mesmo.

Por que CRM é o elo entre os quatro indicadores

Um dos pontos centrais da mentoria de Carla foi a recomendação de um CRM, o sistema de gestão de relacionamento com clientes. Não porque seja uma ferramenta glamourosa, mas porque ela é o que conecta os quatro indicadores numa visão coerente do negócio.

Sem CRM, o acompanhamento de conversão é manual e impreciso, a captação de novos clientes não é rastreada por canal e o ticket médio é estimado, não medido. O lead time nem existe como conceito, porque ninguém sabe quanto tempo passou entre o primeiro contato e o fechamento.

"Se você não quiser investir no CRM hoje, você vai precisar investir em pessoas. Uma coisa não vai isentar a outra", afirma Carla Sarni.

Para quem acha que o sistema é caro ou complexo demais, ela lembra que a alternativa, contratar alguém para fazer tudo manualmente, é igualmente custosa e muito mais frágil. Pessoas tiram férias, ficam doentes, pedem demissão. Um sistema bem configurado, não.

A recomendação vai além: Carla sugere combinar CRM com inteligência artificial para reduzir o que chama de "no show", clientes que agendam e não aparecem. "Quando você coloca CRM com IA e um humano para interagir numa determinada fase, o no show é muito menor", explicou.

Quem vende tudo não vende nada

Os quatro indicadores sozinhos, no entanto, não resolvem tudo. Carla fez questão de endereçar outro problema que identificou na clínica: o portfólio excessivamente amplo. Botox, emagrecimento, spa, laser, nutrição, bronzeamento, e, na fila de espera, transplante capilar.

"Quanto mais serviços e produtos você tiver, mais você vai ter que comunicar e mais confunde o cliente", diz Sarni.

Um negócio que precisa gastar fortunas em marketing para explicar o que vende tem um problema de posicionamento, não de verba. "Defina claramente o que o seu negócio irá oferecer e procure purificar, dentro desses protocolos, para que seja muito claro para o cliente aonde ele busca aquele tratamento."

Sua sugestão foi aplicar o Princípio de Pareto ao portfólio: identificar os 20% de serviços que geram 80% da receita e colocar energia neles.

"Tem coisa que só gera volume, não gera receita e que não faz mais sentido estar. Mas tem coisa que traz muito resultado para o cliente, que te gera receita. Coloca a tua energia nisso", diz Sarni.

Dica bônus: ambição como estratégia

Ao encerrar sua participação no episódio, Carla deixou uma última mensagem — e talvez a mais direta de todas. "Tenha ambição. Ambição não é pecado, preguiça é. Crescer não pode ser um desejo, é uma necessidade."

Para Bruna, o episódio chegou num momento de transição. Ela acaba de rebrandear o negócio de "estética" para "clínica" e planeja incluir médicos de longevidade no espaço.

Saiu do choque com o plano de implementar reuniões semanais com a equipe, trocar o sistema de cadastro por um CRM de verdade e revisitar o portfólio com coragem para tirar o que não faz mais sentido.

Os quatro indicadores? Esses ela vai começar a olhar toda semana, como Carla faz há muitos anos.

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