Os destaques da Bienal de Arquitetura Brasileira, que se inspira nos biomas

Por Marina Semensato 6 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
Os destaques da Bienal de Arquitetura Brasileira, que se inspira nos biomas

A primeira edição da Bienal de Arquitetura Brasileira (BAB) abriu no fim de março no Parque Ibirapuera, em São Paulo, e fica em cartaz até 30 de abril. O evento ocupa o Pavilhão das Culturas Brasileiras — projetado por Oscar Niemeyer — e reúne 28 pavilhões assinados por arquitetos de diferentes regiões do país, cada um com 100 m², organizados e inspirados a partir dos biomas brasileiros.

A BAB foi idealizada pelos fundadores da Archa, Anna Rafaela Torino, Raphael Tristão e Felipe Zullino, e opera de forma independente e sem fins lucrativos. Os projetos foram selecionados por concurso público.

O pano de fundo é uma pesquisa Datafolha encomendada pela CAU Brasil em 2022, que apontou que apenas 9% das reformas no Brasil contam com o apoio de um arquiteto. "A BAB nasce para ampliar esse olhar, propondo que a arquitetura seja percebida como cultura, como pensamento e como repertório cotidiano — algo que atravessa a vida das pessoas muito antes e muito além da obra", disse Anna Rafaela Torino, diretora de conteúdo da BAB.

"Apostamos em um discurso acessível, que tenta mostrar que a arquitetura está em tudo", disse Raphael Tristão, um dos curadores, ao Estadão. "O percurso convida o visitante a refletir sobre como habitamos e como nossos modos de vida se relacionam com nosso território."

Projetos destaques

Já pensou em morar numa casa feita por uma impressora 3D? O projeto apresentado pelo escritório Superlimão, em parceria com a startup Portal 3D e o Digital Construction Lab da USP, apresenta uma estrutura cujos pilares foram produzidos por um braço robótico adaptado da indústria automotiva.

O equipamento deposita microconcreto de alta resistência camada por camada, e cada peça leva cerca de quatro horas para ficar pronta. A forma veio da natureza: os pilares foram inspirados na estrutura do galho da folha de bananeira, com cavidades internas que reduzem o consumo de material e melhoram o desempenho térmico. "A gente cria uma estrutura extremamente rígida e leve ao mesmo tempo. Ela é oca, então gasta muito menos material do que um pilar tradicional", explicou Lula Gouveia, do Superlimão, ao G1.

A planta abandona o retângulo e adota geometria hexagonal. O fechamento usa mantas de lã de PET reciclado e revestimento de terra — um regulador natural que absorve umidade nos dias úmidos e a devolve ao ambiente nos secos. A estrutura flutua sobre o terreno e será desmontada ao fim da bienal para ser remontada em outro local.

"A dor do construtor hoje é mão de obra. Está cada vez mais difícil encontrar profissionais para esse tipo de trabalho, que é muito pesado. O robô vem para auxiliar isso", disse Mateus Fernandes, fundador da Portal 3D, também ao G1.

Casa Empate - Acre

A Casa Empate, do Acre, está entre os destaques por articular arquitetura e memória política (Reprodução/Divulgação)

A Casa Empate parte de uma memória política para construir um ambiente doméstico. O projeto, criado pela arquiteta acreana Marlúcia Cândida com apoio de Marcelo Rosenbaum, homenageia as seringueiras que participaram dos "empates" — mobilizações de resistência pacífica ao desmatamento nas décadas de 1970 e 1980.

Superfícies permeáveis, luz filtrada e vegetação integrada ao espaço constroem um interior que não separa a casa da floresta. A materialidade se baseia em conhecimentos construtivos amazônicos e o conjunto propõe um modo de habitar baseado no cuidado e na valorização das culturas locais.

Caminho dos Rios — Studio Tuca

Ambiente “Caminho dos Rios”, assinado pelo Studio Tuca, no Pavilhão de Pará (Felipe Petrovsky/Divulgação)

A arquiteta Tuane Costa enfrentou uma pergunta difícil: como representar, em 100 m², um estado atravessado por rios tão distintos quanto o Xingu e o Tapajós?

A resposta veio pelo mapa hidrográfico do Pará. As curvas do ambiente seguem o traçado dos rios — Xingu, Tapajós, Guamá e Marajó aparecem como referências simbólicas — e os materiais, entre madeira, palha e obras de artistas locais, reforçam a identidade do território. O percurso remonta o estado, então, quem o atravessa também faz esse caminho.

Casa Adélia Prado — Marina Reis

Casa Adélia Prado, de Minas Gerais, idealizada pela arquiteta Marina Reis, sustenta seu conceito no cotidiano e ordinário (Reprodução/Sirlei Oldoni)

No Cerrado, a arquiteta Marina Reis assina um projeto inspirado na obra da poetisa Adélia Prado. Cores terrosas, soluções simples e uma atmosfera que valoriza o cotidiano como matéria-prima. "O extraordinário mora no ordinário", disse a arquiteta ao Estadão.

Querência Amada — Matte Arquitetura e Studio Carbono

O projeto “Querência Amada” representa o RS na BAB (Reprodução/Divulgação)

O projeto, assinado por dois escritórios de Bento Gonçalves, no Rio Grande do Sul, parte da ideia de que a querência é um sentimento antes de ser um lugar. O espaço valoriza convivência e permanência, apostando em tons terrosos, madeira e texturas naturais.

Zissou e Rodrigo Ohtake

Cama Lumo, por Rodrigo Ohtake para a Zissou

A marca de camas e colchões Zissou assina um dos espaços da bienal em parceria com o arquiteto Rodrigo Ohtake, usando a mostra como palco para o lançamento da cama Lumo. O projeto tem como premissa uma estrutura que parece suspensa — a base some e cama e colchão ficam visualmente flutuando no ambiente. "Lumo flutua e não é uma metáfora. A estrutura desaparece e cama e colchão ficam suspensos no ar, separando o sono do ruído e de tudo que já não importa", explicou Ohtake.

O espaço funciona também como zona de descompressão: colchões e travesseiros ficam disponíveis para o público experimentar durante a visita. "A ideia é o visitante conhecer o lançamento e interagir com os diferentes produtos da marca, em uma experiência que torna o espaço num local de relaxamento coletivo", disse Ilan Vasserman, cofundador da Zissou.

Como chegar à bienal?

A Bienal de Arquitetura Brasileira fica em São Paulo até 30 de abril, das 12h às 21h, no Pavilhão das Culturas Brasileiras, Parque Ibirapuera, São Paulo. A entrada é pelo portão 3 da Avenida Pedro Álvares Cabral.

Os ingressos estão disponíveis a partir de R$ 80 nos dias de semana e R$ 100 aos fins de semana. A compra é feita exclusivamente pelo site oficial da BAB (https://www.bienaldearquiteturabrasileira.com/).

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