Os EUA vão retirar a Espanha da Otan? Entenda as possíveis consequências
Um e-mail interno do Pentágono, principal órgão militar dos Estados Unidos, discute opções de retaliação contra aliados da Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan) que a Casa Branca acredita terem falhado em prestar suporte aos EUA em suas operações no Irã. Dentre as ideias, está a remoção total da Espanha – membro da Otan desde 1982 – da aliança e a revisão da posição oficial americana em relação à soberania britânica das ilhas Maldivas, territórios disputados entre a Argentina e o Reino Unido.
As propostas fazem parte de um comunicado que expressa frustração com algo que os EUA entenderam como relutância e rejeição por parte de seus aliados.
Um alto funcionário do Pentágono, falando em condição de anonimato, disse à Reuters que o sentimento vem especialmente devido à negação de alguns países que não permitiram aos EUA direitos de acesso, ocupação e voo (conhecidos pela sigla ABO, em inglês) às suas bases e territórios para operações no Oriente Médio.
O e-mail alega que os direitos ABO são “absolutamente o básico para a Otan”, de acordo com o funcionário, que acrescenta que propostas como suspender países “difíceis” de posições importantes ou prestigiosas na aliança estavam sendo discutidas no alto escalão do Pentágono.
Publicamente, o presidente americano, Donald Trump, criticou abertamente aliados da Otan por não terem enviado suas marinhas para ajudar a reabrir o estreito de Ormuz, fechado desde o início da guerra, em 28 de fevereiro.
Chegou até a dizer que está cogitando tirar os EUA da aliança, perguntando à repórteres “vocês não fariam isso no meu lugar?” quando questionado sobre a possibilidade.
Apesar disso, os e-mails aconselhavam o país a não sair da Otan, e nem de fechar bases pela Europa. O funcionário, todavia, se negou a dizer se as propostas incluíam a remoção de tropas americanas da Europa, altamente antecipada por analistas. Comentando sobre o e-mail, o secretário de imprensa do Pentágono, Kingsley Wilson, disse: “Como o presidente Trump disse, apesar de tudo o que os EUA fizeram por nossos aliados na Otan, eles não estavam lá para nós.”
“O Departamento de Guerra [outro nome para o Pentágono, proposto por Trump] vai se assegurar de que o presidente tenha opções críveis para assegurar que nossos aliados não sejam mais tigres de papel e passem a fazer suas partes. Não temos mais comentários ou deliberações internas sobre esse assunto”, disse Wilson.
Incertezas na aliança
O presidente dos EUA, Donald Trump (à esquerda), e o secretário-geral da Otan, Mark Rutte: incidentes recentes com Trump fragilizam coesão da aliança (AFP)
O conflito israelense-americano no Irã levantou fortes dúvidas sobre o futuro do bloco e preocupações de que os EUA não ajudariam seus aliados europeus caso fossem atacados, apuram analistas e diplomatas.
Segundo a Reuters, as opções de política detalhadas no e-mail também tinham como intenção enviar uma mensagem forte à Otan, com o objetivo de “reduzir a sensação de direitos excessivos por parte dos europeus.”
Por sua vez, o Reino Unido, a França e outros países europeus argumentaram que se juntar ao bloqueio naval americano equivaleria a entrar na guerra, mas mostraram-se dispostos a ajudar a manter a passagem aberta assim que houvesse um cessar-fogo mais robusto ou o fim do conflito. Mesmo assim, a administração de Trump insiste que a Otan deve ter mais reciprocidade nas operações.
O gabinete de Trump expressou frustração, em especial com a Espanha, cuja liderança socialista negou o acesso e o uso de suas bases militares e de seu espaço aéreo pelos EUA, que têm duas bases importantes no país.
O e-mail argumenta que a remoção da Espanha da aliança teria um efeito limitado nas operações militares americanas, mas um impacto simbólico importante, apesar de não haver um mecanismo burocrático na Otan especificamente para esse tipo de processo.
"Não trabalhamos com base em e-mails. Trabalhamos com base em documentos oficiais e posições governamentais, neste caso, dos Estados Unidos", disse o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, ao ser questionado sobre o relatório antes de uma reunião de líderes da União Europeia no Chipre para discutir temas como a cláusula de assistência mútua da Otan.
Ilhas Maldivas em disputa?
O comunicado também inclui, como opção, repensar a posição oficial diplomática americana em relação a territórios europeus fora da Europa, como as ilhas Maldivas, na costa da Argentina, território contestado entre o país sul-americano e o Reino Unido.
Atualmente, os EUA defendem a administração das ilhas pelo Reino Unido, mas essa consideração pode vir a mudar à luz das tensões na Otan e da aliança do presidente argentino, Javier Milei, com Trump. Além disso, o republicano criticou o premiê britânico, Keir Starmer, por sua relutância em participar do conflito no Irã, dizendo que Starmer “não era nenhum Winston Churchill” e descrevendo os porta-aviões da Marinha britânica como “brinquedos”.
As ilhas foram palco de um breve, mas intenso conflito armado entre os países em 1982, que resultou na morte de cerca de 650 soldados argentinos e 255 britânicos, antes da rendição da Argentina. Um porta-voz do premiê britânico disse que decisões sobre a soberania das ilhas seguem com o Reino Unido:
"A soberania pertence ao Reino Unido e o direito das ilhas à autodeterminação é fundamental. Essa tem sido nossa posição constante e continuará sendo", disse o porta-voz aos repórteres na sexta-feira.
Em declaração à imprensa no Pentágono no início deste mês, o secretário de Defesa, Pete Hegseth, afirmou que "muita coisa veio à tona" com a guerra contra o Irã, observando que os mísseis de longo alcance iranianos não podem atingir os Estados Unidos, mas podem alcançar a Europa.
"Recebemos perguntas, obstáculos ou hesitações... Não se tem uma aliança sólida se houver países que não estão dispostos a estar ao seu lado quando você precisa deles", disse Hegseth.
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