Outro 'inverno cripto': qual será o aprendizado deste?
Por Fábio Plein*
Este ano começou com a pergunta que vira e mexe ganha destaque: “será o fim do bitcoin?”. Segundo o site Bitcoin is Dead, a moeda já foi dada como morta “apenas” 471 vezes desde outubro de 2010. A cada novo "inverno cripto", o roteiro se repete: os ciclos de queda acentuada alimentam as especulações e ressuscitam o velho ceticismo. Assim, a narrativa oscila entre o título de melhor investimento do século e o do fracasso de uma era.
Excluindo o sensacionalismo, o mercado sempre foi marcado por grandes alterações, assim como no sistema financeiro tradicional. Este não é o primeiro inverno do setor e certamente não será o último, embora cada um tenha suas características próprias. A volatilidade do mercado cripto é marcada por alguns fatores principais: política monetária global, com juros altos diminuindo a liquidez; redução de capital de risco em tecnologia; correções após ciclos de alta; eventos regulatórios; liquidações; e movimentos especulativos.
Assim como nas estações do ano, o inverno vem e vai, mas isso está longe de significar que o fim do bitcoin está chegando. Ao contrário, embora o conflito no Irã e a volatilidade dos preços do petróleo estejam gerando ruído nos mercados financeiros, o bitcoin superou o desempenho dos ativos tradicionais desde o início da guerra subindo 12%, enquanto outros ativos caíram 5%. Durante a semana de 13 de março, os influxos líquidos para os 12 ETFs de bitcoin à vista cotados nos Estados Unidos ultrapassaram os 763 milhões de dólares. Essas tendências sugerem que o mercado de criptomoedas está absorvendo os choques macroeconômicos, em vez de passar por um ciclo generalizado de desalavancagem por aversão ao risco.
Desde 2015, a criptomoeda já passou por sete momentos de queda com duração de, no mínimo, três meses consecutivos – no atual, atingiu cinco meses seguidos de desvalorização em fevereiro, algo próximo a 40%. E, considerando os seis períodos anteriores, o BTC registrou valorização a longo prazo em quatro deles. O cerne da questão, aqui, é que o setor já passou por momentos similares em que, cada um, trouxe uma fase de consolidação e evolução da infraestrutura. Momentos de retração são, também, períodos de construção tecnológica e amadurecimento do setor.
Um desses momentos marcantes ocorreu em 2018, após o boom das ICOs (ofertas iniciais de moedas), que haviam atraído grande volume de capital especulativo nos anos anteriores. Centenas de projetos captaram recursos sem modelos claros de governança, tecnologia ou utilidade real. A queda revelou os riscos de um mercado dominado por projetos pouco estruturados e altamente especulativos, transparecendo a necessidade de fundamentos mais sólidos, maior transparência e desenvolvimento de uma infraestrutura mais robusta. Esse período serviu de aprendizado para o crescimento do setor.
Já em 2022, em vez de projetos experimentais, o colapso de grandes empresas do setor expôs as fragilidades em governança, alavancagem e gestão de liquidez e gerou uma crise de confiança entre investidores e desvalorização generalizada dos ativos digitais. O episódio acelerou debates globais sobre regulação e compliance no setor, reforçando a importância de custódia segura, segregação de ativos, transparência e supervisão regulatória.
Dados do estudo semanal bitcoin e liquidação de software da Coinbase, de 20 de fevereiro de 2026, apontaram que investidores institucionais já detêm 29,4% das cotas dos ETFs à vista de bitcoin, um avanço relevante em relação aos 24% registrados no primeiro trimestre de 2025, de acordo com análises de registros regulatórios nos Estados Unidos.
O aumento dessa participação institucional sugere que muitas grandes instituições financeiras estão deixando para trás a fase inicial de cautela e adotando gradualmente uma exposição mais estruturada ao ativo. O investidor está mais consciente dos riscos do mercado e comprando e mantendo seus ativos independentemente do preço no curto prazo. Agora, o cenário é favorável para aqueles que acompanham as oscilações no valor de seus portfólios e mantêm o foco nos fundamentos de longo prazo.
Hoje, o setor conta com maior participação institucional, avanços regulatórios em diferentes países e uma infraestrutura tecnológica mais sólida. O avanço do CLARITY Act nos EUA, somado ao já estabelecido MiCA na Europa, reduz a fragmentação do mercado e atrai investidores institucionais. O progresso nos EUA adiciona um impulso extra a nível global, ajudando a alinhar os principais mercados financeiros em torno de regras mais claras e reduzindo a fragmentação. Esse tipo de convergência é essencial para fomentar a inovação transfronteiriça, a participação institucional e o investimento de longo prazo em ativos digitais.
Para 2026, a expectativa é de um mercado cada vez mais marcado pela consolidação de players globais, pela ampliação da presença institucional e pelo avanço de casos de uso mais concretos, como pagamentos com stablecoins, tokenização de ativos e integração com o sistema financeiro tradicional.
Devemos reconhecer que o setor cripto ainda é fragmentado e, justamente por isso, o “everything exchange”, a evolução das plataformas de negociação para além do modelo tradicional de corretora, se torna pilar estratégico. A ideia é que exchanges passem a oferecer um ecossistema financeiro mais completo, reunindo em um único ambiente serviços como negociação de ativos digitais, custódia, pagamentos, stablecoins, staking e soluções voltadas ao público institucional.
Nesse modelo, a exchange deixa de ser apenas um ponto de compra e venda de criptomoedas e passa a ser a principal ferramenta financeira tanto para consumidores como para instituições. Para empresas como a Coinbase, essa estratégia reflete uma visão de longo prazo: levar o futuro das finanças a 1 milhão de pessoas, simplificar a experiência do utilizador, reduzir os atritos entre os diferentes serviços e contribuir para a integração gradual entre o mercado de criptoativos e o sistema financeiro tradicional.
Ciclos são naturais em mercados emergentes e a volatilidade não invalida o potencial, apenas revela o processo de maturação e o crescimento da infraestrutura institucional – evidenciada, inclusive, pela entrada de instituições financeiras, produtos financeiros baseados em cripto e, claro, pela expansão do ecossistema global.
O bitcoin ainda é volátil, mas faz parte de uma nova classe de ativos em formação. O verdadeiro teste para investidores é entender se os fundamentos da tecnologia permanecem relevantes no longo prazo, e não só prever o próximo movimento.
*Fábio Plein é Diretor Regional para as Américas da Coinbase.
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