'Ouça mais e aprenda mais': a receita de Fábio Coelho para liderar o Google Brasil

Por Tamires Vitorio 29 de Abril de 2026 👁️ 0 visualizações 💬 0 comentários
'Ouça mais e aprenda mais': a receita de Fábio Coelho para liderar o Google Brasil

“Ouça mais e aprenda mais.” É esse o conselho que Fábio Coelho, presidente do Google Brasil há 15 anos, daria a si mesmo no primeiro dia no cargo, em 2011. Ao longo desse período, o executivo afirma ter abandonado modelos prontos de gestão para consolidar uma abordagem baseada em quatro pilares: pessoas certas, confiança, visão compartilhada e respeito.

Segundo ele, “pessoas seguem pessoas”, e a criação de valor depende de equipes engajadas, competentes e alinhadas em torno de um propósito comum.

Esse modelo explica a retenção de talentos na operação brasileira. Parte da equipe trabalha com Coelho há mais de uma década, o que, segundo ele, criou relações de longo prazo com alto nível de compromisso. “Tenho um novo compromisso com as pessoas que trabalham comigo — algumas há 10, 12, 14, 15 anos. Relações profundas [...] criam um nível diferente de compromisso, cumplicidade e intimidade”, afirma.

No ambiente atual, descrito por ele como mais transparente, profissionais escolhem onde trabalhar. “Grande parte dos bons profissionais escolhem onde vão trabalhar. Nós mantemos um ambiente de respeito e confiança”, diz. Para o executivo, equipes que entendem o impacto do próprio trabalho respondem melhor a desafios complexos e sustentam resultados no longo prazo.

Do comando à construção coletiva

A mudança de abordagem veio da experiência. Antes de chegar ao Google, Coelho já ocupava cargos de presidência desde 2000 e acreditava ter uma fórmula consolidada de gestão. “Eu achava que tinha uma receita de sucesso pronta”, afirma. A entrada na empresa exigiu revisão desse modelo.

Segundo ele, estruturas hierárquicas rígidas perderam eficiência ao longo do tempo. “O processo decisório, quando você envolve mais gente, é melhor. Uma hora alguém tem que decidir, mas esse alguém deve ser um coletivo”, afirma. A decisão coletiva, ainda que mais lenta, tende a gerar resultados mais consistentes.

Transformação tecnológica e pessoal

Ao assumir o cargo, em 2011, o ambiente digital no Brasil ainda era incipiente. Plataformas como Orkut e YouTube estavam em estágios iniciais de adoção, e o digital ocupava papel secundário nos negócios. “Mudou tudo. Mudou a relação do brasileiro com a tecnologia”, afirma Coelho.

Ele descreve a evolução em etapas: a tecnologia começou como acessória, tornou-se complementar, ganhou centralidade durante a pandemia e, atualmente, ocupa posição preponderante, impulsionada pela inteligência artificial. Nesse processo, o próprio Google ampliou sua atuação no país, com maior presença em publicidade, infraestrutura e serviços em nuvem.

A transformação também ocorreu no plano pessoal. “Hoje elas são adultas. Tenho uma filha que mora na China. [...] a possibilidade de participar da vida dela à distância só é possível por causa da tecnologia”, afirma. O executivo diz que vive hoje o momento de empty nesters, com mudanças na rotina e maior atenção à saúde e ao tempo.

IA e futuro do Brasil

Para Coelho, a inteligência artificial não representa uma bolha, mas uma mudança estrutural. “A IA é uma forma de geração de inteligência, informação e conhecimento que, até pouco tempo atrás, não era possível”, afirma. Ele associa o avanço à combinação de infraestrutura, capacidade computacional e novos modelos.

O executivo destaca o potencial do Brasil em setores como agronegócio, energia e logística, com uso de IA para ganho de eficiência e escala. Também cita a ampliação do acesso à educação por meio de plataformas digitais e o papel de ferramentas como o YouTube nesse processo.

Segundo ele, o desafio está em transformar casos isolados em escala nacional. “O avanço tecnológico ocorre em várias frentes, mas o desafio é transformar casos isolados em escala”, afirma.

Legado e continuidade

Após 15 anos no comando, Coelho afirma que a preocupação com legado ganhou centralidade. “Quando você fica 15 anos em uma empresa, você passa a ter uma preocupação maior não só em construir, mas em deixar legados”, afirma.

Esse movimento inclui abrir espaço para novas lideranças. “Você se preocupa mais em abrir espaço para as pessoas que virão e ocuparão posições importantes”, diz.

Apesar das transformações, ele afirma que uma convicção permanece. “Uma das poucas coisas que não mudou na minha vida é usar a tecnologia para fazer o Brasil melhor.”

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