Sem lucro nem imposto: como será o supermercado 'socialista' de Nova York
O prefeito democrata de Nova York, Zohran Mamdani, anunciou, nesse domingo, 12, que a cidade abrirá um supermercado municipal no bairro de East Harlem, em Manhattan, até o fim de 2027. A abertura de mercados assim foi uma promessa de campanha do prefeito, eleito em novembro do ano passado, e faz parte de uma estratégia para baixar os preços da comida na cidade.
"Vamos tornar mais fácil para os nova-iorquinos colocarem comida na mesa. Nas nossas lojas, os ovos e o pão serão mais baratos", disse Mamdani. "Eu fui eleito como um democrata socialista, e vou governar como um democrata socialista", disse.
O prefeito, no entanto, não detalhou quanto os produtos iriam custar. As novas lojas não terão fins lucrativos e serão isentas de aluguel e de taxas municipais, e a expectativa é que essa redução de custos seja repassada aos preços.
Há dúvidas, também sobre os custos da iniciativa. A cifra para a construção de um único mercado – que abrirá em um estabelecimento no histórico mercado de Nova York, La Marqueta, no passado um mercado vasto, mas atualmente reduzido – gira em torno de US$ 30 milhões, e o prefeito almeja um total de cinco mercados desse tipo, um em cada região novaiorquina – Manhattan, Bronx, Brooklyn, Queens e Staten Island –, sua promessa como candidato.
De acordo com dados da empresa de consultoria internacional Mercer, Nova York é a sétima cidade com maior custo de vida do mundo, acima de Londres, Los Angeles e Dubai.
Se os valores se mantiverem na casa dos custos estimados para o mercado de Manhattan, a empreitada poderá custar até 150 milhões de dólares, e Mamdani visa construir todos os cinco até o fim de seu mandato, em 2029.
Para cumprir o orçamento, o prefeito utilizará o dinheiro proveniente de aluguéis – altamente taxados para os proprietários sob seu mandato – e da indústria imobiliária.
Durante sua campanha, Mamdani estimou que a operação das cinco lojas custaria, no total, 60 milhões de dólares por ano. Estimativas de especialistas em políticas alimentícias do Civil Eats, veículo jornalístico que acompanha a situação alimentar americana, apontam para uma cifra de 100 milhões por ano, um número calculado com base nas taxas das uniões trabalhistas atuais.
Além dos custos reduzidos, o prefeito expressa o desejo de que os novos mercados também ofereçam mais oportunidades de “emprego de qualidade”. East Harlem abriga uma comunidade majoritariamente pobre e composta por imigrantes latinos. A representante local, Elsie Encarnacion, expressa sua satisfação com o plano: “Isso significa ter acesso a alimentos saudáveis e acessíveis, que sejam, idealmente, culturalmente relevantes”, disse ela ao New York Times.
Zohran Mamdami, prefeito de Nova York, ao anunciar novo supermercado público, em East Harlem (Spencer Platt/AFP)
As medidas de Mamdani, apesar do apoio popular, enfrentam fortes críticas, especialmente entre empresários do setor privado.
Seus críticos apontam riscos ao setor privado, com John Catsimatidis, dono de duas franquias de supermercados na cidade e notoriamente republicano, alertando que os mercados municipais poderiam provocar “as filas para pão da antiga União Soviética”. Economistas alertam que as lojas teriam margens de lucro extremamente baixas, e teriam de ser suportadas pelo governo por anos.
Outros se perguntam se os novos mercados seriam capazes tanto de reduzir significativamente os preços quanto, com apenas 5 lojas, de ter um impacto perceptível em uma cidade de mais de oito milhões de pessoas.
Além disso, o prefeito busca abrir as lojas, uma vez que a cidade enfrenta um grande déficit orçamentário de US$ 5,4 bilhões, que já resultou no democrata reduzindo muitos custos, como contratos com companhias privadas, a fim de economizar dinheiro para preencher o vazio orçamentário. Membros da administração de Mamdani também identificaram mais 1,3 bilhões em economias potenciais por meio de cortes em programas endossados pelo democrata em sua campanha.
Mesmo assim, o democrata propôs 70 milhões de dólares em financiamento municipal para a abertura do primeiro mercado, medida que deve ser aprovada pelo Conselho Municipal. Julie Menin, porta-voz do Conselho, disse, em comunicado, que reveria o plano e examinaria o “impacto sobre consumidores e pequenos negócios”.
“Enquanto nossa cidade enfrenta crises fiscais e de acessibilidade contínuas, o Conselho Municipal está identificando soluções responsáveis para reduzir custos e combater a insegurança alimentar”, disse.
Nenhum comentário disponível no momento.
Comentários
Deixe seu comentário abaixo: